quarta-feira, 13 de junho de 2018

Conteúdo - A Escola de Aviação de Vila Nova da Rainha


No início do século XX, o desejo de dotar Portugal de asas levou à publicação do decreto que criou a escola de aviação militar em 1912. Esta levaria alguns anos a sair do papel, mas a quase totalidade dos nossos pilotos pioneiros passou por lá.
Em Portugal a primeira demonstração de voo com um aeroplano teve lugar no antigo ‘Hipódromo de Belém’, a 27 de outubro de 1909, pelo piloto francês Armand Zipfel, que pilotou um aeroplano “Voisin Antoinette” de 40 CV”. A experiência “não foi das mais felizes”, devido ao vento e o piloto quase perdeu a vida quando o aparelho acabou em cima de uma casa.

Entre 14 e 22 de Novembro de 1909, em Linda-a-Pastora, nos arredores de Lisboa tiveram lugar os primeiros voos sem motor com portugueses aos comandos.  Artur de Morais, Raúl Marques Caldeira, Alberto Cortez e Cisneiros de Faria – alunos do Instituto Industrial, – e Ezequiel Garcia – jornalista – utilizaram dois planadores tipo «Charute» para ralizar 25 experiências de voo.

N0 mesmo ano Abeillard Gomes da Silva, construiu em Paris um avião designado «Gomes da Silva I», com o qual fez várias tentativas de levantar voos no aeródromo de Issy les Moulineaus, sem obter êxito.

Em 1909 surge o Aero-Club de Portugal e a 11 de dezembro tira brevet o primeiro piloto português civil: Óscar Blank.

A revolução republicana de 1910 não teve impacto nos sonhos de elevar Portugal acima do solo.

Pelo contrário Gomes da Silva obteve o necessário apoio do Governo para a construção do seu «Gomes da Silva II», e para o efeito instalou-se em Tancos, na escola Prática de Engenharia. As experiências de voo começaram em 14 de Março de 1910, de forma acidentada, levando-o eventualmente a desistir da ideia.

O primeiro voo de um aeroplano a motor em Portugal aconteceu a 27 de Abril de 1910. Aos comandos estava o francês Julien Mamet, que descolou o seu aeroplano «Blèriot» do aeródromo de Belém, em Lisboa, efetuando um largo círculo a 50 metros de altura sobre a Casa Pia passando pelo Tejo, regressando ao ponto de partida, onde recebeu uma ruidosa ovação do público presente.

O ano de 1912 foi pleno de novidades e a 24 de Junho, numa sessão da Câmara de Deputados, surgiu um Projeto de Lei visando a criação da Aviação Militar. Em agosto, chegou o primeiro aeroplano a Portugal, comprado pel’ O Comércio do Porto.

O biplano “Farman-Maurice”, foi adquirido e escolhido por Cisneiros de Faria. Estava equipado com um motor Renault de 70 CV e podia transportar carga útil até 300 quilos. Fazia ligações entre Porto e Lisboa, com os pilotos Leopold Trescartes, Paulham e Roland Garros.

Assistiram mais de 60.000 pessoas ao primeiro voo no campo do Castelo do Queijo. O aeroplano fez evoluções sobre a cidade do Porto, Foz e Matosinhos, chegando a elevar-se a 300 metros de altura. O aparelho foi depois transportado para Lisboa onde, a 27 de setembro de 1912, realizou igualmente um voo de demonstração no Hipódromo de Belém.

Dias antes, a 10 do mesmo mês, Alberto Sanches de Castro, aos comandos de um “Voisin Antoinette”, tinha-se tornado o primeiro piloto aviador português a voar céus nacionais sobre o Mouchão da Póvoa de Santa Iria.

A 28 de setembro, após a exibição do “Farman-Maurice” de Cisneros, chegou a Lisboa um monoplano “Deperdussin” tipo B, oferecido ao Governo português pelo coronel brasileiro Albino da Costa, originário de Sever do Vouga. A 8 de outubro, desembarcava também na capital o biplano “Avro 500”, designado “República”, adquirido em Inglaterra através de uma subscrição do Partido Republicano.

Destinado ao exército, podia ler-se na revista Ilustração Portuguesa, que o aparelho “se tem elevado com êxito do aeródromo de Belém e pairado sobre a cidade”. Pilotado pelo inglês Copland Perry, acabou por ter uma avaria num desses voos amarando no Tejo.

O resto do ano será profícuo em iniciativas. A partir de 11 de Outubro, no Porto, num hipódromo situado na rua Oliveira Monteiro, iniciaram-se uma série de voos num aparelho «Borel».

A 7 de Novembro de 1912, José Nunes da Mata, da Escola Naval, foi autorizado pelo Ministério da Guerra a dirigir a construção do seu invento nas oficinas do Estado, mais um sonhador que viu a sua ideia redundar num fracasso. No dia seguinte iniciaram-se as primeiras experiências de voo com um aparelho «Voisin», adquirido pelo jornal «o Século», e que tinha sido montado na Escola de Torpedos de Paço de Arcos, em Lisboa. Entre 8 e 9 de Novembro este aparelho voou controlado pelo piloto francês Morel, mas no segundo dia sofreu um espetacular acidente, que o danificou.

1912 fecha em Dezembro com a entrega no Ministério da Guerra, do relatório da comissão encarregue de proceder ao estudo da organização da Aeronáutica Militar. Foi ainda apresentado o relatório da comissão encarregada do estudo da organização da aviação em Portugal.

Em 26 de janeiro de 1913 avistou-se o primeiro avião a cruzar os céus da Amadora. O francês Alexandre Théophile Sallés parte do hipódromo de Belém e aterra nos terrenos do Casal do Borel, partindo parte considerável do aeroplano, bem como o hélice, na aterragem, perante uma considerável multidão. O avião teria reparação.

O Governo decidiu ainda criar o Serviço de Aeronáutica Militar e a primeira escola de aviação militar, em Vila Nova da Rainha, projeto que seria inaugurado a 1 de setembro de 1916, sob severas críticas. A Capital, de 16 de maio de 1916, trazia um extenso artigo que denegria a forma como o aeródromo estava a ser organizado, sem consultas do ponto de vista técnico aos “pensionistas que foram tirar os seus brevets às escolas de Inglaterra, França e Estados Unidos”. O mesmo jornal apontava depois os custos que uma esquadrilha operacional comportava ao erário público.

Ao Governo português, apesar do estado deplorável das finanças e de necessitar empréstimos para participar na guerra, estas considerações pareciam não incomodar.

A Aeronáutica Militar viria a ser criada em 14 de Maio de 1914 com o primeiro concurso para dez pilotos ocorrido em 14 de Agosto de 1915.

Em fevereiro de 1916 o Ministério da Guerra solicita à Grã-Bretanha ajuda na formação dos pilotos. Foram enviados para as escolas de aviação civil de Hendon e militar de Northolt os tenentes António Sousa Maya e Óscar Monteiro Torres, além do alferes Alberto Lello. Em junho de 1916 os três obtiveram os seus brevets.

A intenção do Governo era formar na Escola de Aviação Militar um corpo aéreo militar do CEP – Corpo Expedicionário Português e os alunos chegavam de diversas armas. De cavalaria, o capitão Alberto Cifka Duarte, os tenentes António Sousa Maya, Francisco da Cunha Aragão, Óscar Monteiro Torres, Alberto Lello Portela, e o alferes João Salgueiro Valente.

De Artilharia, o capitão Norberto Ferreira Guimarães, de Infantaria o tenente José Barbosa Santos Leite e o alferes Carlos Esteves Beja.

Para atrair voluntários para o curso, o Capitão Norberto Guimarães, efetuou em Março de 1917, um voo de propaganda aeronáutica com escalas em várias cidades conseguindo a adesão de muitos oficiais das unidades visitadas, formando um grupo inicial que deu início ao primeiro curso de pilotagem militar na Escola de Pilotagem de Vila Nova da Rainha. Dali saíram pilotos como Sarmento de Beires ou Pinheiro Correia, que protagonizaram nos anos seguintes alguns dos feitos mais heróicos da história da Aviação Portuguesa.

Também por Vila Nova da Rainha passou Sacadura Cabral, que lá levou em 23 de fevereiro de 1917 o seu grande amigo e companheiro de África, Gago Coutinho, a ‘dar uma voltinha’.

O sonho de criar um corpo aéreo do CEP, no entanto, nunca levantou voo. Os ingleses não atenderam os sucessivos pedidos de equipamento colocados pelo Governo português e os franceses também mostraram não ter possibilidade de se substituírem aos ingleses, o que colocou um ponto final ao projeto de criar uma esquadrilha portuguesa na Flandres.

O Capitão Norberto Guimarães, nomeado para formar e comandar o Serviço de Aviação do CEP, não desistiu e graças às boas relações com o Estado-Maior Francês, conseguiu uma vitória, com pilotos portugueses a serem colocados em escolas de aviação francesas e, posteriormente, em esquadrilhas de caça ou de bombardeamento francesas.

Apesar do Governo ter ordenado a dissolução do Serviço de avião do CEP, em Março de 1918, os pilotos portugueses desafiaram as ordens de regressar a Portugal e continuaram a combater em França até ao fim da guerra.

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