quarta-feira, 13 de junho de 2018

Conteúdo - Um grande amor em pequeno formato

Em 1917, o ano arrancava com a esperança de que a guerra que assolava o território europeu chegasse ao fim. Neste Postal da Grande Guerra ficaremos a conhecer a história de um casal que não se deixou separar pela distância.
O Corpo Expedicionário Português preparava-se para partir para França com milhares de homens mobilizados.
Mas houve um elemento mais pequeno que também foi mobilizado e que cumpriu o seu dever militar: o bilhete postal…

Na mesma altura, partia o alferes Júlio Serras Pereira. Entre Janeiro de 1917 e Abril de 1919, envia à sua namorada em Lisboa, Clotilde Marçal, quase 200 postais, escolhidos a dedo. Nalguns imagina que o chapéu da donzela que ilustra o postal ficaria muito bem a Clotilde. Envia postais das várias localidades por onde passa, com propaganda contra os alemães e a favor dos aliados, com flores que lhe oferece…

É uma história de um grande amor em pequeno formato que terminará em casamento quando Serras Pereira regressa finalmente à capital.

A neta doou a colecção ao Museu da GNR no Quartel do Carmo em Lisboa.














Conteúdo - Participação portuguesa na Grande Guerra em números


Portugal enviou mais de cem mil homens para combater em Angola, Moçambique e França tendo sofrido alguns milhares de baixas no três teatros de operações.
O maior contingente de soldados foi enviado para França, mas as baixas mais significativas registaram-se em Moçambique. O RTP Ensina deixa-lhe alguns dados importantes para perceber o que aconteceu entre 1914 e 1918.

Conteúdo - Portugal com dois fusos horários


Em junho de 1916 Portugal começava a ter dois fusos horária e era ao Real Observatório Astronómico de Lisboa que competia "fazer a transmissão telegráfica da hora oficial às estações semafóricas e outros pontos do país".
Em 1912, a hora em Portugal passou a reger-se pelos Fusos Horários da Convenção de Washington, e a hora continental passou a ser a do Fuso das zero horas, pelo meridiano de Greenwich.

Um decreto de 1915 regulamentou o Serviço da Hora Legal em relação ao novo relógio público construído em finais de 1913 e colocado na Praça Duque de Terceira (Cais do Sodré), ao lado do edifício do então escritório da Exploração do Porto de Lisboa.

O relógio estava ligado ao Observatório por cabo eléctrico e era por ele que os navios que chegavam ao porto de Lisboa acertavam os relógios.

Já vinha de 1784 dos Estados Unidos da América a ideia do Daylight Saving Time, ou horário de verão: mudar a hora para ganhar uma hora de sol e poupar energia. Mas foi só em 1916, e perante a falta de carvão, que a Alemanha em guerra resolveu mudar a hora. Seguiram-se os aliados e Portugal não foi excepção.

De 17 para 18 de Junho, pela primeira vez, a hora mudou em Portugal e os relógios foram adiantados uma hora. Houve polémica, humor e censura, mas a verdade é que – com algumas interrupções – o hábito de mexer nos ponteiros do relógio se manteve durante os últimos 100 anos.

E se por um lado se decretava a mudança de hora para poupar carvão, por outro concedia-se tolerância aos teatros, permitindo que estes abrissem mais tarde para evitar prejuízos. Assim enquanto os aliados tinham teatro pelas oito da noite, em Portugal subia-se ao palco só pelas 22 horas, o que criava outros problemas: os espectáculos acabavam entre a uma e as duas da manhã, altura em que as carreiras de carros eléctricos tinham terminado.

A solução foi mudar o horário dos eléctricos e o último passou a sair do Rossio pela 1.50 horas da manhã.

Portugal era, afinal, um país moderníssimo.

Conteúdo - I Grande Guerra: Prisioneiros do Passado


Passaram fome, viveram entre ratos e baratas. Os prisioneiros portugueses da I Grande Guerra tiveram um vida difícil nos campos alemães. Em Portugal as famílias também passavam dificuldades, pois muitas vezes não sabiam qual o destino dos filhos, irmãos ou maridos, e acreditavam que estes tinham morrido em combate quando, de facto, tinham sido capturados.
Dos 50 mil portugueses mandados para as trincheiras da frente ocidental, na I Grande Guerra, milhares perderam a vida e muitos mais foram feitos prisioneiros.

Só na Batalha de La Lys, em abril de 1918, mais de 6500 portugueses foram capturados e levados para campos de concentração na Alemanha. Não há muita informação sobre o que passaram esses militares e foi isso que chamou a atenção de Maria José Oliveira, autora do livro “Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial – Frente Europeia – 1917/1918”.

Também ajudou a despertar a curiosidade a sua experiência familiar, pois o avô chegou a ser declarado morto e a família realizou mesmo um funeral sem cadáver. Em 1919 este regressaria depois de ter estado num campo de prisioneiros sem que o seu nomes alguma vez aparecesse nas listas.

Conteúdo - Adesão à União Europeia: o que devem os países fazer


A União Europeia começou por ser um grupo de seis países. Bélgica, França, República Federal Alemã, Itália, Luxemburgo e Holanda, assinaram em 1957 o Tratado de Roma, fundador da CEE. Mas nestes 60 anos passados, muitos outros Estados do velho Continente conseguiram entrar no "clube de Bruxelas". A UE tem agora 28 membros e há mais em lista de espera. Porque o processo é longo e complexo, como aqui fica explicado.
Todos os países da Europa podem ter a ambição de pertencer à grande família europeia e apresentar um pedido formal de adesão ao Conselho Europeu. Porém, só os que respeitam e promovem valores comuns ao espaço comunitário, como a liberdade, a democracia e os direitos humanos, têm luz verde de Bruxelas para passar à fase dois, a fase em que são considerados países-candidatos. Cumpridos os critérios de Copenhaga, estabelecidos em 1993, as negociações com vista à integração são depois encetadas.

Quase sempre os países têm de fazer grandes esforços para responder às exigências dos dirigentes da União. O processo é complexo e pode demorar anos, como foi o caso da Croácia. A antiga república jugoslava, dilacerada pela guerra dos Balcãs nos anos noventa, esperou uma década até completar todas as formalidades para se tornar membro pleno das instituições europeias. Só em 2013, após estabilizar a situação política em fronteiras terrestres, sanar divergências étnicos e garantir a extradição de alegados criminosos de guerra para o Tribunal Penal Internacional, a Croácia tornou-se o vigésimo oitavo Estado- Membro da União Europeia. Neste momento decorrem negociações de adesão com a Sérvia, Montenegro e Turquia.

O alargamento da organização que nasceu em Roma a 25 de março de 1957 está sintetizado nesta reportagem e aprofundado no sítio oficial da União Europeia.

Conteúdo - A Escola de Aviação de Vila Nova da Rainha


No início do século XX, o desejo de dotar Portugal de asas levou à publicação do decreto que criou a escola de aviação militar em 1912. Esta levaria alguns anos a sair do papel, mas a quase totalidade dos nossos pilotos pioneiros passou por lá.
Em Portugal a primeira demonstração de voo com um aeroplano teve lugar no antigo ‘Hipódromo de Belém’, a 27 de outubro de 1909, pelo piloto francês Armand Zipfel, que pilotou um aeroplano “Voisin Antoinette” de 40 CV”. A experiência “não foi das mais felizes”, devido ao vento e o piloto quase perdeu a vida quando o aparelho acabou em cima de uma casa.

Entre 14 e 22 de Novembro de 1909, em Linda-a-Pastora, nos arredores de Lisboa tiveram lugar os primeiros voos sem motor com portugueses aos comandos.  Artur de Morais, Raúl Marques Caldeira, Alberto Cortez e Cisneiros de Faria – alunos do Instituto Industrial, – e Ezequiel Garcia – jornalista – utilizaram dois planadores tipo «Charute» para ralizar 25 experiências de voo.

N0 mesmo ano Abeillard Gomes da Silva, construiu em Paris um avião designado «Gomes da Silva I», com o qual fez várias tentativas de levantar voos no aeródromo de Issy les Moulineaus, sem obter êxito.

Em 1909 surge o Aero-Club de Portugal e a 11 de dezembro tira brevet o primeiro piloto português civil: Óscar Blank.

A revolução republicana de 1910 não teve impacto nos sonhos de elevar Portugal acima do solo.

Pelo contrário Gomes da Silva obteve o necessário apoio do Governo para a construção do seu «Gomes da Silva II», e para o efeito instalou-se em Tancos, na escola Prática de Engenharia. As experiências de voo começaram em 14 de Março de 1910, de forma acidentada, levando-o eventualmente a desistir da ideia.

O primeiro voo de um aeroplano a motor em Portugal aconteceu a 27 de Abril de 1910. Aos comandos estava o francês Julien Mamet, que descolou o seu aeroplano «Blèriot» do aeródromo de Belém, em Lisboa, efetuando um largo círculo a 50 metros de altura sobre a Casa Pia passando pelo Tejo, regressando ao ponto de partida, onde recebeu uma ruidosa ovação do público presente.

O ano de 1912 foi pleno de novidades e a 24 de Junho, numa sessão da Câmara de Deputados, surgiu um Projeto de Lei visando a criação da Aviação Militar. Em agosto, chegou o primeiro aeroplano a Portugal, comprado pel’ O Comércio do Porto.

O biplano “Farman-Maurice”, foi adquirido e escolhido por Cisneiros de Faria. Estava equipado com um motor Renault de 70 CV e podia transportar carga útil até 300 quilos. Fazia ligações entre Porto e Lisboa, com os pilotos Leopold Trescartes, Paulham e Roland Garros.

Assistiram mais de 60.000 pessoas ao primeiro voo no campo do Castelo do Queijo. O aeroplano fez evoluções sobre a cidade do Porto, Foz e Matosinhos, chegando a elevar-se a 300 metros de altura. O aparelho foi depois transportado para Lisboa onde, a 27 de setembro de 1912, realizou igualmente um voo de demonstração no Hipódromo de Belém.

Dias antes, a 10 do mesmo mês, Alberto Sanches de Castro, aos comandos de um “Voisin Antoinette”, tinha-se tornado o primeiro piloto aviador português a voar céus nacionais sobre o Mouchão da Póvoa de Santa Iria.

A 28 de setembro, após a exibição do “Farman-Maurice” de Cisneros, chegou a Lisboa um monoplano “Deperdussin” tipo B, oferecido ao Governo português pelo coronel brasileiro Albino da Costa, originário de Sever do Vouga. A 8 de outubro, desembarcava também na capital o biplano “Avro 500”, designado “República”, adquirido em Inglaterra através de uma subscrição do Partido Republicano.

Destinado ao exército, podia ler-se na revista Ilustração Portuguesa, que o aparelho “se tem elevado com êxito do aeródromo de Belém e pairado sobre a cidade”. Pilotado pelo inglês Copland Perry, acabou por ter uma avaria num desses voos amarando no Tejo.

O resto do ano será profícuo em iniciativas. A partir de 11 de Outubro, no Porto, num hipódromo situado na rua Oliveira Monteiro, iniciaram-se uma série de voos num aparelho «Borel».

A 7 de Novembro de 1912, José Nunes da Mata, da Escola Naval, foi autorizado pelo Ministério da Guerra a dirigir a construção do seu invento nas oficinas do Estado, mais um sonhador que viu a sua ideia redundar num fracasso. No dia seguinte iniciaram-se as primeiras experiências de voo com um aparelho «Voisin», adquirido pelo jornal «o Século», e que tinha sido montado na Escola de Torpedos de Paço de Arcos, em Lisboa. Entre 8 e 9 de Novembro este aparelho voou controlado pelo piloto francês Morel, mas no segundo dia sofreu um espetacular acidente, que o danificou.

1912 fecha em Dezembro com a entrega no Ministério da Guerra, do relatório da comissão encarregue de proceder ao estudo da organização da Aeronáutica Militar. Foi ainda apresentado o relatório da comissão encarregada do estudo da organização da aviação em Portugal.

Em 26 de janeiro de 1913 avistou-se o primeiro avião a cruzar os céus da Amadora. O francês Alexandre Théophile Sallés parte do hipódromo de Belém e aterra nos terrenos do Casal do Borel, partindo parte considerável do aeroplano, bem como o hélice, na aterragem, perante uma considerável multidão. O avião teria reparação.

O Governo decidiu ainda criar o Serviço de Aeronáutica Militar e a primeira escola de aviação militar, em Vila Nova da Rainha, projeto que seria inaugurado a 1 de setembro de 1916, sob severas críticas. A Capital, de 16 de maio de 1916, trazia um extenso artigo que denegria a forma como o aeródromo estava a ser organizado, sem consultas do ponto de vista técnico aos “pensionistas que foram tirar os seus brevets às escolas de Inglaterra, França e Estados Unidos”. O mesmo jornal apontava depois os custos que uma esquadrilha operacional comportava ao erário público.

Ao Governo português, apesar do estado deplorável das finanças e de necessitar empréstimos para participar na guerra, estas considerações pareciam não incomodar.

A Aeronáutica Militar viria a ser criada em 14 de Maio de 1914 com o primeiro concurso para dez pilotos ocorrido em 14 de Agosto de 1915.

Em fevereiro de 1916 o Ministério da Guerra solicita à Grã-Bretanha ajuda na formação dos pilotos. Foram enviados para as escolas de aviação civil de Hendon e militar de Northolt os tenentes António Sousa Maya e Óscar Monteiro Torres, além do alferes Alberto Lello. Em junho de 1916 os três obtiveram os seus brevets.

A intenção do Governo era formar na Escola de Aviação Militar um corpo aéreo militar do CEP – Corpo Expedicionário Português e os alunos chegavam de diversas armas. De cavalaria, o capitão Alberto Cifka Duarte, os tenentes António Sousa Maya, Francisco da Cunha Aragão, Óscar Monteiro Torres, Alberto Lello Portela, e o alferes João Salgueiro Valente.

De Artilharia, o capitão Norberto Ferreira Guimarães, de Infantaria o tenente José Barbosa Santos Leite e o alferes Carlos Esteves Beja.

Para atrair voluntários para o curso, o Capitão Norberto Guimarães, efetuou em Março de 1917, um voo de propaganda aeronáutica com escalas em várias cidades conseguindo a adesão de muitos oficiais das unidades visitadas, formando um grupo inicial que deu início ao primeiro curso de pilotagem militar na Escola de Pilotagem de Vila Nova da Rainha. Dali saíram pilotos como Sarmento de Beires ou Pinheiro Correia, que protagonizaram nos anos seguintes alguns dos feitos mais heróicos da história da Aviação Portuguesa.

Também por Vila Nova da Rainha passou Sacadura Cabral, que lá levou em 23 de fevereiro de 1917 o seu grande amigo e companheiro de África, Gago Coutinho, a ‘dar uma voltinha’.

O sonho de criar um corpo aéreo do CEP, no entanto, nunca levantou voo. Os ingleses não atenderam os sucessivos pedidos de equipamento colocados pelo Governo português e os franceses também mostraram não ter possibilidade de se substituírem aos ingleses, o que colocou um ponto final ao projeto de criar uma esquadrilha portuguesa na Flandres.

O Capitão Norberto Guimarães, nomeado para formar e comandar o Serviço de Aviação do CEP, não desistiu e graças às boas relações com o Estado-Maior Francês, conseguiu uma vitória, com pilotos portugueses a serem colocados em escolas de aviação francesas e, posteriormente, em esquadrilhas de caça ou de bombardeamento francesas.

Apesar do Governo ter ordenado a dissolução do Serviço de avião do CEP, em Março de 1918, os pilotos portugueses desafiaram as ordens de regressar a Portugal e continuaram a combater em França até ao fim da guerra.

Conteúdo - Submarino alemão afundado nos Açores durante a II Guerra Mundial


No dia 2 de fevereiro de 1942, desenrolou-se um combate entre submarinos alemães e navios da marinha de guerra britânica ao largo da ilha do Pico. Um submersível afundou-se em resultado do confronto, tendo sido encontrado 75 anos depois, a mais de 800 metros de profundidade.
Foram necessários quase 15 anos de trabalho para localizar os destroços, e só em 2016, com a ajuda de um avançado submersível científico, foi possível aos investigadores Joachim e Kristen Jackobens, da fundação Rebikoff Niggeler, confirmar a localização dos restos do U-581.

O U-boat fazia parte de uma pequena flotilha que esperava a saída do porto de da Horta de um navio transportando soldados, o Llangibby Castle,  danificado pelo torpedo de outro submarino dias antes. O transporte tinha sido atingido na popa a 16 de janeiro de 1942 e, sem leme, refugiara-se nos Açores, onde fez reparações e esperou por escoltas que o acompanhassem até Gibraltar.

O U-581 foi um dos três submarinos destacados para tentar afundá-lo, mas a presença de três navios de guerra da Marinha Real Britânica tornou-o num alvo e seria o HMS Westcott a fazer o ataque que o destruiu. Os tripulantes conseguiriam salvar-se.

Kirsten e Joachim Jakobsen, investigadores da fundação Rebikoff-Niggeler, só conseguiram verificar a posição dos destroços do submarino através do sonar do “LULA 1000”, um submersível tripulado capaz de mergulhar até 1000 metros de profundidade, usado para investigação a grandes profundidades.


Conteúdo - As companhias monopolistas do Marquês de Pombal: o real vinho do Porto


Reinava a desordem na produção e comercialização do vinho do Porto, setor largamente controlado pelos ingleses, quando o Marquês de Pombal interveio para resgatar este produto-chave da economia portuguesa do século XVIII. Fundada a 10 de setembro de 1756 por alvará régio de D. José I, a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro visava proteger a qualidade do precioso vinho, mas pequenos produtores e comerciantes resistiram ao monopólio pombalino.
A El-Rei de Portugal pediram os Lavradores de Cima do Douro e os Homens Bons da Cidade do Porto proteção para o vinho licoroso que lhes garantia o sustento. O produto andava a perder-se com os negociantes ingleses: adulterado na sua produção com aguardente, era vendido a «preços excessivos e assemelhava-se já a alguns vinhos franceses. Antes que a reputação se dissolvesse na ganância, era urgente intervir com uma regulamentação que defendesse a cultura, a qualidade e o preço do apreciado néctar, precioso para a economia portuguesa.

O apelo fundamentava o essencial das convições económicas do ministro do Estado. Sebastião José de Carvalho e Mello, conde de Oeiras e futuro Marquês de Pombal, defendia a reorganização do comércio num sentido mercantilista, criando monopólios majestáticos confiados a companhias privilegiadas.

Fundada a 10 de setembro de 1756, a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro tinha como objetivo  principal «sustentar com reputação dos vinhos a cultura das vinhas e beneficiar ao mesmo tempo o Comércio, que se faz neste género, estabelecendo para ele um preço regular, de que resulte competente conveniência aos que o fabricam, e respetivo lucro aos que nele negoceiam».

Não tão antiga como a vinha no Douro é certo, mas esta Companhia com competências e privilégios tantos que chegou a substituir o Estado na cobrança de impostos, na construção de estradas e nas obras de navegabilidade do rio, veio organizar a viticultura duriense e criar a primeira região demarcada do mundo.

Depois da assinatura do alvará régio, Pombal mandou marcar as terras onde era produzido o melhor vinho, destinado sobretudo à exportação. Mas as regras e os códigos protecionistas da Real Companhia Velha, como ficou a ser conhecida em finais do século XIX, suscitou oposições e resistências dos produtores que não pertenciam à zona demarcada, e dos comerciantes ingleses.

No entanto, a surpresa maior viria de onde menos o poder central esperava. A revolta que incendiou o Porto seria protagonizada pelos taberneiros, estes inconformados com a obrigação em vender apenas o chamado vinho da Feitoria. O motim não terminaria sem sangue. Pombal, uma vez mais com mão de ferro, «meteu o Porto na ordem» com castigos exemplares: 26 pessoas foram condenadas à morte, outras ao degredo e à confiscação de bens.

A caminho dos três séculos de história, a poderosa Companhia fundada para colocar ordem no comércio do vinho do Alto Douro, hoje afamado mundialmente, sobreviveu à passagem do tempo: é a empresa mais antiga do país e tem a sua emblemática sede em Vila Nova de Gaia.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Conteúdo - O estranho acidente que impediu que Portugal e Espanha fossem um único país


Dom Afonso de Portugal  nasceu em Lisboa no dia 18 de Maio de 1475 e faleceu em Santarém a 13 de Julho de 1491. Era o único filho e herdeiro de D. João II e de D. Leonor, Reis de Portugal. O rei tanto adorava este seu filho que, em sua homenagem, baptizou de “Príncipe” a ilha mais pequena do arquipélago de São Tomé e Príncipe.

Ainda em criança, D. Afonso casou com a princesa Isabel de Aragão, filha mais velha dos Reis católicos. Ficara escrito no tratado de anulação das terçarias de Moura, que aos 14 anos, o príncipe herdeiro D. Afonso casaria com a infanta Joana, filha segunda dos Reis Católicos, mas se a sua irmã mais velha, herdeira dos reinos de Castela, Aragão e parte de Navarra, ainda se encontrasse solteira nessa altura, então o matrimónio do príncipe Afonso, efectuar-se-ia de preferência com ela e foi mesmo isso que aconteceu.

Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão tinham um herdeiro, Juan, que era um jovem frágil e que viria a falecer com dezanove anos de idade. A princesa Isabel seria, portanto, a herdeira mais provável das coroas de Castela e Aragão e, como estava casada com o Príncipe herdeiro de Portugal, adivinhava-se uma união dos reinos ibéricos sob a alçada de Portugal.

Estava implícito neste acordo o plano da união ibérica, pelo que alguns boatos sobre a possível aproximação, para efeitos de casamento com a infanta Isabel a mais velha e herdeira, com as casas de França e de Nápoles, não passavam disso mesmo, pois nada mais poderia agradar à coroa de Castela que o casamento da sua herdeira com o infante de Portugal.

Em Janeiro de 1490, foram convocadas cortes, reunindo-se em Évora no mês de Março, que aprovaram o enlace e estabeleceram uma contribuição de 100.000 cruzados, para cobrir as despesas com as solenidades. Os esponsais celebraram-se em Sevilha, num domingo depois da Páscoa, debaixo de grandes festejos. Desde essa data o príncipe Afonso e a infanta Isabel estavam casados por procuração.

A reunião dos noivos, viria a realizar-se já perto do fim desse ano, depois de grandes preparativos, minuciosamente dirigidos pelo próprio Rei. Tudo preparado com grande fausto, conforme descrito por Garcia de Resende. Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão tinham um herdeiro, Juan, que era um jovem frágil e que viria a falecer com 19 anos de idade.

A princesa Isabel seria, portanto, a herdeira mais provável das coroas de Castela e Aragão e, como estava casada com o Príncipe herdeiro de Portugal, adivinhava-se uma união dos reinos ibéricos sob a alçada de Portugal.

Os Reis católicos tentaram manobrar diplomaticamente para dissolver o casamento, sem sucesso, dada a influência portuguesa junto do Papa. A sua causa estava aparentemente perdida, quando um acidente salvou Castela e Aragão de uma anexação.

Afonso morreu em circunstâncias misteriosas, de uma queda de cavalo durante um passeio, em Alfange, Santarém, à beira do Tejo. A hipótese de assassinato nunca foi provada, mas os Reis católicos tinham tudo a ganhar com este desaparecimento. Ainda para mais, o aio castelhano do jovem Afonso desapareceu para Castela no próprio dia, depois de ter sido a única testemunha ocular do incidente. Segundo outra fonte, (Bernardo Rodrigues, em os Anais de Arzila), o seu aio era João de Meneses, conde de Cantanhede. As preces que D. João II mandou rezar por todo o Reino e os esforços dos físicos, não conseguiram as melhoras de D. Afonso, que viria a falecer no dia 13 de Julho de 1491.

As exéquias decorreram no mosteiro da Batalha, com o espectáculo de dor habitual nas épocas medievais, homens que arrancavam as barbas até ficarem com o rosto em sangue, cabeças que batiam contra o cadafalso ou mulheres arranhando desesperadamente a face.

Depois da morte de D. Afonso, D. João II nomeou como sucessor o Duque de Beja, seu primo, que viria a governar como D. Manuel I de Portugal.

Ainda em Évora em 1490, após o casamento do filho, tinha D. João II, sofrido os primeiro sintomas da estranha enfermidade que o havia de matar. Em 1495 já não sofria apenas de mal estar e desmaios, também o seu aspecto outrora belo se havia começado a alterar devido a um inchaço.

Os seus últimos anos de vida foram, de imensa actividade em permanente mudança pelo País, um pouco como procura e qualquer lado, a receita que pudesse minimizar os seus padecimentos.

A rainha D. Leonor também adoecera gravemente, aumentando a aflição do Rei, que se nunca se recompusera do falecimento do infante, julgava agora também vir a perder a mulher.

Acabou a rainha por salvar-se e o rei, que nunca deixara abrandar a sua actividade, encontrava-se com a corte em Évora mo verão de 1495 quando uma inoportuna peste assola a cidade, obrigando a corte a retirar-se para Alcáçovas.

O mal que padecia estava avançando, de tal forma que a s mãos de tanto incharem, já mal lhe permitiam segurar uma pena para escrever de tal forma que mandara fazer uma chancela em ouro para as assinaturas.

Infrutíferas continuavam a ser as tentativas de D. João II, junto de D. Leonor, para que autorizasse a legitimação do filho Jorge, bastardo de D. João.

Tinham tido notícias de algumas maravilhas curativas que com as águas de Monchique se obtinham, que o levaram a decidir partir para o Algarve . Com o franciscano João da Póvoa se confessou e com ele redigiu o seu testamento, optando por não afrontar a Rainha e não nomear seu filho Jorge herdeiro do trono, optando por nomear D. Manuel, duque de Beja e seu cunhado.

Também cuidou em Alcáçovas antes de partir, de deixar nomeado Vasco da Gama, como capitão da frota que deveria ir à Índia.

Em Monchique porém as águas fizeram-lhe ainda pior, retirando para o Alvor, onde viria a morrer, em casa de D. Álvaro de Ataide, mas foi o próprio rei que desenganado pelos médicos, sobre as suas hipóteses de salvação, organizou o próprio cenário da sua morte, ordenou a sua extrema unção, e faleceu no dia 25 de Outubro de 1495, apenas com 40 anos, não sem antes pedir aos que o rodeavam que não o agoniassem com o seus prantos.

Isabel a Católica, quando recebeu a notícia, terá exclamado “morreu o Homem”, D. João II passou na História de Portugal a ser conhecido pelo Príncipe Perfeito.

https://www.vortexmag.net/o-estranho-acidente-que-impediu-que-portugal-e-espanha-fossem-um-unico-pais/

domingo, 3 de junho de 2018

Conteúdo - 1807: quando a Madeira pertenceu aos ingleses durante 7 anos


Na genealogia dos madeirenses, de uma classe social alta, os apelidos estrangeiros cruzam-se com os portugueses. A comunidade inglesa representa, ainda hoje, um peso enorme na economia regional. Durante décadas, o povo insular viveu de cabeça curvada. Não em relação ao Continente mas a tudo o que vinha de fora do país. Por alguma razão, na gíria diária, o turista é sempre inglês, mesmo que seja alemão.

A Madeira foi duas vezes ocupada por tropas inglesas, sendo a primeira de Julho de 1801 a Janeiro de 1802 e a segunda de Dezembro de 1807 a Outubro de 1814. Sete anos é muito tempo. A presença de tropas britânicas no Funchal teve influência nas relações entre a Ilha e a Coroa Portuguesa que sempre tiveram em conta os interesses dos britânicos. O envolvimento militar britânico deve ser contextualizado na necessidade da Royal Navy, impedir a execução dos movimentos navais franceses.

Em 1799, o brigadeiro-general Frederic Maitland, num relatório ao ministro Henry Dundas, não escondia a sua “forte apreensão pela situação da ilha” face ao movimento dos corsários. Mas a preocupação dos britânicos chegava até Madrid. Espanha iria usar as ilhas Canárias como entreposto dos rendimentos anuais vindos da América. Estava em causa a distribuição de poderes no Atlântico. A ameaça espanhola justificou a proposta do general Maitland: “A ocupação imediata da Ilha da Madeira.”

O efeito surpresa seria o melhor e quem ocupasse a Madeira, em primeiro lugar, estaria em vantagem. Os britânicos sabiam da apetência da ilha pelos franceses. Em 1796, M.D’Hermand, cônsul francês em Madrid, propôs aos seus superiores “a conquista da Madeira com o intuito de pressionar Lisboa e, dessa forma, tentar afastar Portugal da aliança inglesa”. A política de expansão de Bonaparte colocara a ilha como alvo preferencial. A Royal Navy avançou.

Depois da primeira ocupação (1801-1802), os ingleses regressam à ilha a 24 de Dezembro de 1807. Efectuado o desembarque das forças militares, logo o general britânico Guilherme Carr Beresford “se apressou a comunicar ao governador e capitão- -general da Madeira”, Pedro Meneses, que “fizesse a imediata entrega deste arquipélago”. O governador prontamente acedeu.

Esta situação manteve-se até à assinatura do Tratado de Restituição da Madeira (Londres, 16 de Março de 1808), cuja cópia chegou à Madeira em finais de Abril. O arquipélago foi então devolvido à administração civil, tendo Beresford seguido para Lisboa em Agosto do mesmo ano. Uma guarnição britânica permaneceu estacionada no arquipélago até Setembro de 1814, quando da assinatura do Tratado de Paz entre a Grã-Bretanha e a França naquele ano.

Finda a Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), com a assinatura da Convenção de Évora-Monte (1834), cessou a nomeação de Governadores e Capitães-generais para o arquipélago, sendo criado, inicialmente, o lugar de Prefeito e, em 1835, o de Governador Civil, a par de um Governador Militar.

Os ingleses foram os únicos estrangeiros que conseguiram assumir uma posição privilegiada na sociedade madeirense, criando um mundo à parte e funcionando com instituições próprias e privilégios exorbitantes, tendo o controlo quase total da economia da Ilha e fruindo da sua riqueza.

Os lucros provenientes da Madeira eram, indubitavelmente, mais consideráveis para a Grã-Bretanha do que para a sua terra-mãe (Portugal), como consequência do comércio realizado entre ela e a feitoria britânica aí estabelecida, que consistia, presentemente, em mais de vinte casas comerciais e cujas fortunas adquiridas estavam amealhadas na Grã-Bretanha.

As outras nações pouco disputavam os ingleses neste seu comércio com a Madeira. Mesmo os portugueses que tentaram competir com eles raramente prosperaram, por terem, como se supõe, menos conhecimento comercial, assim como, provavelmente, um capital e crédito mais pequenos e menos ligações com outros estrangeiros.

Os comerciantes britânicos controlavam, para seu interesse, os cultivadores de vinha, fornecendo-lhes de antemão tudo aquilo de que eles necessitam nos intervalos da vindima e nas estações mais baixas. Os seus negócios com os habitantes portugueses do Funchal também devem ter sido intensos; exceptuando este facto, parecem não existir muitas relações sociais entre eles.

A britanofobia madeirense, evidente em princípios dos sécs. XIX e XX, confunde-se, por vezes, com a afirmação do liberalismo e republicanismo, quando a origem parece ser outra. Em 1911, os republicanos madeirenses fizeram um ultimato para os britânicos abandonarem a Ilha, imposição que não foi cumprida.

A crise económica, com especial incidência no sector comercial, resultante do recuo do Império Britânico e da perda de algumas das suas colónias, começando com a independência dos EUA., fez catalisar as vozes da revolta. Foi na Madeira que primeiro se fez sentir o impacto negativo da crise do império.

https://www.vortexmag.net/1807-quando-a-madeira-pertenceu-aos-ingleses-durante-7-anos/

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Vídeo - A História Secreta de Roma


Os imperadores, generais e senadores com certeza deixaram sua marca no mundo e sabemos muita coisa sobre como viviam mas e todos os outros romanos que não deixaram estátuas ou monumentos e todos os milhões de anónimos que nunca  chegaram aos livros de história ?

sábado, 19 de maio de 2018

Vídeo - A Rainha que foi Rei


Por mais de 100 anos o Egito foi governado por homens. Foi então que apareceu Hatshepsut, ela era filha de um rei, esposa de um rei mas isso não era suficiente para ela. Essa é a história de uma grande realização, de um desejo secreto e da ambição de ser monarca. Essa é a história de uma mulher que foi à luta.

domingo, 13 de maio de 2018

Biografia - Elisa, Paulina e Carolina Bonaparte: as irmãs do imperador



 As três irmãs de Napoleão Bonaparte, Elisa, Paulina e Carolina protagonizaram histórias bem temperadas de escândalo, intrigas, luxo e ambições. Nascidas na Ilha de Córsega, numa família da pequena nobreza, chegariam duquesas e princesas e viveram em maravilhosos palácios, rodeadas do maior luxo, porque o irmão Napoleão, teve a ousadia de lutar contra toda a Europa, vencer inúmeras batalhas e por fim institucionalizar o Império e ser o primeiro imperador dos franceses. O seu reinado durou apenas 10 anos! No exílio Napoleão Bonaparte referiu-se aos irmãos lamentando que só se tivessem aproximado dele para «ganharem favores e dinheiro» e resumia assim a sua opinião : «José seria, em qualquer país uma peça de decoração na sociedade; Luciano ornamento de qualquer assembleia política; Jerónimo amadurecendo, estaria preparado para governar, porque nele descubro muitas potencialidades; Luís teria encontrado simpatias e, em qualquer lugar, poderia subir. Elisa tinha uma inteligência masculina, um ânimo forte, e nas adversidade demonstrava um espírito profundamente filosófico; Paulina, talvez a mais bela mulher do seu tempo, foi e sempre será a mais querida criatura do mundo.» Napoleão não recordou aqui Carolina, casada com o seu general mais destemido – Joaquim Murat . Segundo Madame de Rémusat, Napoleão era muito amigo das irmãs e, como satisfazia-lhes quase todos os desejos. 

UMA FAMÍLIA DA CÓRSEGA

             Dos sete irmão que Napoleão Bonaparte teve, elas, foram as preferidas, embora tivesse posto os irmãos nos tronos que ia conquistando, mas ele próprio reconhecia que os irmãos não valiam grande coisa, nem serviram bem o Império. Os nomes originais dos Buonaparte eram de origem genovesa, porque Génova fora a cidade, que desde 1557 tinha jurisdição e poder sobre a Córsega, de onde eram originários. Só em Maio de 1768 o doge de Génova cedeu ao rei de França, Luís XV os direitos sobre aquela ilha. Assim os filhos de Letizia Ramolino e Carlo Maria Buonaparte (Charles Marie) (que tiveram doze filhos, tendo sobrevivido oito) tiveram uma versão italiana e depois uma francesa. Ao mais velho Giuseppe (José 1768-1844, seguiu-se Napoleone (Napoleão 1769-1821), depois Luciano (Lucien 1775-1840), Maria Anunciata que usou o nome de Elisa (1777-1820), Luigi (Luís 1778-1846), Maria Paola ou Paolina (Paulina 1780-1825), Carlotta (Carolina 1782-1839) e Girolamo (Jerónimo (1786-1860). Nasceram todos em Ajaccio, capital da Córsega. Depois viveriam entre França e Itália. 

UM DESTINO INIMAGINÁVEL

             A sorte e a fortuna podem bater à porta de qualquer um, e as meninas Bonaparte tiveram o seu quinhão de ambas as coisas. 
             Sabemos que o ramo Buonaparte da Córsega era de origem nobre, embora não possuíam grande fortuna, pois o pai de Letícia era apenas Inspector das Pontes e Pavimentos da Ilha, mas Carlo-Maria Buonaparte (1746-1785) bem parecido e de alta estatura, com fama de mulherengo, era um homem com cultura, sabia falar bem francês e estudara Direito na Universidade de Pisa. Era advogado e foi um empenhado defensor da independência da Córsega. Casou, em 1764 com a jovem, Maria Letizia Ramolino, com apenas 14 anos. A partir de 1771 os Buonaparte passaram a escrever o nome com a grafia Bonaparte. 
             A mãe, Letizia Ramolino era católica fervorosa. Aos 35 anos está viúva com oito filhos para educar. Valeram-lhe os amigos e parentes. Há quem adiante uma relação antes e depois do casamento com um homem influente da Córsega, mas não se sabe se é verdade. Foi ela quem teve de orientar os estudos dos filhos, que educou como podia. Era uma mulher viva sensata e extremamente económica. Os filhos estudaram em colégios militares, mas as meninas, excepto Elisa, foram um pouco deixadas «à rédea solta.» 
             Nos primeiros anos a língua que se falava em casa dos Bonaparte era o italiano. Napoleão só aprendeu francês quando ingressou num colégio militar aos 9 anos. E nunca escreveu nem falou bem nem italiano nem francês. As cartas que escrevia, em campanha eram praticamente indecifráveis. Pudemos adivinhar que as meninas Bonaparte mais novas terão apenas aprendido o mínimo, para se saberem comportar em sociedade. Esperariam, como era vulgar na época, um bom casamento, sem nunca imaginarem que da noite para o dia seriam princesas e grã-duquesas, graças ao irmão imperador. 

ELISA


             Elisa Bonaparte (1777-1820) não foi apenas notável por ser irmã do imperador dos franceses. Era uma mulher de temperamento forte e embora ambiciosa mostrou-se muito empreendedora. Aluna do famoso colégio de Saint-Cyr (mais tarde passou a colégio militar), foi criado por Madame de Maintenon, favorita do rei Luís XIV e depois rainha de França. Elisa ali estudou oito anos. Aprender boas maneiras e literatura. Leu muito e adorava o poeta Racine. Segundo os biógrafos da família Bonaparte era ela quem tinha o feitio mais parecido com o do irmão imperador, daí darem-se pouco bem. Era astuta e lasciva. Teve as suas paixões, nomeadamente pelo almirante Truguet, mas uma missão deste à Sardenha afasta-os para sempre. Não foi tão requestada como as irmãs, que eram mais bonitas, mas em 1797 casou com o capitão Felix Bacciochi, um corso, belo e indolente, que viria a ser promovido por Napoleão a chefe de batalhão e depois a senador do império. Elisa não gostava de Ajaccio, cidade pequena demais para as suas aspirações e tudo faz para ir viver para Paris, com uma pensão que o irmão lhe atribuiu. Abriu um salão literário, como faziam as aristocratas e as burguesas ricas da época, onde Elisa recebia os e as famosas de então. Os salões literários eram tantos que as clientelas se dividiam por gostos e afinidades. E quantos escritores, músicos e pintores, vindos da província não foi nesses ambientes que começaram a sua vida intelectual em Paris, como o próprio Balzac. Se muitos destes salões eram local de encontro de intelectuais, artistas e políticos onde se trocavam ideias e se sabiam as últimas novidades, outros havia onde reinava uma alegre convivência e onde se passava mais ou menos discretamente do salão para a alcova. 

ASCENSÃO DE NAPOLEÃO

             A vida em França explodiu com a revolução de 1789 e o jovem Napoleão Bonaparte, em Abril de 1791 é promovido a lieutenant en premier. Na primavera de 1792 a França preparava-se para declarar guerra à Europa. Em Junho de 1793 a família Bonaparte está toda instalada em França. Está-se num período de extrema violência nas ruas. Em Outubro de 1793 o capitão Bonaparte é elevado a chefe de batalhão e, em Fevereiro de 1794, é general. Tinha 25 anos. Fez-se nomear primeiro cônsul em 1804 e o Senado nomeou-o imperador. Coroa-se a si próprio, na presença do Papa, que manda vir de Roma, no início de Dezembro de 1804. A seu lado estava a primeira mulher, Josefina de Beauharnais. As cunhadas recusaram-se a segurar na cauda de vários metros de veludo, arminho e ouro da imperatriz, mas Napoleão deu ordens expressas e obrigou-as, apenas condescendeu um pouco, as irmãs e cunhadas apenas tocavam na fímbria do manto e cada uma delas, Elisa, Paulina, Carolina e Júlia (mulher de José) e Hortense (mulher de Luís) tinham direito a usar também uma cauda, que saía dos ombros segura por camareiras. Difícil lidar com estas mulheres! 
             A primeira imperatriz dos franceses teve uma enorme influência na vida social de Napoleão e do Império, com o seu gosto requintado e com a postura de uma perfeita imperatriz, embora, como é sabido, não se coibisse de ter os seus amores, enquanto Napoleão andava pelos campos de batalha. Grande parte dos palácios, da decoração dos interiores, dos jardins e, evidentemente das toilettes tinham a marca de Josefina. 
             As cunhadas, Elisa, Paulina e Carolina não gostavam dela. Talvez ciúmes! 

ESTILO IMPÉRIO


             O estilo «império» foi uma cópia dos trajes do Império romano. Roma e Júlio César tiveram uma enorme influência sobre Napoleão Bonaparte, que no auge da fama se considerava um novo César. Foi também no tempo de Napoleão que se encontraram os vestígios das cidades de Pompeia e Herculano devastadas por uma erupção do Vesúvio no remoto ano de 79 da nossa era. Os frescos pintados nas casas descobertas, mostravam os trajes e penteados das romanas e influenciaram a moda em França e um pouco por toda a Europa. Os penteados apanhados ou cuidadosamente despenteados caindo em finos caracóis sobre a testa, muitas vezes ornados de tiaras, pequenas flores ou fitas de seda ou veludo, os vestidos leves e vaporosos, com a cintura marcada logo abaixo do peito, os sapatinhos de cetim, as capas para sair confeccionados em sedas grossas muito amplas foram os traços marcantes de uma moda extremamente feminina, numa época em que em contraste, os homens passavam a vida em guerras. 
             As cores dos vestidos eram preferencialmente pastel. Cores claras, beijes, verdes claríssimos e branco. Este estilo favorecia muito as mulheres, porque lhe fazia sobressair os seis, quer os tivessem mais ou menos volumosos. Os cabelos eram o oposto das cabeleiras volumosas usadas na época anterior à Revolução francesa. E as mais elegantes podiam ser mais sedutoras, porque os tecidos finos lhes moldavam o corpo. Para as grandes ocasiões a linha mantinha-se, mas os tecidos eram mais pesados como veludo e sedas bordadas ornados de galões de ouro. Nas capas peles de arminho ou pequenas penas de aves exóticas. As jóias valorizam um colo bonito e o leque devia sempre descansar numa mão. 

JOSEFINA


             O «reinado» de Josefina (Maria Josefa Rosa Tasher de La Pagerie) foi curto, porque o casamento durou apenas de 1796 a 1809, quando Napoleão decide divorcia-se, por ela lhe não lhe ter dado filhos e o imperador querer a todo o custo um herdeiro, como numa monarquia hereditária. Napoleão pensou primeiro em casar-se com uma princesa russa, mas depois da recusa do czar, em 1810 casa com uma verdadeira menina da nobreza, Maria Luísa de Habsburgo (1791-1847), filha do imperador Francisco II, que lhe deu o herdeiro desejado (que morreu com 21 anos) e que viu impávida e serena, o marido imperador ser exilado. Não quis mais saber dele, nem deixou que o filho o fosse ver, alguma vez. Maria Luísa regressou à Áustria e depois passou a viver em Parma. Refez a sua vida e casou mais duas vezes, tendo tido mais filhos. Podemos dizer que de princesa ingénua e recatada se transformou numa verdadeira mulher mundana.
PRINCESAS E RAINHAS DA NOITE PARA O DIA

             Com o período do Império, os irmãos e os generais de confiança de Napoleão Bonaparte vão ser agraciados com títulos e mais do que isso. Júlia mulher de José e Hortense (filha do primeiro casamento de Josefina) mulher de Luís passam rapidamente a rainhas, com direito a serem tratadas por Altezas Imperiais. Hortense foi rainha da Holanda e Júlia rainha de Nápoles e depois de Espanha. 
             As irmãs do imperador, Elisa e Carolina não se contentaram com esta discriminação e reclamaram junto do irmão que tratou rapidamente de lhes dar títulos de nobreza. Era só escolher «a la carte» e assinar. Elisa passou a princesa hereditária de Lucques e Piombino (uma cidadezinha italiana com 20 mil habitantes) e mais tarde passou também a grã-duquesa de Toscania, título que usou de 1809 a 1814. Elisa rodeou-se de numerosa corte e começou a construir palácios, que recheava com preciosidades. Nas paredes colocava relógios de Le Roy e nos vastos salões podiam ver-se esculturas de Canova e Bartolini. Fez-se retratar, em mármore como deusa. Para ganhar mais dinheiro abriu mesmo uma sala de jogo, que Napoleão mandou rapidamente encerrar. Esta mulher caprichosa, com a mania das grandezas, acabou por manifestar uma aptidão fantástica como empresária. Contratou engenheiros para abrirem estradas, mandou vir de França bichos da seda para iniciar uma cultura de seda, reorganizou as forças de segurança da sua cidade e até os presos da penitenciária foram obrigados a trabalhar. Meteu-se em inúmeros negócios, entre outros, o monopólio da pesca do atum. Porém onde verdadeiramente fez fortuna foi na exploração do mármore de Carrara. Muitos dos «grandes» do Império ficaram imortalizados nos «seus» mármores. Dava trabalho a escultores e ia facturando para si. Mesmo não sendo particularmente atraente, Elisa teve um número considerável de amantes. E o marido, Bacciochi também se entretinha com as mulheres que o rodeavam. O casal vivia debaixo do mesmo tecto e mostravam o ar feliz socialmente correcto. Ontem como hoje: «O que parece é»! 
             Elisa deixou de viver no famoso palácio Pitti e instalou-se no Palácio della Croceta onde tinham vivido os Médici, em Florença. Teve 5 filhos mas apenas sobreviveu uma filha. Foi obrigada a sair do palácio depois de uma incursão dos austríacos nos seus territórios, mas conseguiu negociar com o cunhado Murat e foi viver um tempo em Lucques, rompendo os laços com o império francês. Quando chegou o ocaso do irmão Napoleão Bonaparte, Elisa foi arrastada na queda. O inglês Lord William Bentink expulsa-a e Elisa passa a Génova e daqui a Turim, Chambérry e Montpellier. Só voltará a Itália mais tarde. O todo poderoso ministro austríaco Metternich deixou-a viver pacatamente perto de Bolonha. Acabou em Trieste, então sob o domínio da Áustria. Depois de vender tudo o que tinha foi surpreendida por uma febre e morreu em 1820,aos 43 anos. Herdeira da sua fortuna ficou a filha Napoleona Camerata, nascida em 1806 e particularmente bonita. Casou com 19 anos, teve uma vida atribulada e particularmente infeliz. 

CAROLINA BONAPARTE MURAT

             Maria Anunciada, chamada Carolina (1782-1839) casou, em 1800 com um dos mais famosos generais de Napoleão, Joaquim Murat, a quem o imperador concedeu, em 1806, o título de duque de Berg e de Clèves. A amizade entre Murat e Napoleão era tão forte, que consta ser este o único general que podia tratar o imperador por «tu». Murat era forte como um touro e não tinha propriamente as maneiras de um cavalheiro, mas encheu-se de glória nas campanhas militares. Carolina era uma boa administradora dos seus bens e enquanto viveu em Nápoles incentivou as escavações de Pompeia. 
             Como reis, Murat e Carolina fizeram vida de estadão com festas principescas. Murat, na sua visão de general, não apoiou o cunhado imperador na Campanha da Rússia, onde pereceu grande parte do exército napoleónico. Depois da derrota de Napoleão, em Waterloo em 1815, Murat foi destronado pelos homens de Fernando IV de Bourbon, senhores de Nápoles antes da investida dos Bonaparte. Ao tentar recuperar o trono é fuzilado. Carolina ficou viúva com 33 anos e mãe de quatro filhos: Napoleão Aquiles, Letícia, Luciano e Luísa todos de apelido Murat e todos usavam o título de príncipes. Carolina não se deixou abater, retirou-se para o castelo de Baimburg, perto de Viena e ali se ocupou da educa dos filhos. 
             As irmãs de Napoleão tinham, como ele, a perfeita noção de que tudo lhes era devido. Eram uma nova dinastia de monarcas. Porém a mãe de Napoleão, tratada por «Madame Mère» nunca se integrou na aventura do Império. Amava o filho, mas era contra a instauração do Império e nem esteve presente na coroação, embora o pintor David a tenha colocado na célebre tela. Letícia tinha uma boa pensão, era poupada, tinha sempre dinheiro e foi residir para Roma em 1815, no ano do fim da aventura expansionista do filho. Teve pouca ou nenhuma intervenção na vida política dos filhos, e permanece uma figura misteriosa de quem se disse o melhor e o pior. Por ser discreta desde que o filho foi imperador, merece-me consideração. Se teve ou não amantes antes de ser mãe de um imperador não me parece muito deslocado da época. 

PAULINA OU A ENCARNAÇÃO DE VÉNUS

             Como disse o próprio irmão, Napoleão, ela foi «a mais maravilhosa criatura do Império» e a sua vida foi mais agitada que a de uma deusa do Olimpo. A sua beleza um mito. Caprichosa e sensual, amou e deixou-se amar por homens de todas as condições sociais. Foi por muitos considerada ninfomaníaca, mas sabe-se que tinha um coração de ouro. Napoleão tratava-a carinhosamente por Paoletta. 
             Paulina nasceu em Outubro de 1780, era mais velha que Carolina, mas optámos por falar dela em último lugar, por ser a mais famosa das irmãs do imperador. Começou cedo a amar. Aos catorze anos, quando a família já vivia em França, mais precisamente em Toulon, apaixonou-se perdidamente por um «pé-rapado» que a quis desposar, mas a mãe Bonaparte proibiu tal casamento e o desgosto de amor acabou por passar. Seguiu-se uma paixoneta pelo general Andoche Junot, dos exércitos do mano Napoleão e bem conhecido dos portugueses. Mas o destino daria a Junot outra mulher, também célebre, Laura Pernot, mais tarde duquesa de Abrantes, que escreveu muito sobre os Bonaparte, o Império e Portugal. 
             Aos 17 anos Paulina vivia em Milão com a mãe e a irmã Carolina, onde festejavam as vitórias de Napoleão. Ali conheceu o general Leclerc de 25 anos. De novo Paulina sente um amor ardente e desta vez deixam-na casar. Corria o ano de 1797. Caprichosa e demasiado bela para ser apenas amada por um só homem, Paulina preocupava-se apenas em seduzir e as suas toilettes requintadas, a sua juventude e beleza deixavam os jovens perfeitamente loucos. Todos a queriam nos seus braços e na sua cama. 
             Paulina tinha um corpo perfeito, cintura fina, pés e mãos delicados, um cabelo luminoso e um sorriso com dentes admiráveis que deixavam tudo e todos «de rastos». Nos bailes ela era a estrela mais brilhante e os amores sucediam-se. Para afastar Paulina das más-línguas Napoleão incumbiu o general Leclerc de uma missão no Haiti, onde se dera uma revolta de negros. E assim o casal partiu para São Domingos, mas o destino foi-lhe fatal e o general ali morreu, de febre amarela, sem honra nem glória, em Novembro de 1802. Paulina deitou umas lágrimas, mas na travessia de barco para França já tudo tinha esquecido e era a perfeita viúva alegre. O clima deixara-a doente e Paulina tinha os cabelos a cair e as mãos cheias de feridas. Curou-se, mas foi toda a vida doente. Claro que continuou a fazer a vida de sempre. Entre belos oficiais cobertos de glória e de damas de todo o género Paulina era sempre a «deusa». Reservava a manhã para receber os fornecedores que lhe trazem todas aquelas peças a que a tentação não pode resistir: roupa interior, chapéus, tecidos, sapatos (feitos por medida) e joalheiros que se comprometem a realizar para a deusa Paulina uma jóia única. Napoleão tudo pagava e dizia mesmo que os luxos das mulheres da família ajudavam o comércio e a indústria do país e dava trabalho aos operários. 
             Paulina era completamente destemperada na sua vida amorosa e não tardou que Napoleão, como quem traça num mapa as movimentações das tropas em campanha, começou a recolher informações para casar a irmã com alguém verdadeiramente rico e nobre, que ao menos salvasse as aparências. A escolha recaiu no príncipe Borghese. 
             A belíssima noiva casou então, pela segunda vez, aos 22 anos, num radioso dia de Agosto de 1803, com um dos homens mais ricos e aristocratas de Roma, sobrinho neto do Papa Paulo V. Não era um homem belo, mas era realmente muito rico, da mais antiga nobreza e possuía palácios como só os italianos têm. Paulina era agora uma verdadeira princesa e, gastou a condizer com õ seu novo estatuto. Jóias, vestidos sumptuosos, palácios e, por acréscimo amantes, todos os que lhe podia dar prazer. Porém Paulina não se sentia bem em Roma, onde se aborrecia de morte, embora vivesse no sumptuoso palácio Borghese, recheado de obras de arte e com um arsenal de criados. Tinha saudades de Paris. No entanto foi no palácio, agora também seu, que Paulina passou à imortalidade, quando posou quase nua para o escultor veneziano, ao serviço de Napoleão, Antonio Canova (1757-1822). Paulina foi primorosamente esculpida, numa pose onde repousa como Vénus reclinada, com o torso nu, onde se pode apreciar toda a sua escultural figura. 
             Paulina separou-se do marido, que aguentou estoicamente muitas das suas excentricidades. Regressou a Paris, aos salões, aos bailes e ás caçadas. Estava feliz. Amou um músico e quis aprender canto, mas sobreveio a doença e foi repousar para Nice com uma comitiva de princesa, onde não faltava o médico e o padre. Regressou a Paris e rebenta uma nova paixão. Agora era o grandemente famoso actor Talma que a amou com a mesma paixão com que representava paixões no palco. Foi um amor feito de palavras sussurradas. E Paulina dedicou-se à leitura e declamação. Depois passava de outra para outra paixão. 
             Mais tarde Paulina e o príncipe de Borghese vão reconciliar-se e voltam a viver juntos, em 1825. Provavelmente devido à vida dissipada e desregrada, a bela Paulina morreu com apenas 45 anos, sem descendência. 
             Quando Napoleão foi levado para o exílio, apenas os irmãos Paulina e Luciano fizeram tudo o que estava ao seu alcance para lhe minorarem o sofrimento do exílio. Paulina quis mesmo acompanhá-lo, vendeu as jóias e tentou que os ingleses a deixassem partir com ele. Mas o ex-senhor da Europa iria acabar os seus dias sem qualquer parente por perto. 
             Napoleão morreu de cancro de estômago ou, segundo as últimas investigações poderá ter sido envenenado em Maio de 1821. Repousa, desde 1840 no Panteão dos Inválidos, em Paris. As irmãs passaram à posteridade em numerosas peças de arte, que encontramos em França, Itália e colecções privadas. Elisa, Carolina e Paulina deixaram o seu nome impresso no 1º Império francês. Não foram intelectuais como madame Récamier ou madame de Staël, que Napoleão detestava, mas o irmão deu-lhes um pouco de glória.

Biografia retirada de O Leme