segunda-feira, 21 de maio de 2018

Vídeo - A História Secreta de Roma


Os imperadores, generais e senadores com certeza deixaram sua marca no mundo e sabemos muita coisa sobre como viviam mas e todos os outros romanos que não deixaram estátuas ou monumentos e todos os milhões de anónimos que nunca  chegaram aos livros de história ?

sábado, 19 de maio de 2018

Vídeo - A Rainha que foi Rei


Por mais de 100 anos o Egito foi governado por homens. Foi então que apareceu Hatshepsut, ela era filha de um rei, esposa de um rei mas isso não era suficiente para ela. Essa é a história de uma grande realização, de um desejo secreto e da ambição de ser monarca. Essa é a história de uma mulher que foi à luta.

domingo, 13 de maio de 2018

Biografia - Elisa, Paulina e Carolina Bonaparte: as irmãs do imperador



 As três irmãs de Napoleão Bonaparte, Elisa, Paulina e Carolina protagonizaram histórias bem temperadas de escândalo, intrigas, luxo e ambições. Nascidas na Ilha de Córsega, numa família da pequena nobreza, chegariam duquesas e princesas e viveram em maravilhosos palácios, rodeadas do maior luxo, porque o irmão Napoleão, teve a ousadia de lutar contra toda a Europa, vencer inúmeras batalhas e por fim institucionalizar o Império e ser o primeiro imperador dos franceses. O seu reinado durou apenas 10 anos! No exílio Napoleão Bonaparte referiu-se aos irmãos lamentando que só se tivessem aproximado dele para «ganharem favores e dinheiro» e resumia assim a sua opinião : «José seria, em qualquer país uma peça de decoração na sociedade; Luciano ornamento de qualquer assembleia política; Jerónimo amadurecendo, estaria preparado para governar, porque nele descubro muitas potencialidades; Luís teria encontrado simpatias e, em qualquer lugar, poderia subir. Elisa tinha uma inteligência masculina, um ânimo forte, e nas adversidade demonstrava um espírito profundamente filosófico; Paulina, talvez a mais bela mulher do seu tempo, foi e sempre será a mais querida criatura do mundo.» Napoleão não recordou aqui Carolina, casada com o seu general mais destemido – Joaquim Murat . Segundo Madame de Rémusat, Napoleão era muito amigo das irmãs e, como satisfazia-lhes quase todos os desejos. 

UMA FAMÍLIA DA CÓRSEGA

             Dos sete irmão que Napoleão Bonaparte teve, elas, foram as preferidas, embora tivesse posto os irmãos nos tronos que ia conquistando, mas ele próprio reconhecia que os irmãos não valiam grande coisa, nem serviram bem o Império. Os nomes originais dos Buonaparte eram de origem genovesa, porque Génova fora a cidade, que desde 1557 tinha jurisdição e poder sobre a Córsega, de onde eram originários. Só em Maio de 1768 o doge de Génova cedeu ao rei de França, Luís XV os direitos sobre aquela ilha. Assim os filhos de Letizia Ramolino e Carlo Maria Buonaparte (Charles Marie) (que tiveram doze filhos, tendo sobrevivido oito) tiveram uma versão italiana e depois uma francesa. Ao mais velho Giuseppe (José 1768-1844, seguiu-se Napoleone (Napoleão 1769-1821), depois Luciano (Lucien 1775-1840), Maria Anunciata que usou o nome de Elisa (1777-1820), Luigi (Luís 1778-1846), Maria Paola ou Paolina (Paulina 1780-1825), Carlotta (Carolina 1782-1839) e Girolamo (Jerónimo (1786-1860). Nasceram todos em Ajaccio, capital da Córsega. Depois viveriam entre França e Itália. 

UM DESTINO INIMAGINÁVEL

             A sorte e a fortuna podem bater à porta de qualquer um, e as meninas Bonaparte tiveram o seu quinhão de ambas as coisas. 
             Sabemos que o ramo Buonaparte da Córsega era de origem nobre, embora não possuíam grande fortuna, pois o pai de Letícia era apenas Inspector das Pontes e Pavimentos da Ilha, mas Carlo-Maria Buonaparte (1746-1785) bem parecido e de alta estatura, com fama de mulherengo, era um homem com cultura, sabia falar bem francês e estudara Direito na Universidade de Pisa. Era advogado e foi um empenhado defensor da independência da Córsega. Casou, em 1764 com a jovem, Maria Letizia Ramolino, com apenas 14 anos. A partir de 1771 os Buonaparte passaram a escrever o nome com a grafia Bonaparte. 
             A mãe, Letizia Ramolino era católica fervorosa. Aos 35 anos está viúva com oito filhos para educar. Valeram-lhe os amigos e parentes. Há quem adiante uma relação antes e depois do casamento com um homem influente da Córsega, mas não se sabe se é verdade. Foi ela quem teve de orientar os estudos dos filhos, que educou como podia. Era uma mulher viva sensata e extremamente económica. Os filhos estudaram em colégios militares, mas as meninas, excepto Elisa, foram um pouco deixadas «à rédea solta.» 
             Nos primeiros anos a língua que se falava em casa dos Bonaparte era o italiano. Napoleão só aprendeu francês quando ingressou num colégio militar aos 9 anos. E nunca escreveu nem falou bem nem italiano nem francês. As cartas que escrevia, em campanha eram praticamente indecifráveis. Pudemos adivinhar que as meninas Bonaparte mais novas terão apenas aprendido o mínimo, para se saberem comportar em sociedade. Esperariam, como era vulgar na época, um bom casamento, sem nunca imaginarem que da noite para o dia seriam princesas e grã-duquesas, graças ao irmão imperador. 

ELISA


             Elisa Bonaparte (1777-1820) não foi apenas notável por ser irmã do imperador dos franceses. Era uma mulher de temperamento forte e embora ambiciosa mostrou-se muito empreendedora. Aluna do famoso colégio de Saint-Cyr (mais tarde passou a colégio militar), foi criado por Madame de Maintenon, favorita do rei Luís XIV e depois rainha de França. Elisa ali estudou oito anos. Aprender boas maneiras e literatura. Leu muito e adorava o poeta Racine. Segundo os biógrafos da família Bonaparte era ela quem tinha o feitio mais parecido com o do irmão imperador, daí darem-se pouco bem. Era astuta e lasciva. Teve as suas paixões, nomeadamente pelo almirante Truguet, mas uma missão deste à Sardenha afasta-os para sempre. Não foi tão requestada como as irmãs, que eram mais bonitas, mas em 1797 casou com o capitão Felix Bacciochi, um corso, belo e indolente, que viria a ser promovido por Napoleão a chefe de batalhão e depois a senador do império. Elisa não gostava de Ajaccio, cidade pequena demais para as suas aspirações e tudo faz para ir viver para Paris, com uma pensão que o irmão lhe atribuiu. Abriu um salão literário, como faziam as aristocratas e as burguesas ricas da época, onde Elisa recebia os e as famosas de então. Os salões literários eram tantos que as clientelas se dividiam por gostos e afinidades. E quantos escritores, músicos e pintores, vindos da província não foi nesses ambientes que começaram a sua vida intelectual em Paris, como o próprio Balzac. Se muitos destes salões eram local de encontro de intelectuais, artistas e políticos onde se trocavam ideias e se sabiam as últimas novidades, outros havia onde reinava uma alegre convivência e onde se passava mais ou menos discretamente do salão para a alcova. 

ASCENSÃO DE NAPOLEÃO

             A vida em França explodiu com a revolução de 1789 e o jovem Napoleão Bonaparte, em Abril de 1791 é promovido a lieutenant en premier. Na primavera de 1792 a França preparava-se para declarar guerra à Europa. Em Junho de 1793 a família Bonaparte está toda instalada em França. Está-se num período de extrema violência nas ruas. Em Outubro de 1793 o capitão Bonaparte é elevado a chefe de batalhão e, em Fevereiro de 1794, é general. Tinha 25 anos. Fez-se nomear primeiro cônsul em 1804 e o Senado nomeou-o imperador. Coroa-se a si próprio, na presença do Papa, que manda vir de Roma, no início de Dezembro de 1804. A seu lado estava a primeira mulher, Josefina de Beauharnais. As cunhadas recusaram-se a segurar na cauda de vários metros de veludo, arminho e ouro da imperatriz, mas Napoleão deu ordens expressas e obrigou-as, apenas condescendeu um pouco, as irmãs e cunhadas apenas tocavam na fímbria do manto e cada uma delas, Elisa, Paulina, Carolina e Júlia (mulher de José) e Hortense (mulher de Luís) tinham direito a usar também uma cauda, que saía dos ombros segura por camareiras. Difícil lidar com estas mulheres! 
             A primeira imperatriz dos franceses teve uma enorme influência na vida social de Napoleão e do Império, com o seu gosto requintado e com a postura de uma perfeita imperatriz, embora, como é sabido, não se coibisse de ter os seus amores, enquanto Napoleão andava pelos campos de batalha. Grande parte dos palácios, da decoração dos interiores, dos jardins e, evidentemente das toilettes tinham a marca de Josefina. 
             As cunhadas, Elisa, Paulina e Carolina não gostavam dela. Talvez ciúmes! 

ESTILO IMPÉRIO


             O estilo «império» foi uma cópia dos trajes do Império romano. Roma e Júlio César tiveram uma enorme influência sobre Napoleão Bonaparte, que no auge da fama se considerava um novo César. Foi também no tempo de Napoleão que se encontraram os vestígios das cidades de Pompeia e Herculano devastadas por uma erupção do Vesúvio no remoto ano de 79 da nossa era. Os frescos pintados nas casas descobertas, mostravam os trajes e penteados das romanas e influenciaram a moda em França e um pouco por toda a Europa. Os penteados apanhados ou cuidadosamente despenteados caindo em finos caracóis sobre a testa, muitas vezes ornados de tiaras, pequenas flores ou fitas de seda ou veludo, os vestidos leves e vaporosos, com a cintura marcada logo abaixo do peito, os sapatinhos de cetim, as capas para sair confeccionados em sedas grossas muito amplas foram os traços marcantes de uma moda extremamente feminina, numa época em que em contraste, os homens passavam a vida em guerras. 
             As cores dos vestidos eram preferencialmente pastel. Cores claras, beijes, verdes claríssimos e branco. Este estilo favorecia muito as mulheres, porque lhe fazia sobressair os seis, quer os tivessem mais ou menos volumosos. Os cabelos eram o oposto das cabeleiras volumosas usadas na época anterior à Revolução francesa. E as mais elegantes podiam ser mais sedutoras, porque os tecidos finos lhes moldavam o corpo. Para as grandes ocasiões a linha mantinha-se, mas os tecidos eram mais pesados como veludo e sedas bordadas ornados de galões de ouro. Nas capas peles de arminho ou pequenas penas de aves exóticas. As jóias valorizam um colo bonito e o leque devia sempre descansar numa mão. 

JOSEFINA


             O «reinado» de Josefina (Maria Josefa Rosa Tasher de La Pagerie) foi curto, porque o casamento durou apenas de 1796 a 1809, quando Napoleão decide divorcia-se, por ela lhe não lhe ter dado filhos e o imperador querer a todo o custo um herdeiro, como numa monarquia hereditária. Napoleão pensou primeiro em casar-se com uma princesa russa, mas depois da recusa do czar, em 1810 casa com uma verdadeira menina da nobreza, Maria Luísa de Habsburgo (1791-1847), filha do imperador Francisco II, que lhe deu o herdeiro desejado (que morreu com 21 anos) e que viu impávida e serena, o marido imperador ser exilado. Não quis mais saber dele, nem deixou que o filho o fosse ver, alguma vez. Maria Luísa regressou à Áustria e depois passou a viver em Parma. Refez a sua vida e casou mais duas vezes, tendo tido mais filhos. Podemos dizer que de princesa ingénua e recatada se transformou numa verdadeira mulher mundana.
PRINCESAS E RAINHAS DA NOITE PARA O DIA

             Com o período do Império, os irmãos e os generais de confiança de Napoleão Bonaparte vão ser agraciados com títulos e mais do que isso. Júlia mulher de José e Hortense (filha do primeiro casamento de Josefina) mulher de Luís passam rapidamente a rainhas, com direito a serem tratadas por Altezas Imperiais. Hortense foi rainha da Holanda e Júlia rainha de Nápoles e depois de Espanha. 
             As irmãs do imperador, Elisa e Carolina não se contentaram com esta discriminação e reclamaram junto do irmão que tratou rapidamente de lhes dar títulos de nobreza. Era só escolher «a la carte» e assinar. Elisa passou a princesa hereditária de Lucques e Piombino (uma cidadezinha italiana com 20 mil habitantes) e mais tarde passou também a grã-duquesa de Toscania, título que usou de 1809 a 1814. Elisa rodeou-se de numerosa corte e começou a construir palácios, que recheava com preciosidades. Nas paredes colocava relógios de Le Roy e nos vastos salões podiam ver-se esculturas de Canova e Bartolini. Fez-se retratar, em mármore como deusa. Para ganhar mais dinheiro abriu mesmo uma sala de jogo, que Napoleão mandou rapidamente encerrar. Esta mulher caprichosa, com a mania das grandezas, acabou por manifestar uma aptidão fantástica como empresária. Contratou engenheiros para abrirem estradas, mandou vir de França bichos da seda para iniciar uma cultura de seda, reorganizou as forças de segurança da sua cidade e até os presos da penitenciária foram obrigados a trabalhar. Meteu-se em inúmeros negócios, entre outros, o monopólio da pesca do atum. Porém onde verdadeiramente fez fortuna foi na exploração do mármore de Carrara. Muitos dos «grandes» do Império ficaram imortalizados nos «seus» mármores. Dava trabalho a escultores e ia facturando para si. Mesmo não sendo particularmente atraente, Elisa teve um número considerável de amantes. E o marido, Bacciochi também se entretinha com as mulheres que o rodeavam. O casal vivia debaixo do mesmo tecto e mostravam o ar feliz socialmente correcto. Ontem como hoje: «O que parece é»! 
             Elisa deixou de viver no famoso palácio Pitti e instalou-se no Palácio della Croceta onde tinham vivido os Médici, em Florença. Teve 5 filhos mas apenas sobreviveu uma filha. Foi obrigada a sair do palácio depois de uma incursão dos austríacos nos seus territórios, mas conseguiu negociar com o cunhado Murat e foi viver um tempo em Lucques, rompendo os laços com o império francês. Quando chegou o ocaso do irmão Napoleão Bonaparte, Elisa foi arrastada na queda. O inglês Lord William Bentink expulsa-a e Elisa passa a Génova e daqui a Turim, Chambérry e Montpellier. Só voltará a Itália mais tarde. O todo poderoso ministro austríaco Metternich deixou-a viver pacatamente perto de Bolonha. Acabou em Trieste, então sob o domínio da Áustria. Depois de vender tudo o que tinha foi surpreendida por uma febre e morreu em 1820,aos 43 anos. Herdeira da sua fortuna ficou a filha Napoleona Camerata, nascida em 1806 e particularmente bonita. Casou com 19 anos, teve uma vida atribulada e particularmente infeliz. 

CAROLINA BONAPARTE MURAT

             Maria Anunciada, chamada Carolina (1782-1839) casou, em 1800 com um dos mais famosos generais de Napoleão, Joaquim Murat, a quem o imperador concedeu, em 1806, o título de duque de Berg e de Clèves. A amizade entre Murat e Napoleão era tão forte, que consta ser este o único general que podia tratar o imperador por «tu». Murat era forte como um touro e não tinha propriamente as maneiras de um cavalheiro, mas encheu-se de glória nas campanhas militares. Carolina era uma boa administradora dos seus bens e enquanto viveu em Nápoles incentivou as escavações de Pompeia. 
             Como reis, Murat e Carolina fizeram vida de estadão com festas principescas. Murat, na sua visão de general, não apoiou o cunhado imperador na Campanha da Rússia, onde pereceu grande parte do exército napoleónico. Depois da derrota de Napoleão, em Waterloo em 1815, Murat foi destronado pelos homens de Fernando IV de Bourbon, senhores de Nápoles antes da investida dos Bonaparte. Ao tentar recuperar o trono é fuzilado. Carolina ficou viúva com 33 anos e mãe de quatro filhos: Napoleão Aquiles, Letícia, Luciano e Luísa todos de apelido Murat e todos usavam o título de príncipes. Carolina não se deixou abater, retirou-se para o castelo de Baimburg, perto de Viena e ali se ocupou da educa dos filhos. 
             As irmãs de Napoleão tinham, como ele, a perfeita noção de que tudo lhes era devido. Eram uma nova dinastia de monarcas. Porém a mãe de Napoleão, tratada por «Madame Mère» nunca se integrou na aventura do Império. Amava o filho, mas era contra a instauração do Império e nem esteve presente na coroação, embora o pintor David a tenha colocado na célebre tela. Letícia tinha uma boa pensão, era poupada, tinha sempre dinheiro e foi residir para Roma em 1815, no ano do fim da aventura expansionista do filho. Teve pouca ou nenhuma intervenção na vida política dos filhos, e permanece uma figura misteriosa de quem se disse o melhor e o pior. Por ser discreta desde que o filho foi imperador, merece-me consideração. Se teve ou não amantes antes de ser mãe de um imperador não me parece muito deslocado da época. 

PAULINA OU A ENCARNAÇÃO DE VÉNUS

             Como disse o próprio irmão, Napoleão, ela foi «a mais maravilhosa criatura do Império» e a sua vida foi mais agitada que a de uma deusa do Olimpo. A sua beleza um mito. Caprichosa e sensual, amou e deixou-se amar por homens de todas as condições sociais. Foi por muitos considerada ninfomaníaca, mas sabe-se que tinha um coração de ouro. Napoleão tratava-a carinhosamente por Paoletta. 
             Paulina nasceu em Outubro de 1780, era mais velha que Carolina, mas optámos por falar dela em último lugar, por ser a mais famosa das irmãs do imperador. Começou cedo a amar. Aos catorze anos, quando a família já vivia em França, mais precisamente em Toulon, apaixonou-se perdidamente por um «pé-rapado» que a quis desposar, mas a mãe Bonaparte proibiu tal casamento e o desgosto de amor acabou por passar. Seguiu-se uma paixoneta pelo general Andoche Junot, dos exércitos do mano Napoleão e bem conhecido dos portugueses. Mas o destino daria a Junot outra mulher, também célebre, Laura Pernot, mais tarde duquesa de Abrantes, que escreveu muito sobre os Bonaparte, o Império e Portugal. 
             Aos 17 anos Paulina vivia em Milão com a mãe e a irmã Carolina, onde festejavam as vitórias de Napoleão. Ali conheceu o general Leclerc de 25 anos. De novo Paulina sente um amor ardente e desta vez deixam-na casar. Corria o ano de 1797. Caprichosa e demasiado bela para ser apenas amada por um só homem, Paulina preocupava-se apenas em seduzir e as suas toilettes requintadas, a sua juventude e beleza deixavam os jovens perfeitamente loucos. Todos a queriam nos seus braços e na sua cama. 
             Paulina tinha um corpo perfeito, cintura fina, pés e mãos delicados, um cabelo luminoso e um sorriso com dentes admiráveis que deixavam tudo e todos «de rastos». Nos bailes ela era a estrela mais brilhante e os amores sucediam-se. Para afastar Paulina das más-línguas Napoleão incumbiu o general Leclerc de uma missão no Haiti, onde se dera uma revolta de negros. E assim o casal partiu para São Domingos, mas o destino foi-lhe fatal e o general ali morreu, de febre amarela, sem honra nem glória, em Novembro de 1802. Paulina deitou umas lágrimas, mas na travessia de barco para França já tudo tinha esquecido e era a perfeita viúva alegre. O clima deixara-a doente e Paulina tinha os cabelos a cair e as mãos cheias de feridas. Curou-se, mas foi toda a vida doente. Claro que continuou a fazer a vida de sempre. Entre belos oficiais cobertos de glória e de damas de todo o género Paulina era sempre a «deusa». Reservava a manhã para receber os fornecedores que lhe trazem todas aquelas peças a que a tentação não pode resistir: roupa interior, chapéus, tecidos, sapatos (feitos por medida) e joalheiros que se comprometem a realizar para a deusa Paulina uma jóia única. Napoleão tudo pagava e dizia mesmo que os luxos das mulheres da família ajudavam o comércio e a indústria do país e dava trabalho aos operários. 
             Paulina era completamente destemperada na sua vida amorosa e não tardou que Napoleão, como quem traça num mapa as movimentações das tropas em campanha, começou a recolher informações para casar a irmã com alguém verdadeiramente rico e nobre, que ao menos salvasse as aparências. A escolha recaiu no príncipe Borghese. 
             A belíssima noiva casou então, pela segunda vez, aos 22 anos, num radioso dia de Agosto de 1803, com um dos homens mais ricos e aristocratas de Roma, sobrinho neto do Papa Paulo V. Não era um homem belo, mas era realmente muito rico, da mais antiga nobreza e possuía palácios como só os italianos têm. Paulina era agora uma verdadeira princesa e, gastou a condizer com õ seu novo estatuto. Jóias, vestidos sumptuosos, palácios e, por acréscimo amantes, todos os que lhe podia dar prazer. Porém Paulina não se sentia bem em Roma, onde se aborrecia de morte, embora vivesse no sumptuoso palácio Borghese, recheado de obras de arte e com um arsenal de criados. Tinha saudades de Paris. No entanto foi no palácio, agora também seu, que Paulina passou à imortalidade, quando posou quase nua para o escultor veneziano, ao serviço de Napoleão, Antonio Canova (1757-1822). Paulina foi primorosamente esculpida, numa pose onde repousa como Vénus reclinada, com o torso nu, onde se pode apreciar toda a sua escultural figura. 
             Paulina separou-se do marido, que aguentou estoicamente muitas das suas excentricidades. Regressou a Paris, aos salões, aos bailes e ás caçadas. Estava feliz. Amou um músico e quis aprender canto, mas sobreveio a doença e foi repousar para Nice com uma comitiva de princesa, onde não faltava o médico e o padre. Regressou a Paris e rebenta uma nova paixão. Agora era o grandemente famoso actor Talma que a amou com a mesma paixão com que representava paixões no palco. Foi um amor feito de palavras sussurradas. E Paulina dedicou-se à leitura e declamação. Depois passava de outra para outra paixão. 
             Mais tarde Paulina e o príncipe de Borghese vão reconciliar-se e voltam a viver juntos, em 1825. Provavelmente devido à vida dissipada e desregrada, a bela Paulina morreu com apenas 45 anos, sem descendência. 
             Quando Napoleão foi levado para o exílio, apenas os irmãos Paulina e Luciano fizeram tudo o que estava ao seu alcance para lhe minorarem o sofrimento do exílio. Paulina quis mesmo acompanhá-lo, vendeu as jóias e tentou que os ingleses a deixassem partir com ele. Mas o ex-senhor da Europa iria acabar os seus dias sem qualquer parente por perto. 
             Napoleão morreu de cancro de estômago ou, segundo as últimas investigações poderá ter sido envenenado em Maio de 1821. Repousa, desde 1840 no Panteão dos Inválidos, em Paris. As irmãs passaram à posteridade em numerosas peças de arte, que encontramos em França, Itália e colecções privadas. Elisa, Carolina e Paulina deixaram o seu nome impresso no 1º Império francês. Não foram intelectuais como madame Récamier ou madame de Staël, que Napoleão detestava, mas o irmão deu-lhes um pouco de glória.

Biografia retirada de O Leme

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Conteúdo - Invasões bárbaras


Em 409, com o declínio do Império Romano, a Península Ibérica foi ocupada por povos de origem germânica, a que os romanos chamavam bárbaros. Em 411, num contrato de federação com o imperador Honório, vários destes povos instalaram-se na Hispânia: suevos e vândalos asdingos na Galécia, alanos, de origem persa, na Lusitânia e Cartaginense. Destes povos, suevos e visigodos foram os que tiveram uma presença mais duradoura no território correspondente a Portugal. Como em toda a Europa ocidental, as cidades sofreram uma acentuada decadência, e tanto na vida urbana como na economia verificou-se uma ruralização.

Os suevos fundaram o reino suevo com capital em Braga, chegando a dominar até Emínio (Coimbra). Com as invasões desapareceram as instituições romanas, mas manteve-se de pé a organização eclesiástica, que os suevos adoptaram ainda no século V, seguidos pelos visigodos, e que foi um importante instrumento de estabilidade. Apesar de inicialmente adeptos do arianismo e do priscilianismo, adoptaram o catolicismo das populações locais hispano-romanas no ano 449, evangelizados por influência de S. Martinho de Braga. A governação sueva baseou-se nas paróquias, descritas no Parochiale suevorum de c.569. e o reino suevo tornou-se o primeiro reino cristão da Europa, sendo também o primeiro a cunhar moeda própria.

Em 415 os visigodos, inicialmente instalados na Gália, avançaram para sul como aliados do Império Romano para expulsar alanos e vândalos, e fundaram um reino com capital em Toledo. A partir de 470 cresceram os conflitos entre o reino suevo e o vizinho reino visigodo. Em 585 o rei visigodo Leovigildo conquistou Braga e anexou a Galécia. A partir daqui toda a Península Ibérica ficou unificada sob o reino visigodo (excepto algumas zonas do litoral sul e levantino, controladas pelo Império Bizantino e a norte pelos vascões). A estabilidade interna do reino foi sempre difícil, pois os visigodos eram uma minoria e professavam o arianismo, enquanto a população local era católica. A sua estratégia inicial foi manter-se como minoria dirigente estritamente separada da maioria autóctone. No entanto a consolidação dos seus reinos deu-se precisamente devido à integração com a população local, adoptando a língua latina, adaptando a lei romana e convertendo-se com Recaredo I ao catolicismo Mas em 710 uma crise dinástica entre partidários dos reis Rodrigo e Ágila II levou à invasão muçulmana que resultou no colapso do reino.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Conteúdo - Romanização


Os Romanos iniciaram a invasão da Península Ibérica (a que chamavam "Hispânia") em 218 a.C., durante a Segunda Guerra Púnica contra Cartago. Aí anexaram inicialmente duas regiões como províncias, a Hispânia Citerior (nordeste) e a Hispânia Ulterior (sudoeste) A mineração foi o primeiro factor de interesse na região: um dos objectivos estratégicos de Roma era cortar a ligação de Cartago com as minas hispânicas de cobre, estanho, ouro e prata.

No fim do século I a.C. foi criada a província da Lusitânia, que correspondia a grande parte do actual Portugal a sul do rio Douro e à estremadura espanhola, com capital em Emerita Augusta (Mérida). Os Romanos exploraram com intensidade minas como Aljustrel (Vipasca) e São Domingos, na Faixa Piritosa Ibérica que se estende até Sevilha. 

Enquanto o sul foi ocupado com relativa facilidade, a anexação do norte só se deu muito depois, em parte devido à resistência dos povos nativos. Povos célticos, como os Lusitanos liderados por Viriato nos Montes Hermínios (serra da Estrela), conseguiram conter a expansão romana durante anos.  Perito em tácticas de guerrilha, Viriato travou uma guerra incansável contra os invasores, derrotando sucessivamente vários generais romanos, até ser morto à traição em 140 a.C.. A conquista total da Península Ibérica ocorreu dois séculos após a chegada, quando os Romanos venceram as guerras cantábricas, no tempo do imperador Augusto (19 a.C.). Em 74 Vespasiano concedeu o "direito latino" (equiparação aos municípios da Itália) a grande parte dos municípios da Lusitânia. Em 212 a Constituição Antonina atribuiu a cidadania romana a todos os súbditos (livres) do Império e, no fim do século, o imperador Diocleciano fundou a Galécia, que integrava o norte do actual Portugal, a Galiza e as Astúrias, últimos territórios conquistados.

A economia da Hispânia teve uma enorme expansão. Além da mineração, os Romanos desenvolveram a agricultura naquelas que eram algumas das melhores terras agrícolas do Império. No actual Alentejo cultivaram vinha e cereais, e no litoral desenvolveram a indústria pesqueira para fabricação de garum- no litoral algarvio, em Lisboa, na Póvoa de Varzim, em Matosinhos e em Troia- que exportavam pelas rotas comerciais romanas para todo o império. As transações comerciais eram facilitadas pela cunhagem de moeda e pela construção de uma extensa rede viária, aquedutos e pontes, como a de Trajano em Águas Flávias (actual Chaves). Os romanos fundaram numerosas cidades- como Olisipo (Lisboa), Bracara Augusta (Braga), Emínio (Coimbra), Pax Júlia (Beja) - e deixaram um importante legado cultural naquilo que é hoje Portugal: o Latim vulgar tornou-se o idioma dominante da região, base da língua portuguesa, e a partir do século III o cristianismo difundiu-se em toda a Hispânia.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Conteúdo - Pré-história e Proto-história


Os mais antigos fósseis conhecidos de hominídeos na Europa, datados de 1,1 a 1,2 milhões de anos, foram encontrados no norte da Península Ibérica, na serra de Atapuerca. Em Portugal, os vestígios humanos mais antigos datam de há cerca de 500-300 mil anos, quando a região era habitada por neandertais. Os vestígios mais antigos conhecidos de Homo sapiens são de homens de Cro-Magnon com "traços" de neandertal, com 24.500 anos. O fóssil de uma criança encontrado no Vale do Lapedo é interpretado como indicador de populações híbridas resultantes do cruzamento das duas espécies. São também os vestígios de seres com características neandertais mais recentes que se conhecem, possivelmente os últimos da sua espécie. Estas eram sociedades paleolíticas de subsistência, de caçadores-coletores que deixaram vestígios como a arte rupestre do Vale do Coa a norte  e a gruta do Escoural, a sul.

Após o fim da última idade do gelo, há cerca de 12 a 11 mil anos, as alterações climáticas permitiram iniciar a domesticação de animais de pastoreio, algumas culturas de cereais e a pesca. O neolítico é testemunhado no sul de Portugal por utensílios de pedra e pela cultura megalítica, com dólmens como a anta Grande do Zambujeiro, menires como no cromeleque dos Almendres, bem como arte esquemática como na anta pintada de Antelas e em ídolos-placa.

A idade do bronze da Península, com o desenvolvimento da olaria e outros metais como ouro e prata, iniciou-se cerca de 4 000 a.C. a sul, em locais como El Argar, de onde se espalhou. No III milénio a.C., várias ondas de povos indo-europeus celtas vindos da Europa Central invadiram o território. Misturando-se com as populações locais, formaram diferentes grupos étnicos, com numerosas tribos. As principais dessas tribos foram os galaicos, que estabeleceram a cultura castreja a norte, os lusitanos no centro, os célticos no Alentejo, e os cónios no extremo sul de Portugal (regiões do Algarve e Alentejo). Aí se desenvolveu a escrita do sudoeste, uma das escritas paleo-hispânicas. A sul, na mesma altura, estabeleceram-se também alguns postos comerciais costeiros semi-permanentes de fenícios e, a partir do século V a.C., de cartagineses.

sábado, 5 de maio de 2018

Conteúdo - Ocupação árabe


Em 711, um exército omíada de berberes e árabes recém convertidos ao islão liderados por Tárique (Tárique ibne Ziade), desembarcou em Gibraltar após conquistar o norte de África.Aproveitando-se das lutas internas que dividiam os visigodos ou chamados como aliados da facção de Ágila II, venceram a batalha de Guadalete contra as forças do rei visigodo Rodrigo. Rapidamente avançaram até Saragoça, beneficiando do povoamento disperso para conquistar quase toda a Península. Ao território ocupado como província do Califado Omíada chamavam Alandalus. Ao oeste da Península, correspondente a Portugal, chamavam o Algarbe Alandalus ou simplesmente Al-Garb (o ocidente).

As populações locais puderam permanecer nas suas terras mediante pagamento. Os seus hábitos, cristãos e judeus foram tolerados.. Apesar de arabizados, os moçárabes mantiveram um contínuo de dialetos românicos -a língua moçárabe- e rituais cristãos. Os novos ocupantes desenvolveram a agricultura, melhorando os sistemas de rega romanos, introduzindo a cultura de arroz e de citrinos, alperces e pêssegos.

Em 756, Abderramão I, resistindo ao domínio abássida, fundou no Alandalus um emirado independente que se tornou o florescente califado de Córdova. A sua economia assentava no comércio, na agricultura e na indústria artesanal muito desenvolvidos. A cunhagem de moeda foi fundamental e uma das mais importantes à época. A capital, Córdova, foi durante o século X uma das maiores cidades do mundo e um centro financeiro, cultural, artístico e comercial com bibliotecas, universidade, uma escola de medicina e de tradutores de grego e hebraico para o árabe.

Em 1009 um golpe de estado iniciou um período de guerra civil no Alandalus, a fitna, que conduziu à fragmentação do califado em reinos rivais, as taifas.. O território a sul do Douro foi dividido entre as taifas de Badajoz, de Sevilha e de Silves. Livres de um poder central, cidades como Alcácer do sal e Lisboa e Silves desenvolveram-se com base no comércio. A partir de 1090 os almorávidas, que predicavam o cumprimento ortodoxo do Islão, foram chamados por Almutâmide, o rei poeta da taifa de Sevilha, para auxiliar na defesa face ao avanço de Afonso VI de Leão e Castela e reunificaram o Alandalus por algum tempo até que este se desintegrou de novo, originando novas taifas. Entre 1144-1151 existiram três taifas no que é hoje Portugal: a Taifa de Mértola, a Taifa de Silves e a Taifa de Tavira, depois integradas no Califado Almóada vindos de Marrocos, descontentes com o insucesso em revigorar os estados muçulmanos e suster a reconquista cristã. A ocupação árabe da Península durou mais de cinco séculos durante os quais, partindo das Astúrias, a única região que resistiu à invasão árabe, se desenvolveu um movimento de reconquista da Península.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Conteúdo - Formação do Reino de Portugal (1139–1385)


Desde 718, refugiando-se da súbita invasão muçulmana da Península Ibérica, um grupo de cristãos visigodos resistiu acantonado a norte, na região montanhosa das Astúrias. Aí, liderados por Pelágio, fundaram o Reino das Astúrias e iniciaram a reconquista de territórios.  Este processo gradual originou o nascimento de pequenos reinos, que iam sendo alargados à medida que as conquistas eram bem sucedidas. Assim nasceram o Reino de Leão, de Navarra, de Aragão, de Castela e da Galiza.

Em 1096, o rei Afonso VI entregou o governo do Condado Portucalense, formado em 868 entre os rios Minho e Douro, a Henrique de Borgonha pelo casamento com a sua filha Teresa de Leão. Depois da morte de D.Henrique, D.Teresa tentou alargar os seus domínios e obter a autonomia aliada à alta nobreza galega contra a sua meia-irmã Urraca de Leão e Castela. Mas em 1121 teve de recuar e negociar um tratado, mantendo-se o condado um vassalo do reino de Leão.

Teresa exercera a regência durante a menoridade do seu filho, Afonso Henriques. Mas em 1122 os interesses de ambos chocaram, quando este se opôs a uma união galego-portuguesa. A posição de favoritismo de D.Teresa em relação aos nobres galegos e a indiferença para com os fidalgos e eclesiásticos portucalenses originou a revolta que este liderou. D. Afonso Henriques armou-se cavaleiro e passou a viver em Coimbra. Em 1128 venceu a batalha de São Mamede contra as forças de sua mãe e Fernão Peres de Trava. Assumiu então o governo do condado e concentrou esforços em negociações junto da Santa Sé para alcançar a autonomia. Simultaneamente procurou alargar os seus domínios, conquistando território aos muçulmanos, enquanto lutava contra as forças de seu primo Afonso VII de Leão e Castela.

Em 1139, depois de uma importante vitória contra um contingente mouro na batalha de Ourique, D. Afonso Henriques foi aclamado rei de Portugal, com o apoio das suas tropas. Nascia assim o Reino de Portugal, com capital em Coimbra e iniciava-se a primeira dinastia. A independência portuguesa foi reconhecida por Leão e Castela em 1143 pelo tratado de Zamora. Em 1147, com o apoio de cruzados norte europeus, Afonso I de Portugal conquistou Lisboa. Com a pacificação interna, prosseguiu as conquistas aos mouros, empurrando as fronteiras para sul, desde Leiria ao Alentejo.

Considera-se que foi em 1211, reinado de D. Afonso II, a primeira vez que foram reunidas cortes em Coimbra com representantes do clero e nobreza. Foram publicadas importantes leis para proteger os bens da Coroa, garantir as liberdades e proibir os abusos dos funcionários régios.

Em 1249, o Algarve mourisco foi incluído no reino cristão de Portugal, concluindo a reconquista portuguesa. Isso aconteceu no reinado de D. Afonso III, que acrescentou à sua intitulação "Rei de Portugal e do Algarve". Em 1254 foram realizadas cortes em Leiria, onde estavam pela primeira vez representantes das vilas e cidades. Em 1297 D. Dinis selou a paz com os reinos de Leão e de Castela e fixou os limites fronteiriços pelo Tratado de Alcanizes. Anos antes, em 1290, adoptara como língua oficial do reino de Portugal, em vez do latim, a "língua vulgar" (galego-português), a que chamou língua portuguesa.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Conteúdo - Consolidação e expansão (1385–1580)



Desde 1369, no início do seu reinado, D. Fernando I travou as guerras fernandinas contra forças castelhanas, ao reclamar-se herdeiro do trono de Castela. Mais tarde, no contexto da guerra dos cem anos que dividia a Europa, apoiou a pretensão de João de Gante, duque de Lancaster, ao mesmo trono.  Contudo, pouco antes de morrer, viu a sua impopular mulher Leonor Teles de Menezes negociar o casamento da filha Beatriz de Portugal com João I de Castela, planeando entregar-lhe o trono de Portugal.

Desde as guerras fernandinas, a nobreza portuguesa dividira-se em duas facções: pro-castelhanas e pro-inglesas. Após a morte de D. Fernando I, sem herdeiros masculinos, a regência de Leonor Teles lançou o reino num período de guerra civil e anarquia, com uma parte significativa da população revoltada face à possibilidade da perda de independência.  Durante a crise de 1383-1385, a rainha partilhava o governo com o nobre galego João Fernandes Andeiro. A facção pela independência que se lhe opunha era liderada pelo meio-irmão de D. Fernando, D. João, Mestre de Avis. Em dezembro de 1383, D. João liderou uma revolta contra a rainha que matou o Andeiro. Após a morte do conde, o povo de Lisboa aclamou-o Regedor e Defensor do Reino. De imediato as forças de Juan I de Castela entraram em Portugal e cercaram Lisboa. Em abril de 1384, Nuno Álvares Pereira, nomeado fronteiro do Alentejo, vence uma força castelhana em número superior à sua, na batalha dos Atoleiros.

Em 1385, os castelhanos avançaram para tomar o trono de Portugal. Convocaram-se então as cortes de Coimbra de 1385. Aí, um grupo de nobres e mercadores que incluía Nuno Álvares, opôs-se ao Partido Legitimista leal a D. Leonor. Procurando garantir a independência do reino, nomearam então como rei de Portugal D. João, Mestre de Avis, filho ilegítimo de Pedro I. Assim terminava a dinastia de Borgonha e iniciava-se uma segunda dinastia portuguesa, a dinastia de Avis.

Com aliados ingleses, D. João I liderou uma vitória determinante na batalha de Aljubarrota, que aniquilou definitivamente o exército castelhano e assegurou a independência do reino. Os exércitos portugueses foram comandados por Nuno Álvares Pereira, nomeado Condestável do Reino. Meses depois, o condestável invadiu Castela e infligiu nova derrota na batalha de Valverde. O casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre, princesa inglesa filha de João de Gante, e a assinatura do Tratado de Windsor (1386) selaram a aliança luso-britânica.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Conteúdo - Descobrimentos e formação do império português


Em 1415, as forças de D. João I conquistaram a cidade de Ceuta, no norte de África, movidas pelo espírito de continuação da reconquista e pelo interesse comercial. Foi o início do expansionismo português.

À medida que os muçulmanos retaliavam e desviavam as rotas comerciais, decidiu-se investir na exploração por mar ao longo da costa africana. Para dirigir a exploração foi nomeado o Infante D. Henrique. A partir de 1419, com o incentivo do infante, navegadores experientes e os mais avançados desenvolvimentos náuticos e cartográficos da época, exploraram a costa ocidental de África sistematicamente, cada vez mais para sul. Em 1418/19 chegaram ao arquipélago da Madeira e em 1427 aos Açores onde estabeleceram capitanias que prosperaram da agricultura e de uma florescente indústria de açúcar.

Gil Eanes transpôs o difícil Cabo Bojador em 1434. Após aperfeiçoar a caravela em meados do século, em 1479 passaram o Equador. Em 1471 no Golfo da Guiné foi estabelecida a feitoria de São Jorge da Mina para apoiar um florescente comércio de ouro de aluvião. Partindo da Mina Diogo Cão fez o primeiro contacto com o Reino do Congo. Intensificam então a busca de um caminho marítimo para as "Índias", alternativo ao Mediterrâneo - dominado pelas repúblicas marítimas italianas, pelos otomanos, pelos mouros e por piratas- no lucrativo comércio de especiarias. Após sucessivas viagens exploratórias, em 1488 Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, entrando pela primeira vez no Oceano Índico a partir do Atlântico.

A chegada de Cristóvão Colombo à América em 1492 precipitou uma negociação entre D. João II e os Reis Católicos de Castela e Aragão. Como resultado foi assinado em 1494 o Tratado de Tordesilhas, dividindo o mundo em duas áreas de exploração demarcadas por um meridiano situado entre as ilhas de Cabo Verde (a 370 léguas a oeste deste arquipélago) e as recém descobertas Caraíbas: cabiam a Portugal as terras "descobertas e por descobrir" situadas a leste deste meridiano, e à Espanha as terras a oeste dessa linha. Em 1498, Vasco da Gama chegou à Índia, estabelecendo o primeiro contacto direto da Europa com a Ásia e inaugurando a importante rota do cabo. Em 1500, na segunda viagem para a Índia, Pedro Álvares Cabral desviou-se da costa Africana e aportou no Brasil. Em Lisboa foi então estabelecida a Casa da Índia para administrar todos os aspetos do comércio e da navegação além-mar e foi nomeado o primeiro vice-rei da Índia sediado em Cochim.

A vitória na Batalha de Diu afastou mamelucos e árabes, facilitando o domínio português do Índico. Em 1510 sob o governo de Afonso de Albuquerque foi constituído o Estado Português da Índia com capital em Goa, primeira conquista territorial. Albuquerque conquistou Malaca em 1511, alcançando as ambicionadas "ilhas das especiarias" (ilhas Molucas) em 1512, e aportando na China um ano depois. Enquanto isso outros navegadores exploravam o Oceano Pacífico ao serviço do Império Espanhol, como Fernão de Magalhães. Na sequência da sua viagem de circum-navegação, quando as explorações portuguesas e espanholas convergem nas ilhas Molucas foi firmado em 1529 o Tratado de Saragoça que demarcou as explorações no oriente: as Molucas foram atribuídas a Portugal e as Filipinas a Espanha.

Rotas comerciais portuguesas de Lisboa a Nagasaki entre 1580-1640 (azul); rotas rivais espanholas (branco) com o chamado galeão de Manila estabelecido em 1565
De 1415 até 1534, quando se iniciou colonização do interior nas capitanias do Brasil por D. João III, o império português foi uma talassocracia, abrangendo os oceanos Atlântico e Índico. Uma cadeia de fortificações costeiras protegia uma rede de feitorias, com o comércio reforçado por licenças de navegação, os cartazes, com o apoio de numerosas relações alianças diplomáticas com o Reino do Sião, Império Safávida da Pérsia, Reino de Bisnaga, Etiópia, entre outras. Era completado pela acção de missionários ao abrigo do Padroado português, um acordo da coroa portuguesa com a Santa Sé.

Em 1542 ou 1543, comerciantes portugueses aportam no Japão, onde mais tarde ajudam a fundar Nagasáqui. Em 1557, as autoridades chinesas autorizaram os portugueses a estabelecerem-se em Macau, que se tornou a base de um próspero comércio triangular entre a China, o Japão e a Europa, via Malaca e Goa. Em 1571, uma cadeia de entrepostos ligava Lisboa a Nagasaki: nascera o primeiro império global da história, trazendo enormes riquezas para Portugal. Em 1572, Luís Vaz de Camões publicou "Os Lusíadas", três anos após regressar do Oriente, cuja acção central é a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama.

sábado, 28 de abril de 2018

Conteúdo - Descobrimentos e formação do império português


Rotas comerciais portuguesas de Lisboa a Nagasaki entre 1580-1640 (azul); rotas rivais espanholas (branco) com o chamado galeão de Manila estabelecido em 1565

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Conteúdo - União Ibérica (1580–1640)


Em 1580, após a morte do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir sem descendentes, Portugal enfrentou uma grave crise dinástica. Três netos de D. Manuel I reclamavam o trono: Catarina, duquesa de Bragança, António, Prior do Crato e Filipe II de Espanha. Em julho, D. António foi aclamado rei pelo povo de Santarém, mas um mês depois Filipe II, apoiado pelo Conselho de Governadores e parte da aristocracia portuguesa, entrou no país e derrotou-o na batalha de Alcântara. 

Em 1581, Filipe II convocou as Cortes de Tomar. Aí, após se comprometer a manter a língua, leis e cargos na mão de portugueses foi coroado rei de Portugal sob a forma de monarquia dual - dois reinos, um rei - iniciando a união ibérica sob a a dinastia Filipina, apesar da oposição dos partidários de D. António nos Açores. A Guerra da Sucessão Portuguesa prolongou-se por dois anos até ao Desembarque da Baía das Mós. A governação ibérica - dos dois reinos e seus imensos impérios - era assegurada por Conselhos (Consejos) com sede em Madrid. Em Lisboa, um vice-rei nomeado pelo rei chefiava o governo.

Durante a união o império português sofreu grandes reveses, ao ser envolvido nos conflitos dos Habsburgos com a Inglaterra, a França e a Holanda. Entre 1595 e 1663 foi travada a Guerra Luso-Holandesa com as Companhias Holandesas das Índias Ocidentais e Ocidentais, que tentavam tomar as redes de comércio portuguesas de especiarias asiáticas, escravos da África ocidental e açúcar do Brasil. Os holandeses apoderaram-se sucessivamente de Ternate e Amboina na Indonésia, da Capitania de Pernambuco no Brasil, de São Jorge da Mina, Arguim, Axim, tomando o lugar dos portugueses no Japão em 1639 e cercando Macau. Ao passo que os ingleses tomaram Ormuz em 1622.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Conteúdo - Restauração


No reinado de Filipe III (IV de Espanha) (1621-1640) vários problemas minaram o apoio português à união: o aumento de impostos sobre comerciantes portugueses, a perda de importância da nobreza nas cortes espanholas, os cargos de governação ocupados pelos espanhóis e a pressão para partilhar o fardo financeiro e militar das guerras de Espanha. Os portugueses estavam pouco inclinados a ajudar, uma vez que a Espanha não conseguira evitar a ocupação holandesa das suas possessões coloniais. Isto apesar do facto de tanto portugueses como holandeses estarem nominalmente sob a sua coroa.

A situação culminou numa revolução feita pela nobreza e alta burguesia em 1 de dezembro de 1640. A revolução, embora previsível, foi despoletada quando o João, 8.º duque de Bragança foi convocado para organizar tropas e lutar contra revoltosos na Catalunha. A trama foi planeada pelos chamados "Quarenta Conjurados", que aproveitaram o facto de as tropas castelhanas estarem ocupadas no outro lado da Península. O apoio do povo foi imediato, e logo o duque de Bragança foi aclamado rei de Portugal em todo o país, iniciando a dinastia de Bragança como João IV de Portugal.

Na subsequente Guerra da Restauração contra Filipe IV os portugueses venceram várias batalhas. Em 1641, para proteger os territórios ultramarinos, foi celebrada uma trégua com os holandeses. Sem efeito, pois estes ocuparam São Tomé, Luanda, Ceilão e Malaca. Entre 1645 e 1654, recifenses comandados por Salvador Correia de Sá recuperaram o Recife e conseguiram reconquistar Angola e São Tomé. Em 1661 foi selada a segunda Paz de Haia. Portugal aceitou as perdas na Ásia e os holandeses a soberania portuguesa do Nordeste brasileiro, mediante o pagamento equivalente a 63 toneladas de ouro. Nesse ano, para obter uma aliança com os ingleses, D. João IV negociou o casamento da sua filha Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra, cedendo como dote Tânger e Bombaim.

A paz definitiva com os holandeses foi conseguida após estes tomarem Cochim e a costa de Malabar. A paz com Espanha foi conseguida finalmente em 1668, após a vitória portuguesa na Batalha de Montes Claros, e uma vez falecido o renitente Filipe IV da Espanha. Foi selada pelo Tratado de Lisboa (1668) entre Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha, pondo fim a quase 30 anos de guerra. Espanha reconheceu a independência de Portugal e devolvem-se prisioneiros e conquistas, excepto a cidade de Ceuta, que ficou na posse de Espanha.