domingo, 30 de abril de 2017

Américo Vespúcio

Américo Vespúcio (1451-1512) foi um navegador italiano nascido em Florença. Em sua homenagem, as terras descobertas por Colombo foram denominadas América. Américo Vespúcio foi o navegador a constatar que as recém descobertas terras do Novo Mundo, constituíam um continente, e não faziam parte da Ásia como imaginou Colombo.

Américo Vespúcio adquiriu fama graças a uma série de documentos que dão margem a controvérsias. Na primeira série são mencionadas quatro viagens relatadas em carta, em italiano, datada de 4 de setembro de 1504, procedente de Lisboa, endereçada a Pier Soderini, magistrado supremo da República Florentina. Duas versões latinas desta mesma carta foram publicadas com os títulos de Quatuor Americi Vesputii Navigationes e Mundus Novus ou Epístola Alberici de Novo Mundo. A segunda série apresenta três cartas particulares remetidas para os Medicis.

Na primeira série de documentos são relatadas quatro viagens, na segunda série apenas duas viagens. Os historiadores concluíram que na verdade Américo Vespúcio fez somente duas viagens.

Américo Vespúcio (1451-1512) nasceu em Florença, na Itália, no dia 9 de março. Era o terceiro filho de Anastácio Vespúcio e Isabel Mimi. Educado por seu tio, Jorge Antônio Vespúcio, recebeu educação humanística. Estudou na Itália e na França, onde aprofundou-se no estudo de Geografia, Astronomia e Cosmografia.

A serviço dos Medicis foi para Sevilha, na Espanha, em 1491, trabalhar na gerencia de importante casa comercial, onde passou a auxiliar Juanoto Berardi no abastecimento de navios, e travou contato com Colomdo e outros navegantes. Em 1495, com a morte de Berardi, Vespúcio deixou Sevilha e foi em busca do desconhecido.

No dia 18 de maio de 1499, Vespúcio partiu de Cádiz, na expedição de Alonso de Hojeda com uma frota de quatro naus, destinadas a explorar as terras já descobertas por Colombo. Atravessaram o Atlântico e chegaram próximo à costa da atual Guiana Francesa.

Após uma desavença, Hojeda e Vespúcio se separam, cada um com duas naus. Hojeda seguiu para o norte e Vespúcio para o sul. Costeando o Brasil, descobriu o estuário do rio Amazonas e foi até o cabo de São Roque, onde inverteu a rota e chegou até a Venezuela. Os dois navegantes voltaram a se encontrar no Haiti e em junho de 1500 regressaram à Espanha.

Convencido até então de ter percorrido a península do extremo leste da Ásia descrita por Ptolomeu, Vespúcio conseguiu que o rei D. Manuel I de Portugal financiasse nova expedição em busca de uma passagem para os mares da China.

Nessa segunda viagem, de importância fundamental, o navegador italiano partiu de Lisboa no dia 13 de maio de 1501, chegou ao cabo Santo Agostinho em Pernambuco e no final do mesmo ano, desceu ao largo do litoral do Brasil, avistou a baía de Guanabara e ultrapassou o estuário do rio da Prata. Foi o primeiro navegador a alcançar e registrar a costa meridional da Patagônia. Em 1502 estava de volta à Portugal, convencido que havia percorrido a costa de um novo continente, pois seria impossível que a suposta península asiática se prolongasse de tal forma para o sul.

Em 1505 passou a servir à coroa espanhola. Em Sevilha assumiu o posto de piloto-mor da corte, ajudando na preparação de mapas oficias e rotas marítimas. Neste mesmo ano recebeu a cidadania espanhola.

Os diários de bordo e alguns mapas que fez do litoral por ele percorrido, desapareceram. Vespúcio morreu em Sevilha no dia 22 de fevereiro.

Notícia retirada daqui

terça-feira, 25 de abril de 2017

Biografia de Filipe II de Espanha e I de Portugal

n.       [ 21 de maio de ] 1527.
f.        13 de setembro de 1598.

Nasceu em Valladolid em 1527, faleceu no Escurial a 13 de setembro de 1598. Era filho de Carlos V, imperador da Alemanha, e da imperatriz D. Isabel, filha do rei D. Manuel, de Portugal. 

Casou em 15 de novembro de 1543, contando dezasseis anos de idade, com a infanta D. Maria, que também contava a mesma idade, filha de D. João III e da rainha D.: Catarina, a qual faleceu dois anos depois, a 12 de julho de 1545. Ficando viúvo aos 18 anos, Filipe assim se conservou até 1551, em que casou com Maria Tudor, rainha de Inglaterra, e foi residir em Londres, mas tornou-se tão pouco simpático aos ingleses, que estes, com o maior prazer o viram partir em 1555 para os Países Baixos, cujo governo Carlos V lhe cedeu, como anteriormente lhe cedera, um ano antes, o governo de Nápoles e da Sicília, e como lhe cedeu mais tarde, em 1556, a coroa de Espanha, quando completamente abdicou para se recolher no mosteiro de S. Justo. Filipe enviuvou também da rainha de Inglaterra, falecida em 1558, e tornou a casar, pela terceira vez, com a princesa de França, Isabel de Valois, filha de Henrique II. Não seguiremos a vida deste monarca, senão depois de se ter apoderado de Portugal em 1580. 

Depois da morte do rei D. Sebastião na funesta batalha de Alcácer Quibir, Filipe pensou na posse do trono português, com as maiores esperanças, por ver aclamado o cardeal D. Henrique, velho decrépito, de quem não se podia recear sucessão. Era, porém, preciso antes da sua morte, assegurar a posse do trono, e para isso empenhou, todos os meios, intrigas e. dinheiro para ganhar ao seu partido a corte de Portugal, conseguindo assim. chamar para seu lado muitos fidalgos portugueses. Os pretendentes, que eram sete, disputavam entre si a posse do. reino, mas; desses sete, contavam-se cinco que baseavam as suas pretensões em fundamentos aceitáveis. Estes cinco eram: Filipe do Espanha, que alegava ser filho de D. Isabel, filha primogénita de D. Manuel, que casara com Carlos V; o duque de Sabóia dizia ser filho da infanta D. Beatriz, filha do referido monarca, que casara com seu pai o duque de Sabóia; D. António, prior do Crato, alegava ser filho natural do infante D. Luís, igualmente filho de el-rei D. Manuel; o duque de Parma, o ser neto, por sua mãe, do príncipe D. Duarte, filho também de D. Manuel; e a duquesa de Bragança, D. Catarina, alegava ser filha do mesmo príncipe. Os dois, que menos direito mostravam, eram Catarina de Médicis, rainha de França, dizendo-se descendente de D. Afonso III e de sua primeira mulher, a condessa Matilde de Bolonha, e finalmente o papa, que se dizia herdeiro natural dos cardeais, e entendia portanto dever usufruir o reino que um cardeal governava como podia usufruir uma quinta de que fora possuidor. Os cinco primeiros é que apresentavam títulos valiosos, e entre esses só três disputavam seriamente entre si a coroa: Filipe, D. António, prior do Crato, e a duquesa de Bragança. Cem a morte do cardeal D. Henrique ainda mais se acendeu a intriga. Cristóvão de Moura, o português renegado que estava sendo em Portugal o agente infernal do rei de Espanha, conhecido pelo demónio do meio-dia, enleava tudo nas redes da sua diplomacia corruptora, espalhando ouro castelhano, com que comprava as consciências que quisessem vender-se: Filipe II, em Espanha, seguia com ansiedade a marcha dos acontecimentos, e de lá dirigia os planos e auxiliava a política do seu emissário. O reino ficara, entregue a cinco governadores vendidos a Cristóvão de Moura, os quais, receando do povo que se agitava; hesitavam em reconhecer Filipe como rei de Portugal. Vendo isto, o monarca castelhano dispôs-se a conquistar o reino pela força das armas, empresa fácil, porque os governadores das praças já eram, na maior parte, criaturas de Cristóvão de Moura. D. António, prior do Crato, fizera-se aclamar em Santarém, mas dispunha de poucas tropas. Apesar disso, Filipe reuniu um poderoso exército, cujo comando confiou ao general duque de Alba; confiou ao marquês de Santa Cruz o comando duma esquadra, e conservou-se próximo da fronteira de Badajoz. O duque de Alba marchou sobre Setúbal; conquistando facilmente o Alentejo, atravessou para Cascais na esquadra do marquês de Santa Cruz, marchou sobre Lisboa, derrotou o prior do Crato na batalha de Alcântara, a 4 de Agosto de 1580, perseguiu-o até à província do Minho, e preparou enfim o reino para receber a visita do seu novo soberano. (V. Antonio, D.). 

Filipe, em 9 de dezembro, atravessou a fronteira, entrou em Elvas, onde se demorou dois meses recebendo nesta sua visita os cumprimentos dos novos súbditos, sendo um dos primeiros que o veio saudar o duque de Bragança. A 23 de fevereiro de 1581 saiu de Elvas, atravessou triunfante e demoradamente todo o país, e a 16 de março entrou em Tomar, para onde convocara cortes, e ali distribuiu as primeiras recompensas, e ordenou os primeiros suplícios e confiscos, e recebeu a noticia de que todas as colónias portuguesas haviam reconhecido a sua soberania, exceptuando a ilha Terceira, onde se arvorara a bandeira do prior do Crato, que fora ali ,jurado rei de Portugal a 16 de abril de 1581. Nessas cortes prometeu Filipe II respeitar os foros e as isenções de Portugal, e nunca lhe dar para governador senão um português ou um membro da família real. Entendendo que devia demorar-se algum tempo no território português, expediu de Lisboa as tropas que subjugaram, depois de porfiada luta, a resistência da ilha Terceira, em que D. António fora auxiliado pela França, e só partiu para Espanha, quando a vitória naval de Vila Franca, em que o marquês de Santa Cruz destroçou a esquadra francesa em 26 de julho de 1582, lhe garantiu a definitiva submissão da referida ilha. Nomeando para vice-rei de Portugal seu sobrinho, o cardeal‑arquiduque Alberto, e depois lhe ter agregado um conselho de governo, e de ter nomeado os membros do conselho de Portugal, que devia funcionar em Madrid, partiu finalmente a 11 de fevereiro de 1583 para Espanha. A 29 de agosto conquistava o marquês de Santa Cruz a ilha Terceira. A nova monarquia hispano-lusitana era opulentíssima; abrangia na Europa toda a península ibérica, Nápoles, Sicília, Milão, Sardenha e Bélgica actual; na Ásia as feitorias portuguesas da Índia, da Pérsia, da China, da Indochina, e a da Arábia; na África: Angola, Moçambique, Madeira. Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Canárias, toda a América menos algumas das Antilhas, parte dos actuais Estados Unidos e o Canadá, e urnas porções de terrenos na Guiana; na Oceânia tudo o que então havia conhecido e pertencente aos europeus. Nenhuma outra nação ali fora ainda assentar domínio. As Molucas eram a parte mais importante dessas possessões. 

A Europa principiou a assustar-se com este poderio colossal, receosa de que por este caminho Filipe chegasse a realizar o sonho ambicioso de monarquia universal. Sucederam se então importantes acontecimentos políticos, em que a Inglaterra aproveitou para se vingar de Filipe, de quem se considerava ofendida. As coisas complicaram-se gravemente porque Isabel, de Inglaterra, mostrou-se disposta a auxiliar as pretensões do prior do Crato, e o almirante Drake, por ordem superior, invadiu as colónias espanholas, que eram também as portuguesas, saqueando Cabo Verde, tomando o castelo do Cabo de S. Vicente, e apresando quantos galeões americanos cruzavam nos mares dos Açores. Foi então que Filipe organizou a célebre Armada Invencível, comandada pelo duque de Medina Sidónia, que uma tempestade aniquilou por completo, em Junho de 1588. (V. Armada Invencível). As ambições de Filipe II foram profundamente ruinosas para as nossas colónias. Em 1589 fechara aos ingleses os Portos portugueses e em 1591 fechou-os também aos holandeses Daí resultou que não podendo nem uns nem outros vir buscar a Portugal os géneros do Oriente, lembraram-se de ir à, fonte desse comércio. Os holandeses começaram a aparecer no seu tempo no Oriente, onde a nossa decadência era sensível, e onde depois da perda da nossa independência só dois capitães ilustres, D. Paulo de Lima Pereira e André Furtado de Mendonça, tinham mantido nobremente a honra da bandeira portuguesa. Os ingleses salteavam as nossas possessões mais próximas, Cabo Verde e os Açores, mas não tardariam também a aparecer no Oriente favorecendo a natural reacção dos indígenas contra o nosso domínio. 

Em Portugal houve duas tentativas de revolta, promovidas pela aparição de dois homens em quem o povo julgou ver D. Sebastião, e que por isso tiveram a denominação de rei de Penamacor e de rei da Ericeira. O motim promovido por este último tomou proporções gravíssimas, e foi reprimido dum modo sanguinário e violentíssimo. Filipe II, apesar da destruição da Armada Invencível, não desistiu das suas expedições contra a Inglaterra, e ainda em 1596 enviou urna à Irlanda que também os temporais dispersaram, perdendo a Espanha neste desastre 40 navios. Filipe enviuvou pela terceira vez, e casou novamente com uma segunda prima, Ana de Áustria, que faleceu em 1580, quando estava com seu marido em Badajoz, seguindo o progresso das armas castelhanas em Portugal, deixando-o pela quarta vez viúvo. Filipe II teve uma série de primeiros-ministros notáveis: o duque de Alba, que morreu em Lisboa dois anos depois da conquista; o príncipe de Eboli que morreu muito antes do rei; António Peres, que lhe sobreviveu, mas que ele perseguiu implacavelmente; o cardeal de Granville, que depois de ter perdido todo o valimento, o recuperou e foi chamado de Nápoles para ficar como regente do reino em Madrid, enquanto o rei vinha a Portugal; e Cristóvão de Moura, que foi o valido da última hora, o que recebeu o seu derradeiro suspiro e as suas derradeiras confidencias. Pouco tempo antes de morrer, o cardeal-arquiduque Alberto, vice-rei de Portugal, fora nomeado soberano de Flandres, e para o substituir em Portugal nomeou um conselho composto do arcebispo de Lisboa, dos condes de Portalegre, de Sabugal e de Santa Cruz, e de Miguel de Moura. Foi este o último acto importante do seu reinado. 

Com a Universidade de Coimbra deu-se o seguinte facto, logo no começo do reinado de Filipe. Em fevereiro de 1580, pouco depois da morte do cardeal rei D. Henrique, apresentou-se ao claustro da Universidade o Dr. João Nogueira, com uma provisão dos governadores do reino, na qual permitiam a todos os lentes, que não fossem desembargadores, dar o seu parecer dentro de oito dias, sobre a sucessão do trono. Quis, porém, a má estrela da Universidade, que D. António, prior do Crato, lhe escrevesse uma carta, datada de Santarém aos 20 de junho do mesmo ano, dando conta de ter sido aclamado rei em diversos lugares do reino. A Universidade resolveu em claustro que se fizesse uma procissão, em acção de graças, desde a sua capela até Santa Cruz; e no mesmo claustro foram eleitos, para irem dar obediência ao nosso rei, reconhece-lo como tal e fazer-lhe a entrega da protectoria, o reitor Fernão Moniz Mascarenhas e Fr. Luís Sotto Mayor. Em 13 de dezembro voltou o reitor, disse em claustro que era desnecessário dar conta do desempenho da sua missão, pois de todos era já sabido que o rei de Castela estava reconhecido como rei de Portugal. Em vista desta declaração deliberou-se que o próprio reitor, encarregado havia pouco de cumprimenta o prior do Crato, fosse agora com os lentes da sua escolha, dar obediência a Filipe I. Este acto cerimonial realizou-se em Elvas a 20 de dezembro de 1580, sendo a Universidade representada por D. Jorge de Ataíde e D. Afonso Castelo Branco. Tornou-se a fazer outra procissão solene, quando o reitor, em voltando, trouxe carta de el-rei, datada de Elvas a 25 de fevereiro de 1581, na qual significava o contentamento que sentira pela obediência da Universidade, e com o ser declarado seu protector. Mas Filipe não era homem que deixasse sem castigos os sentimentos que a Universidade manifestara ao prior do Crato. Pedro de Alpoim, colegial de S. Pedro e lente do Código, foi degolado em Lisboa; frei Luís de Sotto Mayor privado da cadeira grande de Escritura; frei Agostinho da Trindade, da de Escoto; frei Luís foi depois restituído, mas frei Agostinho ausentou-se para França, e foi lente de Teologia na Universidade de Tolosa; João Rodrigues de Vasconcelos, que trouxera a carta do prior do Crato, foi preso e morreu na prisão. Outro facto é também digno de narrar-se; pela provisão de 9 de março de 1583 foi Manuel de Quadros nomeado visitador e reformador da Universidade; tomou posse do cargo e prestou, juramento a 21 de março do mesmo ano. O visitador vinha encarregado de construir escolas para a Universidade, mas os seus esforços estacaram afinal pela falta de dinheiro. A Universidade pediu a Filipe I que lhe cedesse os paços reais para neles se assentarem as escolas, que lá estavam havia já 40 anos. O rei respondeu, em 30 de setembro do referido ano de 1583, que, embora desejasse fazer muitas mercês à Universidade, não era conveniente a seu serviço dar-lhe os seus paços, que aliás, em sendo desocupados pela Universidade, tencionava mandar concertar, para poder em algum tempo ir a eles, como desejava. Filipe nunca realizou o desejo que disse ter de ir aos paços de Coimbra. Anos depois, em 1597, o mesmo monarca vendeu à Universidade esses mesmos paços por 30 mil cruzados. Neste sentido foi expedido um alvará em 17 de maio de 1597, e se fez a carta de venda, em nome do rei, a 16 de setembro do mesmo ano. No reinado de Filipe I recebeu a Universidade estatutos por duas vezes, uma em 1592, sendo trazidos de Madrid pelo Dr. António Vaz Cabaço, resultantes da reformação operada por Manuel de Quadros; outra, os novos estatutos confirmados em 8 de junho de 1597, e trazidos de Madrid pelo Dr. Rui Lopes da Veiga. 

Filipe I, o rei ambicioso e desumano, que todos esmagava com o seu feroz despotismo, faleceu coberto de vermes e de úlceras, depois dum doloroso. e demorado sofrimento.

Biografia e ficha genealógica de Filipe I
O Portal da História

Biografia retirada daqui

domingo, 23 de abril de 2017

Biografia de Filipe III de Espanha e II de Portugal

n.       [ 14 de abril de ] 1578.
f.        31 de março de 1621.

Nasceu em Madrid em 1578, onde também faleceu em 31 de março de 1621. Era filho de Filipe II, e de sua quarta mulher, D. Ana de Áustria.

Subiu ao trono em 1598, contando vinte anos de idade. Tinha um carácter fraco, apático e irresoluto, e foi completamente dominado pelo seu ministro duque de Lerma, D. Cristóvão de Moura, que fora elevado a marquês de Castelo Rodrigo, e nomeado vice-rei de Portugal, o que muito indignou os portugueses, apesar da sua administração ser das mais hábeis, segundo consta. O duque de Lerma procurava um pouco favorecer Portugal e cimentar a união dos dois reinos da península, adoptando medidas de grande importância. Assim tratou tanto quanto possível do desenvolvimento da marinha, aboliu os Portos secos, as alfândegas, abriu os portos de Portugal ao comércio inglês, e por algum tempo também os teve abertos ao comércio holandês, mas essa ultima medida pouco tempo durou, o que prejudicou muito Portugal. Em 1609, vendo que não podia lutar por mais tempo com os estados da Holanda, assinou com eles uma trégua de doze anos, mas tão ineptamente procedeu o marquês de Castelo Rodrigo que, assinando a trégua na Europa, deixou que continuassem as hostilidades nas colónias, onde mais prejudiciais eram ao país. Por essa mesma época publicou Filipe III um edito expulsando definitivamente de Espanha os descendentes dos mouros. Depois da conquista de Granada por Fernando, o Católico, esses mouros tinham sido forçados a abraçar o Cristianismo, formavam uma massa de população submissa, industriosa, cultivando admiravelmente a terra e enriquecendo o Estado, mas o fanatismo espanhol não lhes perdoava a sua origem. A sua expulsão foi uma grande fatalidade para a península, que perdeu perto de um milhão doa seus habitantes mais industriosos, e arruinou a sua agricultura e a sua indústria. Desses desgraçados, os que se recusavam a abandonar a pátria, eram perseguidos como feras e assassinados, ficando somente as crianças de menos de sete anos, que se venderam como escravas, depois de se baptizarem. Esta expulsão dos mouros não foi movida só pelo fanatismo, porque Filipe III tratava ao mesmo tempo com os judeus de Portugal para os proteger contra os rigores da Inquisição, a troco dum subsídio importante. 

Ao marquês de Castelo Rodrigo sucedera no governo de Portugal o bispo de Coimbra, a este o bispo de Leiria, voltara depois ao marquês, novamente ao bispo de Leiria, ao arcebispo de Braga, ao arcebispo de Lisboa, e finalmente ao marquês de Alenquer, espanhol de origem, e que por conseguinte estava completamente fora das condições estipuladas pelas cortes de Tomar. O descontentamento dos portugueses era geral, e Filipe III, que não o ignorava, empreendeu uma viagem a Portugal, resolução que muito aplaudiu o novo ministro e valido, o duque de Uzeda, filho do duque de Lerma, que descaíra do valimento real, e se havia afastado da corte. A viagem realizou-se em 1619. Dela ficou a interessantíssima narrativa ilustrada de João Baptista Lavanha, e que, embora impressa em Madrid, o foi à custa da cidade de Lisboa. O soberano foi acolhido por toda a parte com o maior entusiasmo, as câmaras e as corporações portuguesas gastaram enormes somas para uma pomposa recepção, esperando grandes proveitos desta viagem, imaginando que o soberano daria providencias contra os danos de que todos se queixavam das arbitrariedades dos governadores. Filipe III, porém, nada fez, nem sequer soube cativar simpatias. Insinuou-se-lhe que fizesse de Lisboa a capital da vasta monarquia espanhola, e Filipe nem se dignou responder; os fidalgos e os jurisconsultos queixaram-se de que nem recebiam mercês, nem eram empregados nos tribunais, nas embaixadas, nas universidades espanholas, e Filipe não fez o mínimo caso destas reclamações. O duque de Uzeda, muito menos hábil que seu pai tratou com aspereza o duque de Bragança, que viera também prestar homenagem à majestade castelhana. Depois de estar alguns meses em Lisboa, sem fazer mais do que causar grandes despesas aos seus súbditos portugueses, Filipe retirou-se em outubro do referido ano de 1619, deixando Portugal descontentíssimo, agravando-se ainda mais esse descontentamento, depois da sua saída, com a recondução do marquês de Alenquer no cargo de vice-rei de Portugal. Na Índia, contudo, mantinha-se o nosso domínio, ainda que, a muito custo; os holandeses já tinham tentado tomar-nos as Molucas, Malaca e Moçambique, mas batidos por André Furtado de Mendonça e Estêvão de Ataíde, haviam desistido dessa empresa. Na América também os holandeses ainda não tinham atacado as nossas colónias. 

Filipe III casou com D. Margarida de Áustria, filha do arquiduque Carlos, no dia 18 de abril de 1599. Ao sair de Portugal Filipe adoeceu gravemente em Covarrubias, e nunca mais se restabeleceu, falecendo pouco mais dum ano depois. Diz-se que a sua morte foi devida ao rigor de etiqueta, porque sentindo-se muito incomodado com o calor dum braseiro, teve de o suportar enquanto não apareceu o fidalgo, que pela sua hierarquia, segundo as praxes palacianas, era encarregado de o fazer remover para outro lugar. No Panorama, vol. II da 2.ª série, 1843, a pág. 218, 238 e 253, vem uma narrativa intitulada O Braseiro, em que se descreve este facto. No seu reinado publicou-se a reforma das Ordenações do reino, que Filipe II tratou logo no começo do seu reinado; apesar de já estar concluída em 1597, só veio a publicar-se em 1603. São as conhecidas ordenações denominadas Filipinas, e que na ordem dos tempos foram precedidas pelas intituladas Afonsinas e Manuelinas.

Biografia e ficha genealógica de Filipe II
O Portal da História

Biografia retirada daqui

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Biografia de Filipe IV de Espanha e III de Portugal

n.       8 de abril de 1605.
f.        7 de setembro de 1665.

Nasceu em Madrid a 8 de abril de 1605, onde também faleceu a 7 de setembro de 1665. Era filho de Filipe III, de Espanha, e da rainha sua mulher, D. Margarida de Áustria. 

Em 14 de julho de 1619 foi jurado príncipe de Portugal, e aos dezasseis anos de idade, em 1621, sucedeu no trono por morte de seu pai. Logo no começo do seu reinado chamou para junto de si D. Gaspar de Guzman, que fez conde-duque de Olivares, que se tornou o seu ministro e valido homem em que depositava a maior confiança e a quem entregou completamente a administração dos negócios do Estado. O novo valido era mais activo e mais inteligente que os anteriores ministros, os duques de Lerma e de Uzeda, mas pela sua má política, foi mais prejudicial do que eles ao rei e aos países que governava. Julgando conseguir os seus fins adoptando medidas rigorosas, tomou tais providências com relação a Portugal, que provocou a maior resistência. O que os portugueses aceitaram de bom grado, serenando mais os ânimos irrequietos, foi a demissão do marquês de Alenquer, que era o vice-rei de Portugal, substituindo-o por uma junta de três membros, composta do conde de Basto, D. Nuno Álvares Portugal e o bispo de Coimbra. Seria decerto um bom ensejo para se entrar numa politica conciliadora, muito mais, conhecendo-se a irritação que lavrava em Lisboa e nas províncias, mas o conde-duque não viu ou não quis ver a gravidade da situação, e seguiu um caminho cheio de precipícios. Promulgou, em nome do rei, decretos sobre bens da Coroa, sobre a fiscalização financeira, que feria os interesses do povo, decretos que começaram a suscitar grande indignação; arrancou tributos ao país, a título de subsídios voluntários, publicou fechar outra vez os Portos do reino aos holandeses, medidas que muito contribuíram para a ruína do país, que tivera algumas esperanças de lucrar com a actividade e inteligência do novo ministro e valido. A esta situação pouco tranquilizadora sobrevieram factos que seriamente inquietavam o conde-duque, e que o obrigaram a empregar toda a energia. 

A trégua com as Províncias Unidas estava concluída, e a luta recomeçava não muito desvantajosa na Europa, onde Spínola mantinha o prestigio das armas espanholas, mas nas colónias, onde o desmoronamento estava sendo completo, principalmente nas colónias portuguesas menos protegidas que as de Espanha, pelo egoísmo inepto do governo de Madrid. Em 1623, Ormuz caiu em poder dos persas auxiliados pelos ingleses; em 1624, os holandeses tomaram Baía; no entretanto, Macau e a Mina foram heroicamente defendidas repeliram os holandeses, e a Baia foi-lhes reconquistada em 1625, por uma forte esquadra, que o conde-duque de Olivares mandou rapidamente aprestar, com o auxílio do patriotismo português, então vivamente excitado. Contudo, o ministro bem calculava que os holandeses deveriam continuar a inquietá-lo, porque a França aliara-se com os protestantes da Alemanha, com a Dinamarca e a Holanda, sendo um dos planos desses aliados o enfraquecimento da Espanha pelos repetidos assaltos dados ás suas colónias pelas esquadras holandesas. Para resistir àquela aliança, entendeu Olivares que devia ligar fortemente os diferentes reinos que constituíam a monarquia espanhola, quebrando os foros e as isenções que cada um deles guardava com a maior tenacidade. Para realizar esse plano começou por enfraquecer os diversos reinos, exigindo-lhes pesados impostos, especialmente a Portugal, que no plano tributário ocupava o primeiro lugar. O conde-duque de Olivares, de tal forma o oprimiu que o povo se revolucionou, cansado de tantas violências. Não tendo já sobre que lançar impostos, chegou até a tributar as maçarocas, o que amotinou as regateiras do Porto, que correram à pedrada Francisco de Lucena, que fora ali encarregado de distribuir e cobrar o novo imposto. (V. Maçarocas, imposto das). Os governadores do reino, o conde de Basto e D. Afonso Furtado de Mendonça eram os primeiros a protestar contra os inauditos tributos e tão repetidas vexações, ponderando ao governo de Madrid que o povo, já tão oprimido e massacrado, poderia reagir energicamente, mas os seus protestos não foram ouvidos, e o implacável ministro castelhano ainda mais agravou os impostos, recomendando aos agentes fiscais que procedessem com o máximo rigor contra os que não pagassem pontualmente. Era duma sofreguidão insaciável; Olivares empregava mil formas para arrancar dinheiro a Portugal, já alcançando dos cristãos novos milhão e meio de cruzados a troco de um indulto que lhes oferecia, já levantando empréstimos, que eram verdadeiros tributos, já promovendo subscrições, a que dava o nome de voluntárias, a pretexto de socorrer as colónias. As ordens do conde-duque de Olivares tinham hábeis executores em Diogo Soares, secretario do conselho de Portugal em Madrid, e no seu parente, o celebre Miguel de Vasconcelos, nomeado escrivão de fazenda e secretario de Estado de Portugal, quando a duquesa de Mantua, parente de el-rei, foi nomeada em 1631 vice-rainha de Portugal. 

Este homem tornou-se justamente odioso aos portugueses pelo modo como desempenhava a sua missão de secretário de Estado. Os impostos eram cada vez mais odiosos. Olivares tivera a ideia de obrigar os portadores de títulos de divida publica a um empréstimo forçado, mandando que os tesoureiros das alfândegas retivessem um trimestre de juros aos portadores, a quem os pagavam. Com esta simplicidade entendia também Miguel de Vasconcelos que se deviam cobrar os tributos. Foi ele quem lembrou que, em vez de se lançarem tributos novos neste ou naquele género, se lançasse ao reino de Portugal uma finta de 500000 cruzados, finta que as câmaras distribuiriam depois entre os contribuintes como lhes aprouvesse. A paciência popular estava esgotada; de tantos sacrifícios e vexames resultara o povo revolucionar-se. Em Évora romperam os tumultos e com Poda a energia, em que tanto se salientou o celebre Manuelinho de Évora. Contudo, tomaram um carácter exclusivamente democrático, que foi muita prejudicial, porque a nobreza em vez de se aliar à insurreição, viu-se insultada pelo povo, e o mais que pôde fazer, em atenção ao patriotismo, foi apresentar-se como medianeira deixando a revolução entregue ás suas próprias forças, mas o movimento propagou-se com bastante rapidez no Alentejo, Algarve, Porto e em alguns pontos do Minho. Faltava, porém, um chefe, direcção e unidade neste ímpeto revolucionário. Olivares aproveitou-o como pretexto para trazer tropas castelhanas a Portugal, punindo severamente os revoltosos de Évora, e tornando ainda mais despótico e opressor o jugo que fazia pesar sobre Portugal. Esperava que o povo português reagisse de novo, dando-Ihe pretexto para poder aniquilar completamente a nossa autonomia. Tomara para isso todas as precauções necessárias. Fora chamando a Espanha pouco a pouco os principais fidalgos portugueses, invocando diferentes pretextos, mas na realidade para tirar à revolução, que esperava, os seus naturais chefes; mandava alistar em Portugal terços que remunerava bem para irem servir em Flandres, apoderava-se de todos os navios portugueses, e dera ordem à, esquadra de D. António de Oquendo que viesse para Lisboa, afim de dar força à proclamação da união definitiva de Portugal com a Espanha. 

Receando que o duque de Bragança se resolvesse a capitanear uma insurreição, resolveu Olivares enleá-lo de tal modo que, ou se declarasse formalmente em oposição ao governo espanhol, e então seria um pretexto para o obrigar a sair do reino, ou se tornasse cúmplice do domínio espanhol, fazendo-se executor das suas ordens mais odiadas. D. João aceitou o cargo de presidente de uma junta de defesa do reino, e nessa qualidade veio até Almada, onde os fidalgos lhe pediram para tomar a Coroa. D. João recusou, mas se a sua timidez o impedia de se lançar no caminho da revolução, o seu natural bom senso fazia com que se escapasse dos laços de Olivares, e evitasse a posição falsa em que o ministro castelhano o pretendia colocar, procedendo de modo que todos percebessem que ele andava ali forçado e tratando dos interesses do nosso país. Procurando por todas as formas desprestigiar, desmoralizar e enfraquecer Portugal, Olivares não hesitava em recomendar a Miguel de Vasconcelos que promovesse tanto quanto possível a desonra e o descrédito das famílias nobres; fazendo com que se lhes seduzissem as filhas, indicação que pareceria fantasiada, se não estivesse publicada a correspondência sobre este assunto, entre Diogo Soares e Miguel de Vasconcelos. Os planos do conde‑duque de Olivares não se realizaram, porque a esquadra do almirante Oquendo foi derrotada pelos holandeses na batalha do Canal, porque a guerra dos Trinta Anos recrudesceu, achando-se a Espanha a braços com todo o poder da França, porque a Catalunha, que via os seus foros já suprimidos violentamente por Olivares, respondeu à opressão com a revolução, e, expulsando o vice-rei e as tropas castelhanas, declarou-se em insurreição aberta. Os acontecimentos das colónias, que estavam cada vez em piores circunstancias, tendo-nos tomado os holandeses Pernambuco, Paraíba, Maranhão, S. Jorge da Mina e Malaca, indignavam seriamente os portugueses que já tinham reagido com toda a energia contra a imprudência com que o conde-duque de Olivares quisera mandar em socorro do México uma esquadra, equipada à custa do tesouro português e destinada ao Brasil.

A notícia da insurreição da Catalunha veio agitar ainda mais a opinião pública. Olivares aproveitou esse acontecimento para arrancar mais tropas a Portugal, e chamar a Madrid quantos fidalgos pôde, sendo o primeiro que chamou o duque de Bragança. Em Lisboa conspirava um grupo de fidalgos de acordo com João Pinto Ribeiro, procurador do duque de Bragança, para lhe darem a Coroa. D. João, vendo que não podia desobedecer ás ordens do governo de Espanha, que o chamava a Madrid, senão pondo-se à frente da revolução, deu o seu consentimento, e o glorioso dia primeiro de dezembro de 1640 raiou finalmente, em que Portugal readquiriu a sua independência depois de tio anos de ignominiosa opressão sob o domínio de três monarcas castelhanos. Filipe IV de Espanha e III de Portugal, enquanto o seu ministro e valido conde-duque de Olivares governava abertamente, cavando com os seus planos e as suas teorias a ruína de Espanha, empregava o tempo divertindo-se, caçando, escrevendo comedias, namorando actrizes, com especialidade Maria Calderon, de quem teve um filho, que foi depois D. João de Áustria, um dos generais espanhóis de maior nomeada; e fazia-se retratar por Velásquez e Rubens. Apesar da sua indiferença, causou-lhe uma certa sensação a perda de Portugal, e desde então começou a desgostar-se do valido, que não tardou a substituir por D. Luís de Haro. Deram-se em seguida grandes batalhas, como as das Linhas de Elvas, do Ameixial, de Castelo Rodrigo, terminando a campanha. da Independência com a de Montes Claros, em 1665. 

Filipe faleceu pouco depois desta batalha. Tinha casado com D. Isabel de Bourbon, filha de Henrique IV, de França.

Biografia e ficha genealógica de Filipe II
O Portal da História

Biografia retirada daqui

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Biografia de D.Henrique

n.      1057.
f.       1114.

Conde de Borgonha, o Bom, fundador da monarquia portuguesa, por ter sido pai de D. Afonso Henriques, 1.º rei de Portugal. Nasceu em Dijon em 1057, data que se considera mais provável, e faleceu em Astorga em 1114. Era o 4.º filho do duque Henrique de Borgonha e de sua mulher, Sibila, neto de Roberto I, duque de Borgonha-Baixa, e bisneto de Roberto, rei de França. 

Quando em 1086 as notícias da guerra contra os muçulmanos chamaram a alistar-se debaixo das bandeiras de D. Afonso VI, rei de Leão e de Castela, os príncipes dalém dos Pirenéus, o príncipe Henrique veio para Espanha na companhia de seu primo Raimundo de Borgonha, filho do conde Guilherme de Borgonha, irmão de sua mãe. Os dois príncipes granjearam grande reputação pelo seu valor nas guerras em que entraram, e em prémio dos serviços prestados, D. Afonso VI casou sua filha D. Urraca com Raimundo, e D. Teresa ou Tareja, filha bastarda, com D. Henrique. Em 1093 D. Afonso atravessou o rio Mondego, tomou Santarém, Lisboa e Sintra, dilatando assim o domínio cristão até ao rio Tejo. Como o ocidente da península hispânica formava um domínio já bastante extenso para que os seus chefes pudessem lembrar-se em se tornarem independentes, pensou em delegar o seu poder para esses lados num homem de confiança. Fez pois de Raimundo conde soberano de Galiza, e de Henrique governador do condado de Portucale, sob a suserania de Raimundo. O território entre o Minho e o Tejo compreendia então três territórios o condado de Portucale, que ia do Minho ao Douro; o de Coimbra, do Douro ao Mondego; e o novamente conquistado aos sarracenos, do Mondego ao Tejo, de que D. Afonso fizera governador Soeiro Mendes, com a sede do governo em Santarém. Este território foi retomado pelos moiros logo em 1095. e parece que este desastre contribuiu para que D. Afonso VI libertasse o conde D. Henrique da suserania de seu primo Raimundo, porque em 1097 já governava independentemente o seu condado, e em 1101 encontrava-se na corte do rei de Leão e de Castela. Estavam, portanto, sossegadas as fronteiras de Portugal, e os muçulmanos, concentrando todos os seus esforços no oriente da península e nas fronteiras de Castela, contentavam-se no ocidente só com a posse de Lisboa e de Sintra, que por esse lado limitavam o seu império já tão disseminado. Vendo a Espanha quase tranquila, procurou o conde D. Henrique outro campo em que pudesse empregar a sua irrequieta actividade. Seduziu-o, como a tantos outros príncipes, o movimento das cruzadas. 

Entre os anos de 1102 e 1104 continuas expedições demandavam a Terra Santa, e D. Henrique, nos primeiros meses de 1103 partiu para o Oriente, donde voltou em 1105, sem que a historia faça menção dos feitos que praticou, o que se explica por ele ter partido mais como simples voluntário, do que como chefe dalgum poderoso contingente. Desde essa época envolveu-se nas intrigas que tinham por fim ampliar o território que dominava. e conseguir tornar-se independente. Continuando a guerrear os moiros, conquistou-lhe mais terras, vencendo o régulo Hecha e o poderoso rei de Marrocos Hali Aben Joseph. Excelente guerreiro, sábio e prudente administrador, aumentou consideravelmente as terras do seu condado, merecendo o cognome de Bom, que a historia lhe deu. D. Afonso VI não tinha filho varão legítimo, por conseguinte Raimundo, marido de D. Urraca, esperava receber a herança, mas o monarca mostrava-se tão afeiçoado a seu filho natural D. Sancho que se receava que lhe deixasse a coroa em testamento. Prevendo este caso, e dispondo-se a anular o testamento pela força, pediu a aliança de seu primo, e fez com ele um pacto em 1107, pelo qual o conde D. Henrique se comprometia a auxiliá-lo nas suas pretensões à, coroa, recebendo em troca ou o distrito de Galiza ou o de Toledo, e a terça parte do tesouro. Raimundo, porém, morreu em outubro desse mesmo ano, D. Sancho pouco tempo depois, e D. Afonso em 1109, ficando D. Urraca legitima herdeira. Diz-se que D. Henrique, vendo o sogro já moribundo, procurou persuadi-lo a que lhe legasse o ceptro, porque não convinha que passasse para as mãos de D. Urraca, apesar da legitimidade da herança, ou para as de D. Afonso, filho do conde Raimundo, criança de três anos. Nada conseguiu, mas os barões castelhanos obrigaram D. Urraca a um segundo casamento, com D. Afonso, rei de Aragão e Navarra, casamento que o papa anulou alegando serem os noivos parentes em grau proibitivo. D. Afonso não se importou com a deliberação do papa, porém D. Urraca, que casara contra vontade, tomou o partido contrário ao do marido, que pretendia despojá-la dos seus estados. Estabeleceu-se a guerra civil, e D. Henrique tomou a defesa da cunhada. Indo depois a Astorga, ali adoeceu e morreu. O seu corpo foi trasladado para Braga, e sepultado numa capela da sé. Em 1512 o arcebispo. D. Diogo de Sousa o transportou para a capela-mor da mesma igreja, onde se tem conservado. Por morte de seu marido, ficou D. Teresa governando o condado de Portucale na menoridade de seu filho D. Afonso Henriques, que apenas contava três anos de idade.

Biografia retirada daqui

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Biografia de D.João VI

Filho de D. Maria I e de D. Pedro III, casou em 1785 com D. Carlota Joaquina, Infanta de Espanha, filha de Carlos IV e de Maria Luísa de Parma.

A partir de 1792, assegurou a direcção dos negócios públicos, devido à doença mental da mãe, primeiro em nome da rainha, a partir de 1799, em nome próprio com o título de Príncipe Regente, sendo aclamado rei em 1816. O seu reinado decorre numa época de profundas mutações à escala mundial e à escala nacional: Revolução Francesa e a consequente guerra europeia, Bloqueio Continental, campanha do Rossilhão, guerra com a Espanha e a perda de Olivença, invasões francesas, fuga da corte para o Brasil onde permaneceu durante 14 anos, revolução liberal e a independência do Brasil. Foi a derrocada de um mundo e o nascimento de outro, mudança que D. João VI não quis ou não soube compreender. 

Fugindo para o Brasil perante a invasão de Junot, o monarca terá querido manter a colónia brasileira em poder de Portugal. Isto significou, no entanto, a dependência em relação à Inglaterra, com a imposição da abertura dos Portos brasileiros ao comércio internacional e com o tratado anglo-luso de 1810, desastroso para a economia metropolitana. Além disso, a presença da corte no Brasil impulsionou a independência deste país, o que se veio a verificar em 1822.  

Em 1821 o rei é forçado a regressar a Portugal, devido ao triunfo da revolução de 1820 e, em 1822, jura a constituição, que vigoraria apenas durante alguns meses. Seguem-se a Vila-Francada em 1823 e a Abrilada em 1824, movimentos absolutistas encabeçados por D. Miguel.

Vencido e expatriado D. Miguel, D. João VI consagra os últimos anos do seu reinado a tentar resolver o problema brasileiroe, por altura da sua morte, em 1826, sonhava ainda com a reunião dos dois países na pessoa de um só soberano, sem se aperceber que o Brasil teria de seguir o seu destino americano e Portugal o seu destino europeu.

D. João VI nasceu em Lisboa, a 13 de Maio de  1767, recebendo o nome de João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael, e faleceu no Palácio da Bemposta, na mesma cidade, a 10 de Março de 1826, estando sepultado no Mosteiro de São Vicente de Fora.

Casou em 1785 com D. Carlota Joaquina, que nasceu em Aranjuez, a 25 de Abril de1775, e faleceu no Palácio de Queluz, a 7 de Dezembro de 1830, estando sepultada no mesmo Panteão. Era filha de Carlos IV, rei de Espanha, e de Maria Luísa Teresa de Parma.

Do casamento nasceram:
1. D. Maria Teresa. Nasceu no Palácio da Ajuda, a 29 de Abril de 1793 e faleceu em Trieste a 17 de Janeiro de 1874.Casou em 13 de Maio de 1810, no Rio de Janeiro, com o seu primo D. Pedro Carlos António de Bourbon e Bragança, que faleceu em 26 de Maio de 1812; e, em segundas núpcias, em 1838, com o seu cunhado e tio, o infante D. Carlos Maria Isidro, duque de Madrid e conde de Montemolin e Molina, que em 1834 enviuvara da infanta D. Maria Francisca de Assis (ver 5.)

2. D. António Pio. Nasceu no Palácio de Queluz, a 21 de Março de 1795, foi príncipe da Beira e faleceu a 11 de Junho de 1801;

3. D. Maria Isabel. Nasceu no Palácio de Queluz, a 19 de Maio de 1797, faleceu em Madrid a 29 de Novembro de 1818, estando sepultada no Mosteiro de Escorial. Casou em 1816 com o rei D. Fernando VII de Espanha, seu tio, que já enviuvara de D. Maria Antónia de Bourbon y Lorena, princesa de Nápoles;

4. D. Pedro IV, que sucedeu no trono;

5. D. Maria Francisca de Assis. Nasceu no Palácio de Queluz, em 22 de Abril de 1800, faleceu em Gosport, em Inglaterra, a 4 de Setembro de 1834, estando sepultada na capela-mor da igreja católica da mesma cidade inglesa. Casou em 1816, com o seu tio, D. Carlos Maria Isidro, infante de Espanha, falecido em 1815;

6. D. Isabel Maria. Nasceu no Palácio de Queluz, a 4 de Julho de 1801; faleceu em Benfica, a 22 de Abril de 1876, estando sepultada no Panteão de S. Vicente de Fora. Nunca casou, tendo sido regente do reino, de 6 de Março de 1826 a 26 de Fevereiro de 1828. Após a vitória da causa liberal manteve-se afastada da vida política;

7. D. Miguel, infante, regente do Reino de 1826 a 1828 e depois rei, de 1828 a 1834, que segue;

8. D. Maria da Assunção. Nasceu no Palácio de Queluz, a 25 de Junho de 1805; faleceu em Santarém a 7 de Janeiro de 1834; sepultada na Igreja do Milagre, de Santarém, e depois no Panteão de São Vicente de Fora.

9. D. Ana de Jesus Maria. Nasceu no Palácio de Mafra, a 23 de Outubro de 1806, e faleceu em Roma, em 22 de Junho de 1857.  Casou em 5 de Dezembro de 1827 com o 2.º marquês de Loulé.

Fontes: 
Joel Serrão (dir.) 
Pequeno Dicionário de História de Portugal, 
Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976
Joaquim Veríssimo Serrão 
História de Portugal, Volume VI: O Despotismo Iluminado (1750-1807), e 
História de Portugal, Volume VII: A Instauração do Liberalismo (1807-1832), 
Lisboa, Verbo, 1982 e 1984

Biografia retirada daqui

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Cabral (José Bernardo da Silva Cabral, 1.º conde de)

n.      27 de julho de 1801.
f.       25 de março de 1869.



Fidalgo da Casa Real, pelo alvará de 21 de dezembro de 1843, bacharel formado em cânones pela Universidade de Coimbra, antigo juiz, ministro e secretário de Estado, deputado em diversas legislaturas, par do Reino, conselheiro de Estado efectivo, membro do Tribunal do Tesouro Público, presidente da comissão consultiva dos negócios relativos ao registro predial; comendador da ordem de N. Sr.ª da Conceição, por decreto de 21 de maio de 1840, grã-cruz de Carlos III, de Espanha, etc.

Nasceu em Fornos de Algodres a 27 de julho de 1801; faleceu no Paço do Lumiar a 25 de março de 1869. Era filho de António Bernardo da Silva Cabral, do conselho da rainha D. Maria II, comendador da Ordem de N. Sr.ª da Conceição, deputado, proprietário em Fornos de Algodres, e de sua mulher, D. Francisca Vitória Rebelo da Costa Corte Real, filha de Pedro Luís da Costa e de sua mulher D. Maria da Apresentação da Costa Rebelo.

Estudou na terra da sua naturalidade gramática Latina e filosofia com um padre da Congregação do Oratório, indo depois para Coimbra cursar o resto dos preparatórios. Matriculou-se na universidade em 1816, recebeu o grau de bacharel em 1821, e concluiu a formatura em junho de 1822. Voltou depois a Fornos de Algodres, onde concorreu para se organizar a Guarda Nacional. Entrando na política, tomou parte na revolta conhecida na história pela Vilafrancada, em 1823, mostrando logo grande energia e coragem, sendo a Guarda Nacional do seu comando o último a dissolver-se naqueles contornos. Dedicando-se então à advocacia, fez tirocínio durante dois anos em Senhorim com o jurisconsulto Joaquim de Almeida Novais, indo depois estabelecer-se em Linhares, passando mais tarde para o Porto, em 1826. Nesta cidade adquiriu grande fama como advogado, sendo sempre procurado para a defesa das causas mais importantes, especialmente em assuntos comerciais. Chegou a tal ponto a sua fama, que, apesar das Ordenações e leis determinarem que nenhum advogado fosse aos auditórios da relação do Porto sem prévia habilitação, o chanceler que servia de governador neste tribunal, concedeu-lhe, em maio de 1827, que advogasse. Silva Cabral aderiu à revolta liberal de 16 de maio de 1828, a qual, tendo-se frustrado, o obrigou a homiziar-se, podendo aparecer em público só no fim de vinte e cinco meses, por ter sido despronunciado por alçada. Assim que D. Pedro entrou no Porto, em 10 de julho de 1832, Silva Cabral foi oferecer-lhe os seus serviços, e sendo despachado juiz de fora de Viana, não chegou a tomar posse deste lugar por causa dos miguelistas, que começaram a apertar o cerco do Porto. Foi então nomeado em Novembro desse ano auditor da primeira divisão do exército libertador, passando em fevereiro de 1833 a juiz do crime do bairro de Santa Catarina, cargo a que ele ajuntou no mês seguinte o de superintendente das barreiras e chefe de toda a policia preventiva. Quando saiu do ministério o ministro da justiça Joaquim António de Magalhães, Silva Cabral pediu a exoneração dos cargos que exercia, e alistou-se no batalhão dos empregados públicos, tomando parte nas acções de 5 e 25 de julho de 1833. O duque da Terceira, depois de percorrer o Alentejo, sempre vitorioso, veio estabelecer o governo constitucional em Lisboa em 24 do referido mês de julho, tendo dado na véspera, na Cova da Piedade, a batalha em que morreu Teles Jordão. Animado com esta vitória, D. Pedro IV não tardou a vir também para Lisboa, onde entrou triunfantemente, e Silva Cabral, logo em agosto seguinte, partiu para esta cidade, por ter sido nomeado em 23 deste mês corregedor do crime do bairro do Rossio, cargo a que andava então anexo o de superintendente dos dízimos e impostos da freguesia de S. Nicolau. Nesta situação prestou muitos e valiosos serviços, e, terminada a campanha, voltou a exercer a advocacia no Porto, conservando-se estranho à politica, até que, realizando-se a revolução de setembro em 1836, foi convidado por uma comissão de cartistas para auxiliar este partido nas eleições de 1838. Exercendo então o cargo de secretário do centro cartista, trabalhou activamente contra o governo, e, recusando o diploma que os eleitores do Porto lhe ofereciam, veio afinal tomar assento na câmara dos deputados como representante do círculo de Guimarães, era 1840, conquistando logo um dos primeiros lugares como orador, pela sua palavra enérgica e vibrante. Começou então a tomar parte muito activa na política. Na revolta popular de 11 de agosto de 1840, colocando-se ao lado de seu irmão António Bernardo da Costa Cabral, ministro da justiça, e mais tarde conde e marquês de Tomar, tratou energicamente de debelar aquele movimento revolucionário. Em 1 de janeiro de 1841 foi nomeado curador geral dos órfãos no Porto, e concorreu muito para a restauração da Carta proclamada naquela cidade em janeiro de 1842; quando a junta, formada nessa ocasião, partiu para a capital, ficou Silva Cabral encarregado da segurança do Porto e das províncias do norte. Enquanto a junta se demorou em Coimbra, constando-lhe que se tratava de anular o movimento revolucionário, embarcou para Lisboa imediatamente, e, chegando antes da junta, removeu todos os obstáculos que se opunham aquela proclamação. Por decreto de 9 de março de 1842 foi nomeado membro do Supremo Tribunal de Justiça, e partiu para o Porto afim de preparar as eleições a favor do partido cartista, sendo então deputado por essa cidade e pela de Braga. Voltou de novo ao Porto; como governador civil, em janeiro de 1843, quando ali rebentaram uns motins populares, e conseguiu restabelecer a tranquilidade; em 1844 teve transferência no mesmo cargo para o distrito de Lisboa, e na revolta que se deu em Torres Novas, sufocou também o movimento revolucionário que se devia realizar na capital, podendo evitar que a ordem pública fosse alterada. Como governador civil adoptou então muitas e importantes medidas sobre salubridade publica, estatística, jogo, etc. Adoecendo seu irmão em maio de 1845, ficou-o substituindo nas pastas dos ministérios do Reino e da Justiça, sendo em 24 de Julho nomeado ministro efectivo da Justiça, e Negócios Eclesiásticos. Então decretou o regulamento das cadeias e os projectos da reforma judiciária. Organizando-se o Conselho de Estado, Silva Cabral foi nomeado conselheiro extraordinário na secção administrativa, por decreto de 11 de agosto do referido ano de 1845, passando a efectivo, por decreto de 26 de fevereiro de 1846. Quando em março seguinte se manifestaram os primeiros sintomas da revolta popular contra o governo do conde de Tomar, revolta conhecida por Maria da Fonte, a rainha D. Maria II enviou-o como seu lugar-tenente às provincial do norte, por carta régia de 21 de abril. Nesta comissão houve-se com a sua costumada energia e actividade. Caindo o ministério, de que fazia parte, pediu um ano de licença e saiu de Lisboa. Demorou-se algum tempo em Paris, e em consequência dos sucessos políticos que se seguiram, foi neste intervalo demitido do cargo de conselheiro de Estado. Chegou a Lisboa a 19 de abril de 1847, e logo recebeu uma portaria, em que o mandavam sair do reino no prazo de vinte  e quatro horas, intimação a que não obedeceu; sendo pouco depois demitido o ministério, a portaria ficou sem efeito, Silva Cabral foi restituído ao cargo de conselheiro de Estado, e nas eleições seguintes saiu deputado por Vila Real, Porto e Lisboa. Vendo que os acontecimentos políticos tomavam uma feição diversa, passou à oposição, conservando-se sempre fiel aos seus princípios. Fundou o jornal O Estandarte, em que, apregoando a doutrina de ampla liberdade e de bem entendida economia, combateu no parlamento e na imprensa os dois ministérios que se organizaram até 1851. Rebentando neste ano o movimento da Regeneração, Silva Cabral não hostilizou a nova ordem de coisas; apesar de não ser eleito deputado nessa época, continuou na imprensa aconselhando o governo a que seguisse os princípios e regras que ele sempre tinha defendido. Notando, porém, que o ministério regenerador, presidido pelo marechal duque de Saldanha, se afastava destas máximas, que no seu pensar deviam servir de norma a todos os governos liberais, tornou se silencioso,. recolhendo-se à vida doméstica, exercendo unicamente o cargo de conselheiro de Estado. Depois da queda do ministério Saldanha voltou à política. Fundou o jornal Rei e Ordem, onde proclamou a urgente necessidade de reformas e de economias. Tornou à câmara dos deputados nas legislaturas de 1860, 1861 e 1864, sendo eleito pelo círculo de Odemira. Em 23 de fevereiro de 1867 foi nomeado par do Reino, tomando posse na respectiva câmara na sessão do dia 29, e por decreto de 24 de outubro, e carta de 7 de novembro do referido ano de 1867, agraciado como título de conde de Cabral em duas vidas. Pouco tempo, porém, sobreviveu a estas distinções, porque a morte o surpreendeu. O conde de Cabral casou no Porto a 19 de fevereiro de 1828, com D. Maria Emília Pereira da Silva, filha de Miguel António de Azevedo Pereira da Silva.

A sua biografia vem publicada nos Contemporâneos, escrita pelo falecido escritor Osório de Vasconcelos, e na Revista contemporânea, de Eduardo de Faria, n.º 7, ano de 1855. Além de muitos artigos insertos no Estandarte e no Rei e Ordem, e de muitos discursos incluídos nos Diários das camaras; publicou: Discurso sobre a desamortização dos bens da igreja, pronunciado pelo deputado. . . na sessão de 2 de agosto de 1860, Lisboa, 1860.

O seu brasão de armas consta dum escudo partido em pala; na primeira as armas dos Silvas, em campo de prata um leão de púrpura, armado de azul; na segunda as armas dos Cabrais, em campo de prata, duas cabras vermelhas, passantes, armadas de negro.


Biografia retirada daqui


terça-feira, 11 de abril de 2017

José Joaquim Carneiro de Campos


Redactor da Constituição do Brasil e da Carta Constitucional portuguesa.

Nasceu em São Salvador da Baía a 4 de Março de 1768;
morreu no Rio de Janeiro a 8 de Setembro de 1836.


Destinado à vida eclesiástica, ingressou no mosteiro de S. Bento, onde recebeu ordens sacras, mas, não sentido vocação para a vida eclesiástica, matriculou-se na Universidade de Coimbra, onde se formou em Ciências Físico-Matemáticas e em Teologia e tomou o grau de bacharel em Direito.

Encarregado da educação dos filhos do Conde de Linhares, em 1807 retirou-se para o Brasil, onde foi nomeado oficial da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e mais tarde oficial maior daquele departamento.

Em 1823 foi eleito deputado às Constituintes, pelo Rio de Janeiro e ainda nesse ano foi ministro. Foi um dos dez conselheiros nomeados para redigir a Constituição do Império e o principal inspirador dos seus princípios liberais.

Em 1826 foi senador pela Baía, de 1826 a 1827 ministro da Justiça e interino do Império; de 1829 a 1830 recebeu novamente a pasta do Império e na Regência provisória, estabelecida quando em 1831 triunfou o Partido Liberal, foi um dos três regentes eleitos, por maioria de votos.

Possuía as comendas das Ordens de Cristo e da Coroa de Ferro, da Áustria.

Casou com D. Custódia Maria do Sacramento, que tinha o mesmo nome de sua mãe, tendo tido  geração.

Recebeu o título de Visconde de Caravelas em 12 de Outubro de 1825 tendo sido elevado a Marquês em 12 de Outubro de 1826.

Fonte: 
Nobreza de Portugal e Brasil, vol. III, p 592

domingo, 9 de abril de 2017

Maria Luísa de Sousa Holstein


Na segunda metade do século XIX, começos do século XX, o panorama das Artes Plásticas, no feminino, em Portugal, contava na Pintura com nomes como as irmãs Sousa, Aurélia e Sofia, Sara Vasconcelos Gonçalves, Alda Machado Santos, Raquel Roque Gameiro ou Milly Possoz, só para referir algumas. Porém, na Escultura, unicamente se destacou, embora boa parte dos nossos historiadores de Arte dela se esqueçam frequentemente: Maria Luísa de Sousa Holstein, terceira duquesa de Palmela. 
             O conde de Sabugosa, seu amigo, deixou-nos páginas cheias de pitoresco sobre a personalidade fascinante desta aristocrata, para lá do apreço indisfarçável que tinha pelo talento da sua amiga. Nascida em berço de ouro, neta do primeiro duque de Palmela, uma das mais polémicas e sedutores figuras da nossa História, que foi o braço direito de D. Pedro IV na consolidação do regime liberal no nosso país, e neta da não menos famosa Eugénia Teles da Gama, a quem Garrett se referiu nos mais elogiosos termos, foi, acima de tudo, uma esclarecida senhora do seu tempo, generosa e talentosa, o que aliado, a uma grande fortuna, fez dela uma personalidade notável. 
             A educação daquela que foi uma menina exemplar, na verdadeira acepção da palavra, foi até aos nove anos orientada pelo avô, que encontrava nela a sua dilecta herdeira. Frequentou em Paris o Colégio do Sacré Coeur (que em 1904 passou a Lycée Sacré Coeur), onde as filhas da aristocracia europeia recebiam uma educação religiosa ministrada por freiras, mas que contava ainda com aulas de Artes Plásticas, visitas a museus e monumentos, concertos e toda uma convivência social que fazia parte dessa mesma educação. 
             Maria Luísa conviveu com grandes nomes da Pintura e Escultura. Curiosamente, nasceu no mesmo ano que Renoir, conheceu Guillaume, ficou amiga de Rodin, com quem manteve correspondência depois do seu regresso a Portugal. Os seus pais foram Domingos de Sousa Holstein também diplomata como o avô e Maria Luísa de Noronha e Sampaio. 
             Desce cedo, Maria Luísa demonstrou um talento especial para o desenho. Teve aulas de escultura com Anatole Calmels esse mestre francês que viera para Portugal como escultor da Corte e que deixou mais rico o património nacional com o seu grupo escultórico “A Glória Coroando o Génio e o Valor” no Arco da Rua Augusta, não esquecendo o frontão da Câmara Municipal de Lisboa e a estátua de D. Pedro IV no Porto. Mais ligadas á duquesa ficaram as duas estátuas “O Trabalho” e “A Força Moral que, a partir de 1902, passaram a dar imponência à fachada do Palácio Palmela onde se encontra hoje a Procuradoria-Geral da República. Na sala daquele palácio onde hoje reposam os Códigos era onde “os meninos”, junto à lareira que ainda está lá, punham os sapatinhos de Natal e esperavam as prendas do Menino Jesus, como me disse o último jardineiro da Casa Palmela, antes de passar a ser a Procurador-Geral da República.
             Se a “máquina do tempo” existisse gostaria de ter entrado nela, sorrateiramente e recuado perto de 150 anos, até ao dia l5 de Abril de 1863. Lisboa, nesse dia, tinha as suas atenções viradas para um acontecimento social "o casamento do ano” e eu poderia, quem sabe, entrar no Palácio Palmela e ajudar Maria Luísa de Sousa Holstein-Beck a envergar o seu lindíssimo vestido de noiva e a ajudá-la a percorrer os corredores de mármore do seu palácio até à capela (hoje, infelizmente desaparecida, devido ao grande incêndio de 1981) que fora concebida tendo por modelo as riquíssimas capelas de S. João Baptista e de S. Roque, da igreja do mesmo nome, em Lisboa. O tecto era um arco de cesto com pinturas em perspectiva com motivos religiosos. De janelas superiores entrava a luz levemente coada, no altar-mor uma pintura com a passagem da vida da Virgem - a Assunção - nas paredes quadros da escola italiana com motivos sacros, onde predominava o verde combinado com talha dourada. 
             Discretamente misturada entre os amigos e convidados e prestando especial atenção à entrada do casal real, D. Luís e D. Maria Pia, que foram os padrinhos de casamento, os meus olhos perscrutariam o semblante do noivo, tentando adivinhar os mais íntimos sentimentos naquele rapaz de vinte sete anos, já com uma história militar de que se podia orgulhar. Aos vinte e anos, alistara-se como voluntário na armada inglesa, tendo participado na Guerra da Crimeia (1853-1856). Mas, naquele dia, o seu mar azul seriam os olhos da sua jovem noiva Maria Luísa. 
             O noivo António de Sampaio e Pina Brederode visconde de Lançada, capitão da Guarda Real dos Archeiros, par do reino, oficial-mor da Casa Real e, entre outros títulos, cavaleiro da Torre e Espada. Era um casamento normal entre famílias com ascendência comum, se bem que algumas vozes dissessem baixinho que a neta do primeiro duque de Palmela escolhera marido num grau social mais baixo. 
             A festa de casamento foi de tal modo faustosa que, conta a escritora Berta Leite, as salas do Palácio estiveram abertas três dias para que os de fora pudessem apreciar não só o palácio como as deslumbrantes prendas de casamento. 
             Os noivos e convidados dançaram no salão de baile onde o mobiliário era estilo Luís XVI. As crónicas mundanas da época relataram em pormenor esta boda, os caprichosos vestidos das senhoras, alguns mandados fazer no estrangeiro outros nas óptimas costureiras francesas que havia em Lisboa e todos os convidados teriam certamente sido motivo de conversas durante longos serões.
A terceira duquesa de Palmela, de seu nome completo Maria Luísa Domingues Eugénia Ana Filomena Josefa Antónia Francisca Xavier Sales de Borja de Assis Paula de Sousa Holstein Beck, era também terceira marquesa do Faial e terceira condessa do Calhariz e de Sanfrè. 
             Foi a rainha D. Maria Pia quem introduzira na corte o hábito de nomear as mulheres dos altos dignitários para suas camareiras. Dado o grande número de senhoras da aristocracia, nessas condições, só de tempos a tempos é que era reclamada a presença junto da rainha da terceira duquesa de Palmela, que tinha também essa honrosa incumbência, e que pouco tempo tirava à sua vida privada, à família e aos seus momentos de criatividade, quando desenhava, pintava ou esculpia. 
             A duquesa acompanhou as obras de restauro que promoveu no palácio, construído nos finais do século XVIII, em várias ocasiões, a primeira das quais pouco depois de casar e já depois de ter sido mãe, pela primeira vez, da sua filha Helena Maria, nascida em Fevereiro de 1864. A mãe de Maria Luísa morreu-lhe em 1861 e o pai três anos depois. Com apenas 24 anos, a duquesa ficou senhora absoluta de um valioso património. 
             O seu palácio foi também redecorado com novas e valiosas peças que o casal Palmela adquiria em Portugal e no estrangeiro, onde muitas vezes passavam férias. O próprio avô Pedro tinha feito restauros e ampliações no palácio, para onde foi viver, depois de se reformar da política que tantas glórias e amarguras lhe causou. Restara-lhe a alegria de coleccionar obras de arte e transmitir à neta esse amor pelo Belo. 
             Sabe-se que a duquesa tinha um especial carinho pelas árvores e flores e que aprendeu mesmo horticultura para poder explicar aos jardineiros como tratar e cuidar das flores conforme as estações do ano. O palácio tinha sempre nas jarras flores frescas do seu jardim. 
             No lindíssimo estúdio que a duquesa mandou construir nas traseiras do palácio, entre flores e árvores, passava longas horas dedicada à escultura. Se bem que os motivos religiosos fossem uma das suas fontes de inspiração, muitos outros temas a encantaram, e também se dedicou a moldar e esculpir bustos de figuras conhecidas ou notáveis da sociedade do seu tempo. 
             O casal Palmela, bem ao estilo da sociedade do seu tempo, num período em que se vivia alguma acalmia europeia e, em Portugal, se gozavam os anos de progresso do “fontismo” (de Fontes Pereira de Melo), fazia uma intensa vida social, sendo o Palácio do Rato local de encontros culturais, bailes e jantares de convívio com grandes nomes da cena internacional: de realçar as faustosas festas de Carnaval, que já vinham do tempo do avô Pedro, especialmente naquele ano de 1885,que contou com uma orquestra de ciganos do príncipe Esterhazy e também aquele memorável jantar onde se homenageou a actriz famosa Sarah Bernhardt, corria o mês de Novembro de 1895. O teatro tinha um lugar importante na vida lisboeta. A rainha D. Maria Pia tinha fama de chegar quase sempre atrasada, ao ponto de ser vulgar o rei D. Luís telefonar para o Teatro S. Carlos a dizer para começarem o espectáculo sem a presença dela, o que nunca aconteceu 
             O apelido Holstein entrara na família Palmela pelo casamento da princesa Mariana Leopoldina de Holstein, filha de Frederico Guilherme, duque de Holstein, herdeiro da Noruega, e da duquesa Maria Antónia Josefina de Sanfrè com Manuel de Sousa, avô de D. Pedro de Sousa Holstein, primeiro duque de Palmela. 
             Maria Amália Vaz de Carvalho fala dos cabelos loiros da sua amiga Maria Luísa que tinham sido de um "loiro da Escandinávia", pátria dos remotos avós”. É a referência ao sangue no norueguês que lhe corria nas veias. Tinha a duquesa olhos azuis e um rosto de uma serenidade patente nos quadros e fotografias que dela conhecemos, tanto nos seus anos de juventude, como nos últimos anos da sua vida. 
             Olga de Morais Sarmento, em “As Minhas Memórias”, recorda a duquesa já nos últimos anos da sua vida. “Impossível seria falar da sociedade de então sem anotar o nome da Duquesa de Palmela. «Vi-a ainda algumas vezes, já envelhecida, com a cabeça sempre linda. Depois do regicídio, que, aliás, precedeu de pouco a sua morte, conservava-se numa distante reclusão. Ela soubera ser, no final do século passado e princípio deste, quase uma rainha. Com o seu cabelo grisalho penteado desprendidamente para cima, aliava a uma distinção incomparável uma bondade profunda e uma inteligência excepcional.» 
             Artista, era amiga dos artistas, auxiliando-os não apenas com o seu dinheiro mas também com o seu afecto, a sua solidariedade amiga, a aura que lhes criava. A ela se deve que Maria Amália tenha escrito uma das suas obras mais notáveis "A Vida do Duque de Palmela”. A duquesa mais tarde, legaria a Maria Amália Vaz de Carvalho uma casa em Cascais e uma quantia em forma de pensão. 
             Se Maria Luísa de Sousa Holstein Beck foi no seu tempo a mais famosa duquesa, isso deveu-se à sua personalidade invulgar, ao seu talento como escultura e à sua sincera e constante devoção aos pobres e desprotegidos. 
             O progresso chegava devagarinho a Portugal. Em 1856, é inaugurado o primeiro troço de caminho-de-ferro de Lisboa ao Carregado, mas pobreza sempre Portugal teve e, em finais do século XIX, Lisboa tinha uma população de fracos recursos que necessitava de apoio, em especial o operariado que, desenraizado do seu ambiente rural, lutava, nas grandes cidades, com muitas dificuldades, já para não referir as pobres crianças que então enxameavam as nossa ruas. Foi a pensar especialmente neles que a duquesa de Palmela e Maria Isabel de Lemos Saint-Léger, marquesa de Rio Maior, pensaram promover uma instituição de assistência que servisse refeições, a preços módicos, às camadas da população mais carenciadas. 
             Para a 3ª duquesa de Palmela, «cada pobre tem sobeja razão de reclamar contra as iniquidades com que o mundo o oprime e de reivindicar um estado de ordem mais perfeito». Partindo desta ideia, Maria Luísa decidiu criar em Lisboa a instituição que foi a «Sociedade Promotora das Cozinhas Económicas». Com o apoio de várias famílias aristocratas, da alta finança e outras pessoas generosas anónimas, a duquesa de Palmela vai viajar pela Europa, em viagem de estudo. Visitou nomeadamente a Suíça e a Inglaterra para ver como se estrutura uma instituição de assistência de modo a que o seu projecto tivesse bases e pudesse permanecer no tempo. 
             De regresso a Portugal, passa a contar com o apoio de grande número do pessoas com espírito de caridade, em especial, da marquesa de Rio Maior, também ela uma das senhoras mais famosas e preocupadas com os outros no seu tempo. Tinha grande jovialidade e uma memória assinalável, que nunca perdeu, mesmo já com idade avançada. Ditou as suas memórias à escritora Branca de Conta Colaço.
             Foi a própria duquesa do Palmela quem do seu bolso mandou comprar todo o equipamento, desde as mesas aos talheres, passando pelas cadeiras, fogões, etc. De França vieram algumas Irmãs da Caridade de São Vicente de Paula e, quando tudo estava organizado, inaugurou-se a primeira Cozinha Económica, na Travessa do Forno aos Prazeres, escolha criteriosa, dado ser das zonas com maior população de operários. 
             A 8 de Dezembro de 1893, dia santo para a Igreja Católica as portas abriram-se na que seria uma das mais importantes instituições de beneficência que Portugal possuiu. Depois desta Cozinha, outras se lhe seguiram, nos Anjos, em Alcântara, Xabregas, S. Mamede, onde se davam refeições a 500 crianças, S. Bento, outra ainda nos próprios jardins do Palácio de Palmela e a última seria, anos mais tarde, no cais de Santarém à Sé.
             A primeira refeição constou de uma tigela de sopa de grão com arroz, bacalhau guisado, 200 gramas de pão e 2 decilitros de vinho - todo por 90 reis. Nos outros dias, o vinho não estava incluído. 
             O próprio rei D. Carlos mandava grande parte do produto das suas caçadas em Mafra e Vila Viçosa para se confeccionarem as refeições nas «Cozinhas Económicas» e os excedentes das pescarias levadas a efeito no iate real “Amélia” tinham o mesmo destino, diz-nos Rocha Martins. 
             Na Cozinha Económica, instalada junto ao seu palácio, servia a duquesa refeições a duzentos crianças, todos os dias. 
             Um dia o conde de Sabugosa com curiosidade de ver a última escultura da duquesa, esperou-a, no seu atelier, junto ao jardim de sua casa. Conversaram e o conde, comentando a sua generosidade chamou-lhe «socialista», termo que na época tinha uma conotação um pouco diferente da de hoje. A conversa prosseguiu e Maria Luísa acrescentou: «Também eu sou socialista, mas o socialismo que me encanta e atrai é o do conde Tolstoi, que percorria as estepes da Rússia atirando com mãos generosas a sua fortuna aos que morriam de fome e de frio nas cabanas afogadas de neve”. É assim que eu compreendo a missão dos ricos, eles são no mundo os depositários dos bens que pertencem aos deserdados. Só a justa distribuição pode trazer a igualdade pregada por S. Paulo.» 
             «O supérfluo dos ricos é o património dos pobres». Frase que a 3ª duquesa dizia e cumpriu na sua vida. 
             É sabido que a escritora Maria Amália Voz de Carvalho e a duquesa de Palmela eram grandes amigas. A duquesa ia a casa da escritora no seu «coupé» forrado de cetim, parava naquele número 1 da travessa de Santa Catarina, (na época quase tão célebre em Lisboa como o nº 10 de Downing Street em Londres), às 4 da tarde. Passava horas conversando com a escritora, à saída, prolongava ainda a retirada, numa indolência propositada, para ficar mais tempo. Por isso, dela disse com graça Maria Amália, sua grande amiga: «À duquesa de Palmela nem sequer falta, como aos grandes generais, a arte infinitamente subtil da retirada» (como escreveu Luís de Oliveira Guimarães em Senhoras Conhecidas, Lisboa, 1945). 
             Gervásio Lobato disse daquela que foi conhecida em Lisboa apenas por «a Duquesa» como se fosse a única. “Não se limita a ser caritativa é benemérita:«Da mesma maneira que como uma artista a duquesa faz simplesmente arte pela arte, como benemérita faz simplesmente o bem pelo bem» 
             A Sociedade Promotora das Cozinhas Económicas” iria continuar depois da morte da duquesa, em 1909. Contava 68 anos. Esta instituição viria a ser conhecida pela «sopa do Sidónio», a partir do ano de 1918. Os tempos da guerra (1914-1918) trouxeram a miséria a muitas famílias portuguesas e conta-se que era o próprio Sidónio Pais (que foi Presidente da República entre 1917 e 1918 e morreu assassinado) e um filho que, de noite, iam fornecer as Cozinhas Económicas para que, ao menos, a sopa não faltasse aos mais pobres. 
             Estas Cozinhas passam, anos mais tarde, para as Misericórdias de Lisboa. 
             Para lá desta obra de assistência, Maria Luísa de Sousa Holstein ficou ligada a grande número de outras iniciativas como o Instituto de Socorros a Náufragos, o Hospital do Rego, a Assistência Nacional aos Tuberculosos, criado pela rainha D. Amélia, entre outras.
As suas mãos de artista moldaram o barro e esculpiram o mármore com uma delicadeza e frescura únicas e que ficaram patentes em significativo número de obras, desde “Diógenes”, fundido em bronze, que foi exposto no Salon de Paris em 1884, passando por “Santa Teresa”, premiada no Salon de 1886, “Pretinha”, “Sulamite”, “Alegria” ou o “Fiat Lux”, oferecido a D. António de Lencastre, médico do Paço, e outras esculturas, expostas em museus, embora grande parte pertença a colecções particulares ou a amigos e familiares da duquesa. Ao Museu Nacional de Belas Artes foi oferecido o “Génio do Progresso da Medicina” em bronze. 
            Em 1901, e em anos seguintes a duquesa de Palmela, vai expor na Sociedade Nacional de Belas Artes e em Paris e terá participado pela última vez no Rio de Janeiro em 1908. 
            Em 1903 a duquesa de Palmela fora recebida como a Primeira Mulher Académica de Mérito da Academia Real de Belas Artes de Lisboa. Com Josefa Brito do Rio, condessa de Ficalho, vai criar aquela que foi a célebre “Fábrica do Ratinho’. Quem hoje possui peças de cerâmica dessa oficina pode ver o símbolo do “ratinho” e sentir-se feliz por possuir uma peça muito rara e muito valiosa, pois a produção não foi grande. 
            Camareira da rainha D. Amélia de Bragança, a duquesa de Palmela encontrava-se no Palácio das Necessidades no dia seguinte ao do regicídio (assassinato do rei D. Carlos e do filho Luís Filipe). Após a reunião do Conselho de Estado, aproximou-se do ministro João Franco e discretamente perguntou-lhe: «Isto é o fim da Monarquia, não é, conselheiro?» como a adivinhar a resposta. 
            Maria Luísa de Sousa Holstein era uma senhora de grande cultura. Estudara em França, como se disse e conhecia vários países, privava com embaixadores, falando-lhes normalmente na língua deles. Interessada por tudo o que a rodeava, estava sempre bem informada, parece até que o seu telefone foi, logo a seguir ao do Palácio da Ajuda, um dos primeiros a ser instalado em Lisboa. Daí, podermos afirmar que conhecia bem o que se passava no resto do mundo e a evolução que a sociedade portuguesa iria sofrer. Só que ninguém podia adivinhar que a República começaria em Portugal com um banho de sangue, talvez evitável. Nas suas casas de Sesimbra e Calhariz possuía a duquesa das mais completas pinacotecas do país. 
            À Sociedade de Geografia de Lisboa foi oferecido, em 21 de Junho de 1909, o busto de Sá da Bandeira, por quem a duquesa nutria grande admiração, pois foi companheiro de lutas de seu avô Pedro, primeiro duque de Palmela. Nesse dia presidiu à sessão solene na Sociedade de Geografia o rei D. Manuel II, acompanhado pelo infante D. Afonso. Entre os convidados encontravam-se dois sobrinhos-netos do marquês de Sá da Bandeira. Caetano Alberto da Silva, director da revista «O Ocidente» disse a propósito: «Sá da Bandeira teve agora urna consagração suprema. A duquesa de Palmela modelou em mármore o busto do intrépido general.» 
            Algumas vozes invejosas (como sempre houve e haverá) diziam que as esculturas da duquesa tinham intervenção do seu mestre Calmels. «Ora elas são por demais femininas para se poder arredar essa hipótese.» (Fernando Pamplona). 
            O casal Palmela mereceu sempre a atenção dos jornalistas, talvez pela aura de simpatia e elegância que Maria Luísa de Sousa Holstein e o marido transmitiam e que fazia deles o alvo preferencial das crónicas mundanas. Eram notícia quando, com o seu vestido branco, foi servir discretamente as refeições numa das Cozinhas Económicas, era notícia quando o marido lhe ofereceu um iate a que foi posto o nome de “Surpresa”; eram notícia quando promovia uma “batalha de flores’ na Avenida da Liberdade, com o fim de angariar fundos para as despesas das Cozinhas Económicas; era notícia quando recebe menções honrosas, em Paris e no Rio de Janeiro, pelas suas esculturas, enfim eram sempre notícia, numa época em que só era famoso quem tinha verdadeiro merecimento para tal. 
            A 3ª duquesa de Palmela morreu na sua quinta de São Sebastião, em Sintra.«A nota culminante e comoventíssima do seu enterro foi dada pelo povo, pelos velhos que mal podiam andar, pelas pobres mulheres de xaile e lenço, com os filhos ao colo, por toda aquela multidão saída não se sabia de onde, e que a ia acompanhando, a pé, levando muitos os seus humildes ramos de flores - todos, as flores que mais eloquentes pareciam à alma gentilíssima da Duquesa de Palmela - lágrimas, muitas lágrimas nos olhos» (Olga de Morais Sarmento). 
            A 3ª duquesa de Palmela deixou um valioso património artístico cheio de “de graça nervosa e juvenil’ ela que assinava apenas M.ª Palmella sculp.(abreviatura de escultora em latim)
             Se bem que a 3ª duquesa de Palmela tenha por si só uma personalidade fascinante e talento suficiente para ficar na memória de todos, é difícil não falarmos dos seus antepassados. É o caso da sua bisavó que ficou na História de Portugal conhecida pelo “O Bichinho de Conta”. 
             Isabel Juliana de Sousa Coutinho Monteiro Paim era amiga, desde pequena, de Alexandre de Sousa Holstein com quem sempre brincara na quinta do Calhariz. Com o passar dos tempos, eram mais do que amigos e nunca duvidaram, que seriam, um dia, marido e mulher. Isabel perdera a mãe ainda criança e o pai passava a vida em Paris, gozando a sua viuvez, dado aos prazeres da vida, que aproveitava, na sua condição de embaixador de Portugal em França. 
             Mas na corte do rei D. José I o, então conde de Oeiras, depois marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, sabendo que Isabel Paim era herdeira de uma grande fortuna e de um ainda mais honroso nome de família, que entroncava em Tomás Paim, fidalgo inglês que viera no séquito de D. Filipa de Lencastre, como secretário da futura rainha de Portugal, tratou de combinar o casamento daquela menina de quinze anos com o seu segundo filho, José Francisco, que contava catorze. 
             O pai da noiva, Vicente Paim não viu qualquer inconveniente no casamento e combina-se o enlace. Só que ninguém pensou que Isabel podia ter opinião contrária. Uma menina daquela idade “não tem querer” dizia-se. Obedecia ao pai e mais nada. Mas Isabel opôs-se obstinadamente: «Que nunca casaria com outro que não o seu amigo de infância Alexandre.» 
             Mas o pai e o marquês obrigaram-na a casar. E numa cerimónia que teve de ser íntima, e que foi presidida pelo próprio irmão do futuro marquês de Pombal, em 11 de Abril de 1768, Isabel Juliana vê-se “casada” com um rapaz que detestava, não só por ser filho de quem era, mas porque o seu marido só podia ser o seu Alexandre, que entretanto fora com a mãe viver para o Piemonte (Itália), não fosse Sebastião José de Carvalho e Melo tomar alguma das suas despóticas atitudes. 
             Realmente, o casamento realizou-se mas não se consumou, porque a noiva não permitiu que o noivo lhe tocasse. Aquela menina de cabelos negros aos canudos, de cara magra e nariz fino, tinha um queixo voluntarioso e iria fazer frente ao noivo, ao pai, às tias e ao aterrador conde de Oeiras, que, de início pensou tratar-se de um capricho de uma menina rica, mas que com o passar dos meses percebeu que o assunto era sério.
             Isabel Monteiro Paim mandou fazer um saco com dois lençóis, atados bem junto ao pescoço, onde dormia, para que o noivo nem tivesse a pretensão de tentar tocar-lhe. E por isso o marquês, era motivo de troça do Paço. Furioso, terá mesmo dito, referindo-se àquela que se recusava ser sua nora:«É um bichinho de conta que me quer deter os passos». 
             Passam-se três anos e, o noivo, José Francisco de Carvalho Daum queixa-se ao pai de que o casamento ainda se não consumara, isto é que os noivos ainda não tinham tido intimidades de casal. Era altura de o marquês de Pombal tomar uma atitude drástica. Pediu a anulação do casamento, não sem primeiro mandar a teimosa menina para o convento de Santa Joana, onde a abadessa era a irmã do futuro marquês de Pombal. Como era de esperar a jovem Isabel foi tratada quase como presidiária. 
             A família de Isabel Monteiro Paim não lhe deu qualquer apoio, talvez por que temesse as represálias do marquês de Pombal. Daí não se opôr a que a jovem fosse depois desterrada para o Convento do Calvário, em Évora, onde era absolutamente proibido contactar fosse com quem fosse. Só a grande esperança de que um dia os seus desejos se cumprissem, faziam ter vontade de viver à jovem Isabel Paim. E esse dia chegou. 
             O rei D. José I morreu em 1777 e a rainha D. Maria I demite o ministro de seu pai, o marquês de Pombal. Novos tempos para os que sofreram a oposição de Sebastião José de Carvalho e Melo 
             Como nos contos de fadas, Alexandre ainda solteiro, herdeiro de uma fortuna e de um título (marquês de Isnardi, conde de Sanfrè) corre para junto da sua amada, que ainda vai visitar atrás das grades do convento de Évora. Casam em Julho de 1779. Foi um verdadeiro casamento de amor. Isabel e Alexandre foram os pais de D. Pedro de Sousa Holstein, primeiro duque de Palmela, que nasceu em Turim a 8 de Maio de 1781. 

Informação retirada daqui

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Eugénia María do Montijo de Guzmán


Eugenia María de Montijo de Guzmán, condessa de Teba, imperatriz francesa, nasceu em Granada (Espanha) e viveu com a mãe em Paris. O imperador Napoleão III, fez-lhe a corte e conta-se que um dia numa conversa mais íntima lhe perguntou ao ouvido: "Senhora qual o caminho para chegar aos seus aposentos?" Ela respondeu :"Pela capela, senhor, pela capela". Casaram em 15 de Janeiro de 1853. Eugénia de Montijo era considerada extremamente bonita, tinha uma cor de cabelo com o tom conhecido por "castanho Ticiano". Foi a primeira noiva a ir de vestido branco, o que era completamente novidade. Os vestidos de casamento eram, até à data, verdes, vermelhos, boudeaux e jamais brancos. As noivas atravessaram a Antiguidade, a Idade Média, o Renascimento e só quase no séc. XX alguém teve a iniciativa de se vestir de branco, no dia do casamento. Árbitro de elegância, fez renascer a indústria das sedas de Lyon e lançou ainda o uso de leques, em público. Teve apenas um filho, que morreu tragicamente, aos vinte e três anos. Eugénia de Montijo (pronuncia-se com o "j" espanhol = a "rr") enviuvou em 1873 e morreu em 1920, no exílio.

Informação retirada daqui
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