terça-feira, 4 de julho de 2017

Biografia de Guiomar Vilhena

«Era abastada madeirense que mercê de um secular processo de concentração de morgadios, sucedeu na administração dessas terras vinculadas, revelando-se não só como uma gestora desses bens fundiários, mas sobretudo, como mulher de grande actividade comercial, fazendo concorrência à colónia inglesa que detinha o principal comércio da Ilha, sobretudo relacionado com o vinho» Aproveitou as terras da então desaproveitada Quinta das Angústias mandando restaurar as casas que iam da capela de Santa Catarina até à Quinta da Vigia (hoje sede do governo Regional, até ao mirante que ficou conhecido por «Mirante de Dona Guiomar» já assinalado no séc. XVIII em mapas, pois detinha ancoradouro. A Dona Guiomar se deve a introdução da casta malvasia que se deu particularmente bem naquelas terras. «Era possuidora do último engenho de açúcar ainda existente na Madeira (Ribeira dos Socorridos).» Desenvolveu a economia da Ilha, e soube com coragem e determinação lutar para ultrapassar os preconceitos da sua condição de mulher empresária. «Perdeu, nos negócios, algumas pratas e jóias, vendeu algumas das casas que reconstruíra no Funchal, mas os bens vinculados permaneceram invioláveis e puderam, mais tarde, passar para os herdeiros, um dos quais o conde Carvalhal, não só vendeu a Quinta das Angústias, como também a do Palheiro Ferreiro, hoje em dia morada de ingleses, grandes comerciantes.» (Paulo de Freitas, ex-director da Casa-Museu Frederico de Freitas- Funchal) 

Biografia retirada daqui

domingo, 2 de julho de 2017

Biografia de Infante D. Henrique

n.      4 de março de 1394.
f.       13 de novembro de 1460.

Infante de Portugal, 5.º filho do rei D. João I, e da rainha sua mulher, D. Filipa de Lencastre; grão-mestre da Ordem de Cristo, duque de Viseu, fronteiro-mor de Leiria, cavaleiro da Ordem da Jarreteira, de Inglaterra, senhor da Covilhã, de Lagos e de Sagres, do Algarve, de cujo reino foi governador perpetuo. Nasceu no Porto a 4 de março de 1394, faleceu em Sagres a 13 de novembro de 1460.

Dedicou-se muito ao estudo das Matemáticas, e em especial ao da Cosmografia, quando estas ciências apenas começavam a ser conhecidas na Europa, e que ele fez cultivar em Portugal. Foi devido a esses estudos, ás meditadas informações que alcançou de seu irmão D. Pedro, que viajara na Europa e na Ásia, e à leitura dos escritores antigos, que no seu espírito se formou a certeza de que ao norte do Senegal, então considerado braço do Nilo, existiam povos hereges, que comerciavam entre si. Levar a luz cristã ao espírito desses povos e colher fruto do seu comércio, foi o grandioso plano do infante.

Contava apenas vinte e um anos de idade quando D. João I determinou armá-lo cavaleiro e aos seus dois irmãos D. Duarte e D. Pedro, com as festas publicas de grande solenidade, segundo o costume daqueles tempos. Mas o infante D. Henrique desejava antes receber as armas em verdadeira guerra, para onde o arrastava a sua inclinação e valor. O monarca louvou-o muito, e quando se pensou na tomada de Ceuta, a maior e a mais fortalecida praça de toda a Mauritânia, os três infantes tomaram parte, distinguindo-se na renhida batalha realizada em 21 de Agosto de 1415, sendo e infante D. Henrique quem ainda mais se distinguiu. Foi o comandante da frota do Porto, e o primeiro que saltou em terra. No dia 25 do referido mes de Agosto seu pai o armou cavaleiro da ordem de Cristo. D. João I saiu de Ceuta com a armada em 2 de Setembro seguinte, e pouco dias depois ancorou em Tavira, no meio das jubilosas aclamações do povo. Reunindo ali os seus filhos, declarou querer remunerar-lhes o grande serviço que tinham prestado. Ao príncipe D. Duarte, como herdeiro da Coroa, nada podia oferecer que fosse de maior valor; mas a D. Pedro conferiu-lhe o título de duque de Coimbra, e o senhorio de Montemor-o-Velho, Aveiro e outras terras que daí em diante, por constituírem o apanágio da sua categoria, passaram a denominar-se do Infantado; o infante D. Henrique foi feito duque de Viseu e senhor da Covilhã. O título de duque era então desconhecido em Portugal. Foi a conquista de Ceuta que vem ainda mais fixar os vagos desejos do infante D. Henrique de desvendar os mistérios do oceano. Portugal, efectivamente, formava nessa época, para o ocidente o extremo do mundo conhecido. O mar para o ocidente e para o sul era a região dos profundos misteriosos, povoado de terrores e de visões fantásticas. Foi na expedição de Ceuta, em que ele apenas viu primeiro como seus irmãos o ensejo de praticar brilhantes feitos de armas, e de conquistar dignamente as suas esporas de cavaleiro, que não tardou a achar também estímulo para empresa de maior alcance. Ceuta era um empório do comércio entre a Ásia, a África e a Europa. Além de todas as razões que já tinha para tentar estas novas aventuras, não deixou também de actuar no seu espírito a razão comercial. Como de costume foi o infante D. Pedro o confidente das intenções de seu irmão, e não se esqueceu de auxiliá-las. Em 1416 saiu do reino para viajar, e quando regressou em 1428, trouxe-lhe um tesouro precioso, o livro manuscrito das viagens de Marco Pólo com que o presenteara a senhoria de Veneza. O infante D. Henrique, em 1416 ou 1419, fundou uma vila no promontório de Sagres, para onde foi viver; começou a encarar as ondas do Oceano Atlântico, e a pensar na forma de intentar por elas as suas expedições descobridoras. Chamou do estrangeiro um cosmógrafo celebre, Jaime de Maiorga, e auxiliado por ele, entregou-se com fervor ao estudo. A vila ficou conhecida por Vila do Infante, e actualmente tem o nome de Sagres. D. Henrique estabeleceu ali uma escola de cosmografia e de navegação que foi frequentada pelos cavaleiros da sua casa, e por outros homens que se entusiasmavam pelas suas empresas. Ainda que não tivessem a forma regular dum curso aqueles estudos, contudo a conversação do infante, de Jaime de Maiorga, e de outros homens célebres que se agrupavam em redor do filho de D. João I, seria altamente instrutiva para os cavaleiros que os escutavam, e foram os mesmos que depois guiaram as caravelas de D. Henrique nos seus empreendimentos. Na vila, também o infante estabeleceu estaleiros e oficinas de construção naval, e erigiu o primeiro observatório astronómico que existiu em Portugal. Dentro da povoação havia uma capela dedicada a N. Sr.ª da Conceição, e fora a igreja de Santa Catarina, acima do porto onde desembarcavam os que vinham nos navios, e para que os mareantes que ali morressem, fossem enterrados no cemitério dela.

Estavam pois reunidos todos os, elementos precisos para se levar a efeito a empresa intentada pelo infante. Recursos não lhe faltavam; como grão-mestre da ordem de Cristo, podia aplicar os imensos rendimentos dessa cavalaria religiosa a expedições em que tanto lucrava a propagação da fé cristã. Armado com as informações que obtivera em Ceuta, decidiu-se a mandar todos os anos alguns navios tentar explorações para o sul. Começou então a série de descobrimentos, que deviam levar o pendão das quinas aos confins da terra, e imortalizar a memória do infante D. Henrique. Em 1418 Bartolomeu Perestrelo descobriu a ilha do Porto Santo, cuja capitania lhe foi confiada com permissão de el-rei; e João Gonçalves Zarco acompanhado de Tristão Vaz Teixeira encontrou a Madeira; estas ilhas, contudo, e a dos Açores, está provada já serem conhecidas, tendo sido descobertas no tempo de D. Afonso IV. Quando os navegadores voltaram ao reino trazendo notícias maravilhosas do que tinham visto. D: João I e o infante rejubilaram; este por ter conseguido o fim a que aspirava, aquele pela glória e proveito que destes descobrimentos provinham para o país, ilustrando o seu reinado. D. Henrique, porém, não se limitou a dirigir as navegações, procurou colonizar as ilhas que se iam descobrindo. A Madeira, principalmente, mereceu-Ihe os maiores desvelos. Anos depois, em 1432, Gonçalo Velho Cabral, comendador de Almurol, encontrou as ilhas dos Açores. No entretanto, não eram as ilhas do Atlântico que cativavam os cuidados do infante; o que mais o preocupava era esse mar tenebroso, que os mareantes da Idade Média julgavam impossível de transpor. Passar além do cabo Bojador, julgava-se impossível. Vinte tentativas se haviam feito para dobrar o cabo, mas os navegantes sempre recuavam por terror supersticioso. Finalmente, D. Henrique armou uma barcha, cuja capitania confiou a Gil Eanes, seu escudeiro, que partiu cm 1433 cheio de terror, e voltou sem nada ter adiantado. Aportando às Canárias, retrocedeu com uns cativos, convencido de que ir além, era empresa que Deus puniria com severidade. Instado pelo infante, tornou a embarcar em 1434, e vencendo o terror, teve a fortuna de dobrar o cabo fatídico. (V. Eanes, Gil). Este facto ficou registado como a data mais memorável da história das nossas descobertas. As navegações continuaram, recomendando sempre o infante aos navegantes nas suas instruções, que estudassem minuciosamente as costas que percorriam, colhessem o maior número possível de informações, e sobretudo não deixassem de procurar saber onde vivia o famoso Prestes João das Índias. Em 1436 Afonso Gonçalves Baldaia, copeiro de D. Henrique, percorrendo a costa ao sul do Bojador, descobriu o Rio do Ouro, e desembocando na Angra dos Cavalos, continuou navegando para o sul, e chegou à Pedra da Galé. Distraiu-o desta ocupação, que foi a sua glória, a infeliz empresa de Tânger, em que ele foi com seu irmão, o infante D. Fernando, que por ser ainda muito criança não pudera acompanhar el-rei seu pai e seus irmãos na tomada de Ceuta. Obtida a licença de el-rei D. Duarte, partiram ambos os irmãos a 22 de Agosto de 1437 para Tânger, com uma esquadra e um exército bem pouco proporcionado à grandeza da empresa que iam tentar. Foi uma fatalidade, de que resultou o cativeiro e morte do infante D. Fernando, que ficou conhecido pelo cognome de infante santo (V. Fernando, D.) Regressando a Portugal, por ordem do monarca seu irmão, D. Henrique continuou com os descobrimentos. Em 1441 Nuno Tristão descobriu o Cabo Branco, em 1443 a ilha de Arguim, onde se estabeleceu uma feitoria, e em 1445 visitou a costa da Senegâmbia, chegando até Palmar. A seguir, Diniz Dias dobra o Cabo Verde; João Fernandes, em 1445, que sendo cativo em Mauritânia, aprendera o árabe, penetra no interior do Sudão e chega ao país dos Tuaregues, sendo o primeiro europeu que explorou o interior do continente negro até Taguor; no ano seguinte, 1446, Álvaro Fernandes descobre a Serra Leoa, e reconhece a ilha de Gorea; em 1457 o veneziano Luís de Cadamosto e o genovês António Nola, ambos ao serviço do infante, descobriram a Gambia; em 1460 Diogo Gomes descobriu o arquipélago de Cabo Verde, que Cadamosto pretendia haver descoberto, e que mais tarde se provou não ser verdade, pela relação do próprio Diogo Gomes publicada em 1847 pelo Dr. Schmelles, de Munique.

A fama de D. Henrique chegara às nações estrangeiras e muitos homens ávidos de aventuras, vinham pedir-lhe emprego nas suas caravelas. Devotado apaixonadamente às ciências cosmográficas, D. Henrique foi o maior matemático do seu tempo; aplicou utilmente o astrolábio à navegação, e inventou as cartas planas. Quando se reformou a Universidade, em 1431, estando em Lisboa, fez-lhe doação por escritura da 12 de Outubro, dumas casas que comprara na freguesia de S. Tomé, para nelas se lerem as ciências que eram então aprovadas, e teve o cuidado de distribuir ordenadamente as diversas salas para os diversos exercícios escolares. Em 25 de Março de 1448 fez mercê à mesma Universidade de 12 marcos de prata, anuais, e consignados nos dízimos da ilha da Madeira, para salário da cadeira de prima de teologia. Esta mercê foi confirmada por carta de 12 de Setembro de 1460, pelo que se lhe deu o título de Protector dos Estudos em Portugal. O infante D. Henrique deixou um nome glorioso, e à, sua pátria uma herança sublime. Foi o vulto mais brilhante da história da Idade Média, o homem que deve simbolizar para a história a glória dos descobrimentos.

Apesar de não ter nunca sulcado as ondas do Oceano; senão para as suas expedições de conquista africana, teve o cognome de Navegador, e na verdade bem merecido, porque a ele se deve o primeiro impulso e o grande incitamento das grandes navegações, que tanto contribuíram para o progresso da civilização, que ampliaram tanto o conhecimento do mundo. Faleceu em Sagres, conforme dissemos, no estado de solteiro. Seu corpo foi primeiramente depositado na igreja de Lagos, sendo dali trasladado para o convento da Batalha em 1461, pelo infante D. Fernando, seu sobrinho, filho de el-rei Duarte, a quem pouco tempo antes havia constituído herdeiro e adoptara como filho. D. Fernando veio a casar com sua prima D. Beatriz, filha do infante D. João, e foi o pai de D. Diogo, duque de Viseu, e de D. Manuel, duque de Beja, e rei de Portugal (V. Beja, duques de). Sobre o túmulo vê-se a sua estátua de pedra, que em relevo o representa ao natural, vestido de armas brancas. e coroado de coroa real entretecida de folhas de carvalho, e uma rosa no meio; tem nela três escudos: o primeiro com as armas do reino de Portugal e as suas, e nos outros dois as insígnias das duas ordens que professara, de Cristo e da Jarreteira. Foram sua divisa uns ramos pequenos, e curtos como de carrasco com seus frutos pendentes, e por mote em língua francesa as palavras: Talent de bien faire. Esta divisa também se vê no túmulo, tendo por baixo numa só linha, em todo o comprimento do túmulo, um epitáfio em letra alemã. El-rei D. Manuel lhe mandou colocar também seu retrato na estátua de mármore sobre a coluna, que divide a porta travessa da igreja de Belém, como fundador da antiga ermida de Nossa Senhora do Restelo, que existiu primeiro naquele local.

Para perpetuar a memória do infante D. Henrique, erigiu-se em Sagres um monumento modesto. A portaria tem a data de 8 de Abril de 1836, reinando D. Maria II, e é referendada pelo então ministro do reino, marquês de Sá da Bandeira. O escultor do monumento foi Manuel Simões. Consta duma lápide de mármore com 10 palmos e meio de altura e 5 e meio de largura, embutida na parede sobre a porta interior da entrada principal da fortaleza de Sagres. Este corpo é dividido em dois planos, tendo o superior. em meio relevo, o escudo das armas do infante com a legenda Talent de bien faire e uma esfera armilar à direita e um navio à vela, à esquerda. O plano inferior compreende duas almofadas, na do lado esquerdo com uma inscrição latina e na do direito com a versão em português. Esta lápide foi lavrada no arsenal da marinha, levando o fabrico mais de três anos. O encarregado de a levar a Sagres, foi o capitão-de-mar-e-guerra Lourenço Germach Possolo. A colocação do monumento realizou-se solenemente a 21 de Julho de 1840, assistindo a câmara municipal, o capelão e a oficialidade de guarnição, o governador da praça, e outras pessoas. Em 1844, o abade titular de Santa Eulália de Rio de Moinhos, António Dâmaso de Castro e Sousa, mais conhecido pelo abade de Castro, requereu ao governo para ser colocada uma estátua do infante D. Henrique na sala do risco do arsenal de marinha, e sendo nomeada uma comissão para estudar o assunto, decidiu ela que a estátua devia ser levantada de Belém. Afinal nada se fez, até que, na sessão da Sociedade de Instrução no Porto, realizada em 4 de Março de 1882, houve uma proposta para que se erigisse uma estátua ao grande navegador. Depois de muitos trabalhos e contrariedades, constituiu-se em 1892 uma grande comissão que dedicadamente trabalhou, celebrando-se no Porto, sua terra natal, o centenário do infante D. Henrique com toda a solenidade e brilhantismo. Efectuaram-se as festas nos dias 1, 2, 3 e 4 de Março de 1894, sendo os dias 3 e 4 considerados de grande gala, por decreto de 28 de Fevereiro de 1894. No dia 4 foi solenemente assente a primeira pedra no momento, na praça do Infante D. Henrique, assistindo a esta cerimónia suas majestades el-rei senhor D. Carlos e a rainha senhora D. Amélia, representantes do governo, autoridades, etc. O monumento é obra do escultor Tomás Costa, e inaugurou-se, também com a assistência da família real, em31 de Outubro de 1900.

Publicou-se no Porto em 1894 um livro, O centenário do infante D. Henrique, comemorativo do centenário henriquino, profusamente ilustrado, com muitos artigos e notícias curiosas. Em Londres, no ano de 1868, publicou-se uma grandiosa obra intitulada: The life of Prince Henry of Portugal, surnamed the navigator, de que é autor Richard Henry Major. No Archivo Pittoresco, vol. IX vem a biografia do infante D. Henrique, escrita por Luís Augusto Rebelo da Silva. Também se encontram artigos no Summario de varia historia, do Dr. José Ribeiro Guimarães, vol. IV, pág. 50; nos Varões e Donas; Occidente de 1894, número dedicado ao centenário henriquino, etc.

Biografia retirada daqui

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Biografia de Arthur Wellesley, duque de Wellington

n.      30 de abril de 1764.
f.       14 de setembro de 1852.

Célebre general e político inglês, que incluímos neste nosso trabalho, pela grande parte que tomou na guerra Peninsular, relativamente a Portugal

Nasceu em Dublin a 30 de abril de 1764, e faleceu em Walmer Castle, a 14 de setembro de 1852.

O nome de Wellington tornou-se notável, pela bravura com que entrou em batalhas, comandando aguerridas forças em defesa do seu país, e precedido da mais gloriosa fama é que veia a Portugal, durante a campanha Peninsular e lhe prestou valiosos serviços. Foi o comandante de uma expedição que se reuniu em Cork e que foi mandada operar na Península. Na tarde de 9 de abril de 1809 o embarque das tropas estava terminado: A 12 a esquadra levantou ferro; e tendo o dia 10 chegado ás alturas da Corunha, o seu comandante demorou-se a conferenciar por um pouco com as autoridades da Galiza, dirigindo-se depois ao Porto, onde se decidiu que o desembarque se efectuasse junto à foz do Mondego, o que fez com toda a felicidade no dia 1 a 5 de agosto. Ao saber que um exercito inglês havia desembarcado em Portugal, Junot, comandante das tropas francesas que ocupavam este país, determinou opor-se ao progresso da invasão, para o que saiu o general Laborde de Lisboa, e Loison de Estremoz, afim de se reunirem em Leiria, ficando o general em chefe em Lisboa para reprimir qualquer movimento insurreccional, se por ventura se desse. Wellesley, avançando imediatamente depois do seu desembarque, não permitiu que se efectuasse esta reunião, e Laborde teve de recuar da Batalha para a Roliça, sendo nos arredores desta pequena povoação, que teve lugar o primeiro encontro entre os conquistadores da Europa, e aqueles que estavam destinados para os vencer; e aí começou verdadeiramente essa célebre guerra peninsular, de tão gloriosa nomeada na história do país, e em que tanto se distinguiram as tropas aliadas, que nela tomaram parte. A batalha da Roliça, posto que não tivesse tão grande desenvolvimento como outras muitas que depois se lhe seguiram, é com tudo uma daquelas, de que os veteranos peninsulares se recordavam com mais orgulho, e passa historia militar por um modelo do género; com efeito nada há tão bem disposto como aquele ataque de Wellington, e aquela resistência e retirada de Laborde. A falta de cavalaria no exército aliado foi causa de que a vitória não fosse tão completa como podia ser, efectuando o inimigo a retirada em boa ordem. A sua perda contudo foi considerável deixando em nosso poder grande número de prisioneiros e três peças de artilharia. Tendo, ao outro dia da acção, chegado de Inglaterra uma brigada de reforço, e outra no dia 20, Wellesley resolveu avançar para Mafra, flanqueando a posição dos franceses em Torres Vedras; infelizmente sir Harry Burrard, assumindo o comando em chefe do exército, paralisou este movimento, e não houve razões que o fizessem mudar de tão funesta resolução. Junot, sendo informado da derrota de Laborde, saiu a toda a pressa de Lisboa para assumir o comando, tinha precisão de combater imediatamente; qualquer demora equivalia a uma derrota, porque os viveres faltavam-lhe, e esperava a cada momento a notícia de que Lisboa se havia revoltado; andando pois toda uma noite e forçando a marcha, na madrugada do dia 21 de agosto fez alto a distancia de uma légua dos piquetes ingleses. A força dos dois exércitos era aproximadamente igual, porque, se os aliados eram um pouco superiores em infantaria, os franceses excediam-nos em cavalaria, sendo ambos quase iguais em artilharia. Junot fez imediatamente as suas disposições para o ataque, e ás 10 horas da manhã deste mesmo dia 21 começou a acção de Vimeiro. O inimigo foi avistado em grandes massas de cavalaria sobre a estrada da Lourinhã, e era evidente que o ataque principal seria contra as alturas, que ficam nesta estrada; e que formavam parte da esquerda, dos aliados; com efeito, este se efectuou com aquela impetuosidade, que caracteriza as tropas francesas, e sendo apoiado com grande parte da sua cavalaria, arma em que como dissemos, era superior aos aliados; mas coisa alguma pode exceder o valor e denodo, com que foi repelido pelas nossas tropas, carregando em linha, à baioneta. Quase ao mesmo tempo procurou atacar as alturas do centro, onde a sorte lhes foi igualmente adversa; graças ao valor das tropas, e ás sabias disposições tomadas por Wellington, que por uma circunstância feliz, nesse dia comandava em chefe. As tropas portuguesas foram colocadas na primeira linha, a pardas inglesas, e rivalizaram com elas em perícia e coragem, como o próprio general o confessou. Nesta acção, em que se empenharam quase todas as tropas francesas em Portugal, e comandadas pelo duque de Abrantes em pessoa, apenas tomou parte a metade das forças aliadas, e ainda assim foram aquelas inteiramente derrotadas, perdendo 13 peças de artilharia, 23 carros de munições e apetrechos de guerra, um oficial general ferido e prisioneiro (Brenier), e um grande numero de oficiais e soldados, mortos, feridos e prisioneiros. Mas como da batalha da Roliça se não puderam tirar as consequências, que eram de esperar, pela intempestiva chegada de sir Harry, assim também a de Vimeiro não apresentou os resultados que podia dar, devido também à intromissão não menos nociva de outro superior imbecil, sir Hew Dalrymple; este, em lugar de progredir em seus sucessos, e obrigar o exército inimigo a render-se à discrição, começou logo a entabular essas negociações, que deram em resultado a chamada convenção de Cintra. Este tratado, que o vencedor da Roliça e Vimeiro absolutamente desaprovou, o desgostou a ponto que o levou a dar, a sua demissão e voltar para Inglaterra. Aí tendo recebido os agradecimentos de ambas as câmaras pelo seu comportamento em Portugal, marchou para a Irlanda onde reassumiu o seu lugar de primeiro secretário. (V. Roliça e Vimeiro).

Em consequência dos acontecimentos que se deram por esta época, a Inglaterra desgostou-se um tanto do sistema de fazer a guerra no continente; mas tendo-se interrompido novamente as relações entre a Áustria e a França, e seguindo-se a guerra entre estas duas potências, o gabinete inglês inclinava-se um tanto a repetir os seus primeiros ensaios; para o que lord Castlereagh consultou Wellesley que foi absolutamente desta opinião, enviando-lhe uma memória para a defesa de Portugal e sistema a seguir nela. Aprovado o seu projecto, foi-lhe conferida a nomeação de comandante em chefe e nesta qualidade aportou ao Tejo em 22 de abril de 1809. Os dois exércitos mais principais que tinha a combater, chegando à península eram, ao norte, o que comandava o duque da Dalmácia, e ao sul, o que obedecia ás ordens de Victor, prevendo com o seu habitual talento que estes dois exércitos estavam bastante afastados para poderem prestar-se auxilio recíproco, resolveu atacar primeiro o que estava ao norte e depois voltar rapidamente ao Tejo, para ir com o auxilio do general Cuesta combater o de Victor. Em virtude deste projecto marchou para o Douro com a maior presteza, e chegou a Vila Nova de Gaia sem a mais pequena oposição do inimigo; mas encontrou ante si um obstáculo quase invencível, que era o próprio rio, para cuja passagem não havia meios de qualidade alguma. Das alturas de Vila Nova de Gaia Wellesley descobria já as bagagens de Soult, que desfilavam, pela estrada de Valongo; era evidente que o inimigo se retirava; podendo ainda lançar-se na Beira, destruir o corpo isolado do comando de Beresford, ou seguir directamente para a Galiza, Wellesley daquele mesmo ponto reconheceu quanto importante lhe seria ocupar na margem direita do Douro o edifício do Seminário, suficientemente forte para apoiar uma pequena força, que passasse primeiro, e podendo depois, quando reforçada, marchar directamente sobre a linha de retirada do inimigo com a qual o dito edifício comunicava. Segundo vários historiadores ingleses, deve-se a uma circunstância muito particular o ter podido vencer-se o obstáculo principal, que a isso se opunha, e que era o rio Douro, como dissemos. Um barbeiro, do Porto, tendo iludido a vigilância das sentinelas francesas, atravessou para a margem esquerda num pequeno bote, onde o coronel Waters o encontrou conversando com o prior de Amarante: prestando-se este último a auxiliar a empresa, os três passaram novamente à outra margem, donde voltaram em menos de meia hora com alguns barcos maiores. O inimigo só teve conhecimento destes movimentos depois que um batalhão efectuou o seu desembarque, e tomou posição debaixo das ordens do tenente general Paget; este primeiro corpo, em breve reforçado por uma brigada inglesa e um batalhão português, foi carregado pelo próprio general Soult e quase todas as suas forças de infantaria, cavalaria e artilharia; mas resistindo esses. denodadamente, e tendo aparecido no flanco esquerdo do inimigo a brigada inglesa, que havia passado em Avintes, e no direito as que o haviam feito abaixo de Vila Nova de Gaia, Soult, resolveu-se a retirar, deixando em nosso poder algumas peças de artilharia, muitas munições, e vários prisioneiros. Segue se a batalha de Talavera de la Reina, em que as tropas espanholas do general Cuesta cooperaram com o exército anglo-português e que, mais do que uma acção geral, foi uma série de combates horríveis. Ao cabo de dois dias de carnificina os franceses abandonaram o campo, supondo se que as suas perdas não seriam inferiores a 10.000 homens, e que as dos aliados excederam a 5.000. Mas circunstâncias particulares fizeram ainda com que da batalha e vitória de Talavera se não tirassem as consequências que eram de esperar. Para impedir que progredissem as doenças que começavam a grassar no exercito por causa das proximidades do Guadiana, e também para poder conseguir as provisões de boca que as autoridades espanholas não cuidavam em fornecer-lhe, Wellesley viu-se obrigado a retirar para a, fronteira de Portugal, indo acampar em Badajoz.

Entretanto, fora da península, Napoleão triunfava em toda a linha; as suas armas saíam vitoriosas de combates sucessivos, e o seu casamento com uma filha da casa de Áustria, prometendo-lhe uma paz duradoura no continente, dar-lhe-ia ensejo de concentrar na península hispânica toda a sua atenção e toda a sua força. Assim, a situação do exército anglo-português nada tinha de invejável, porque estava na contingência de ser aniquilado a breve prazo, e os combatentes, que não tinham ilusões a tal respeito, possuíam-se do mais profundo desânimo. Mas Wellesley via tudo, ponderava tudo, e em meados de Outubro partia para Lisboa a assegurar-lhe a defesa e a proceder ao levantamento dessas famosas linhas de Torres Vedras, Que com tão alto renome ficaram na história da guerra peninsular. Entretanto, supunha-se que os ingleses iam fazer-se ao mar; e que Portugal e Espanha ficariam à mercê de, Napoleão.

A Soult seguiu-se Massena que em 21 de junho tomou o comando do exercito francês, chamado o grande exercito de Portugal, e com ele invadiu o país, sendo esta a terceira invasão que se deu. Depois do cerco de Almeida, celebre pela explosão do castelo, que obrigou a uma capitulação (V. Almeida), Massena avançou por Viseu, e Wellesley retirou-se pela margem esquerda do Mondego, mas conhecendo-se evidentemente que o desígnio daquele era marchar sobre Lisboa, Wellesley resolveu esperá-lo, e, tomando posição no Buçaco, A 27 de setembro, Massena atacou o exercito aliado. Deu-se então a grande batalha, tão desastrosa para o exercito invasor, e na qual tanto Wellesley como as tropas do seu comando foram duma coragem admirável, ficara de o solo juncado de mortos e de feridos. (V. Buçaco, Batalha do). Depois o exercito aliado retirou-se para dentro das linhas de Torres Vedras, e então realizou se o que Wellesley, havia previsto. Massena, conservando-se seis semanas dentro delas, recuou ante o inexpugnável das posições, e perdendo pela fome e pelas doenças uma grande parte do seu exército, teve de atravessar novamente a fronteira, abandonando Portugal, onde apenas deixou guarnição em Almeida. Wellesley propôs-se então a fazer os sítios, tanto desta ultima praça como de Badajoz; mas os franceses ligando grande importância à sua posse; para nelas, estabelecerem a base para uma nova invasão, Massena acudiu a socorrê-las, saindo de Salamanca com um grande e luzido exercito. As forças aliadas eram inferiores quase um terço ás do comando de Massena, mas Wellesley ligava tanta importância ao bloqueio de Almeida, que preferiu arriscar o combate com esta desproporção numérica, a ter de o abandonar. Deu-se então a batalha, que tomou o nome de Fuentes de Oñor, da pequena aldeia, em que se apoiava a direita dos aliados. A batalha durou dois dias, em que o valor dos adversários foi inexcedível, batendo-se o exercito anglo-português com a fina flor das tropas francesas, sustentando se combates tremeu, dos à ponta de baioneta, disputando-se o terreno palmo a palmo: sob um furacão de fuzilaria; sem, que os famosos couraceiros de Montbrun, triunfantes em Wagram, com os soldados de Ney, vencedores dos russos em Friedland, conseguissem esmagar os seus contendores, antes tendo; por fim, de ceder-lhes o campo já quando alagado de sangue e coberto de cadáveres. Vendo que era impossível obter, um triunfo decisivo, Massena contentou-se em permanecer mais um dia em frente das nossas posições; retirando no outro pela estrada de Cidade Rodrigo.

À batalha de Fuentes de Oñor, seguiu-se o sítio de Badajoz interrompido pelo exército de Soult, o que deu lugar à sanguinolenta batalha de Albuera, em que os aliados, não obstante ganharem a vitória, tiveram ainda assim quase 2 terços do seu exército postos fora do combate: O sítio, novamente começado, pelos aliados, foi, ainda outra vez interrompido, porque o exército francês avançava, em força. Para o esperar, Wellesley tomou posição no Caia; e muito tempo esperou uma batalha geral; mas passando quase um mês, os franceses retiraram, marchando para o Norte os do comando de Marmont, e para Sevilha os que obedeciam a Soult, e Wellesley deixando Hill no Alentejo em observação a Gerard, mudou o seu quartel general para Portalegre, e logo depois para Fuentes Grinaldo. Em janeiro de 1810 tomou Wellesley aos franceses a praça de Cidade Rodrigo, após um cerco que durou onze ou doze dias; e que acabou por um renhido combate, e depois tomou-lhes Badajoz, após um cerco de vinte dias de trincheira aberta e um sangrento combate; em que as tropas anglo-lusas fizeram prodígios de valor. A 13 de junho, lorde Wellington atravessou o Águeda, e a 17 entrou em Salamanca, onde foi esplendidamente recebido. Continuou, porém, as suas operações, porque os franceses tinham retrocedido e estavam à vista, comandados por Marmont, e a sua força era considerável. Dias depois travou-se a famosa batalha de Salamanca, que se prolongou pela noite adiante e que serviu para Wellington pôr mais uma vez em relevo os seus, grandes dotes militares, mostrando-se em tudo digno da alta reputação que o seu nome tinha criado. Os dois generais inimigos rivalizaram em valentia, mas os franceses perderam por fim a acção e a batalha de Salamanca como que abriu aos aliados as portas de Madrid, posto que, para lá entrarem, tiveram ainda de travar alguns renhidos combates. De Madrid, avançou Wellington para Burgos, a cujo castelo pôs cerco; não pôde, porém, continuá-lo, por lhe faltarem os meios próprios, e sobretudo a artilharia de sítio, tendo de abandoná-lo ao cabo de trinta dias em que de parte a parte houve os maiores rasgos de valor e de coragem. O exército anglo-luso empreendeu então a sua retirada, que efectuou da maneira mais brilhante, retrocedendo para as alturas de S. Cristóvão, em Salamanca. Ambos os exércitos combatentes precisavam descansar. De parte a parte se haviam sofrido perdas enormes calculando se que só em doze dias tinham sido postos fora do combate 20.000 homens, e Wellington aproveitou o ensejo para fazer importantes reformas que o habilitassem a apresentar-se novamente em campo com todas as probabilidades de um bom êxito.

Organizado mais convenientemente o seu exército, em abril de 1813 estava já em condições de recomeçar a guerra; e tanto que a 13 daquele mesmo mês iniciou a sua última e mais importante campanha da península. Àquela data, os franceses ocupavam com forças consideráveis a margem direito do Douro, na qual tinham levantado importantes obras de defesa. Wellington julgou de melhor aviso torneá-las do que atacá-las de frente, e por uma hábil combinação que fez com as tropas espanholas da Galiza passou ao norte do rio, tomando assim de revés as posições inimigas e atacando-lhes o flanco direito, ataque tanto mais perigoso para os franceses quanto mais espalhados estavam, e por concentrarem. Assim, 70.000 ingleses e portugueses, espanhóis da Extremadura e 12.000 da Galiza, ao todo 90.000 combatentes, marcharam contra as massas inimigas disseminadas, que tiveram de retirar sucessivamente. Seguiu-se se uma série de combates mais ou menos importantes, até que o exército de José Bonaparte, já em plena retirada, tomou posição em frente de Vitoria. O terreno foi escolhido pelo marechal Jourdan, e era na realidade excelente campo de batalha, tendo apenas o defeito de ser grande de mais. Wellington tinha sobre o seu adversário a superioridade numérica, e este a da melhor composição do seu exército, que era mais forte em cavalaria e artilharia. A batalha de Vitoria (V. este nome) foi uma das mais importantes da Guerra Peninsular, porque dela resultou a desorganização total dos exércitos franceses que estavam reunidos, a perda da sua artilharia, bagagens, caixa militar, toda a correspondência e mais papéis do ex-rei José, e várias bandeiras. Entre os despojos da batalha de Vitoria, o duque de Wellington mandou para Inglaterra o bastão do marechal Jourdan, e em troca dele o príncipe regente lhe mandou o bastão de marechal de Inglaterra, ao qual se seguiu a nomeação de coronel do 1.º regimento das guardas depois da batalha dos Pirenéus. A praça de S. Sebastião da Biscaia foi tomada de assalto a 31 de agosto; o castelo capitulou a 10 de setembro, e a 7 de outubro o exército anglo-luso atravessou o Bidassoa. Em 1814 seguiu-se um armistício geral, a paz foi definitivamente estabelecida, e lord Wellington, que tinha sido um dos heróis da campanha, partiu para Paris na qualidade de embaixador. A 10 de junho desse ano voltou ao seu quartel-general a Bordéus, e ali se despediu do valente exercito peninsular que tinha sido seu companheiro de fadigas, de perigos e de glórias: A sua recepção em Inglaterra foi um verdadeiro triunfo. A 28 de junho, na sua qualidade de duque, tomou assento na câmara alta. O grande general entrou então na política, foi várias vezes ministro, gozando da maior consideração, chanceler da Universidade de Oxford, etc.

Biografia retirada daqui

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Biografia de Henry Torrens

n: 1779
m: 1828

Oficial em 1793, serviu nas Antilhas, participando na captura das ilhas de Santa Lúcia e São Vicente em 1796. Esteve em Portugal em 1798 e participou na campanha da Holanda em 1799, onde foi ferido. Em 1800 e 1801 esteve com o seu regimento no Canadá, tendo mais tarde ido para a Indía, onde participou na guerra contra os Maratas. Em 1807, paricipou na expedição de Buenos Aires, e em 1808 foi nomeado Secretário Militar de Wellington na expedição à Península Ibérica. Em 1809 foi nomeado Secretário Militar do Comandante-em-Chefe do Exército Britânico, e em 1812 foi escolhido para Ajudante-de-Campo do Príncipe Regente inglês. Promovido a Major-General em 1814, foi nobilitado no ano seguinte. Em 1820 foi nomeado Ajudante-general do Exército. 

Fonte:
David Chandler,
Dictionary of the Napoleonic Wars, 
Londres, Arms & Armour Press, 1979. 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Biografia de Charles-Joseph-Hyacinthe du Houx, Conde e Marquês de Vioménil

n: em 22 de Agosto de 1734, no castelo de Ruppes, nos Vosges (França)
m: em  5 de Março de 1827 em Paris.

Alistou-se no exército francês em 1747, servindo no Regimento de Infantaria do Limousin, a tempo de participar na Guerra da Sucessão da Áustria (1742-1748). Esteve presente na batalha de Lawfeld nesse mesmo ano, vitória do exército francês do marechal de Saxe sobre o exército aliado, austro-britânico, do duque de Cumberland, e no cerco e conquista de Bergen op Zoom no ano seguinte. Durante a Guerra dos Sete Anos (1757-1763) participou ao lado do general François du Chevert (1695-1769), enquanto seu ajudante de campo, nas campanhas de 1757 e 1758 na Alemanha. Em 1768 foi enviado para a Córsega, no comando de uma brigada de infantaria, aquando da tomada de posse da ilha, comprada pela França à República de Génova. Regressando a França em 1769 foi promovido ao posto de brigadeiro em 1770. A partir 1780, com o posto de marechal de campo e enquanto comandante da artilharia, participou na Guerra da Independência dos Estados Unidos, acompanhando o irmão, o barão de Vioménil Antoine Charles de Houx (1728-1792), que tinha sido nomeado 2.º comandante das forças francesas enviadas para a América sob o comando do conde de Rochambeau. A sua acção na captura de Yorktown, que terminou de facto a guerra da independência, valeu-lhe uma pensão de 5.000 francos dada pelo rei. Regressado a França com a força expedicionária em 1783, foi nomeado em Fevereiro de 1789 governador da Martinica, uma pequena ilha produtora de açúcar nas Antilhas. Em fins de 1790 foi mandado regressar a França, devido à sua violenta repressão de levantamentos revolucionários.

Emigrou em 1791, o ano da «emigração militar», e fez as campanhas de 1792 e 1793 no Exército de Condé, uma pequena força militar formada pelos emigrados franceses na Alemanha. Em Agosto 1794 organizou um regimento para serviço da Grã-Bretanha, com a sua denominação, mas o regimento não conseguiu recrutar mais do que 266 homens e em Outubro de 1795 foi licenciado. Regressado ao Exército de Condé, ou dos Príncipes, recebeu o comando de uma brigada de cavalaria em 1796. Em 1798, já ao serviço da Rússia, governada pelo czar Paulo I, é promovido a tenente general e a general de cavalaria sendo nomeado comandante do exército russo na Samogitia, a região ocidental da Lituânia, anexada pela Rússia em 1795, devido à terceira partilha da Polónia. Mais tarde, foi nomeado comandante das tropas russas a enviar para a Itália, e que finalmente serão comandadas pelo marechal Souvorov. Em seguida, é enviado com 17.000 soldados russos para as ilhas inglesas de Jersey e Guernsey. Quando estas tropas regressaram à Rússia, Vioménil não as seguiu e veio a Portugal. Tendo regressado à Grã-Bretanha foi chamado de volta em Setembro de 1801, por solicitação de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, porque o governo já nessa altura tinha sérias dúvidas sobre as capacidade de comando do marechal do Exército conde de Goltz. 

Foi nomeado Marechal do Exército em 2 de Novembro de 1801, sendo acompanhado por um pequeno grupo de oficiais emigrados, admitidos ao serviço dois dias depois. Participou no Conselho Militar nomeado em 1 de Dezembro seguinte, para preparar as reformas necessárias ao exército, apoiando as propostas do general Forbes, sobretudo a que propunha a criação de um colégio para educação dos futuros oficiais de artilharia e engenharia - o futuro Colégio Militar. Voltou à Grã-Bretanha rapidamente, por motivo da exigência do embaixador francês em Lisboa, o general, e futuro marechal do Império, Lannes que exigiu em 1802 que ele fosse preso, com todo o seu estado-maior. Em Junho de 1802 já se encontrava ausente, de licença primeiro e com autorização depois.

Acompanhou Luís XVIII aquando da Restauração, tendo sido promovido a tenente general do exército francês e nomeado Par do Reino em 4 de Junho de 1814. Acompanhou o rei quando este foi para Gand, durante o governo napoleónico dos Cem Dias. Novamente em França, com a 2.ª Restauração, foi nomeado comandante da divisão militar sedeada em Bordéus, tendo sido transferido para a divisão militar da Bretanha em 1816. Promovido a Marechal de França em 3 de Julho desse mesmo ano, recebeu o título de Marquês em Agosto de 1817 sendo feito cavaleiro da Ordem do Santo Espírito em 1820.

Biografia retirada daqui

sábado, 24 de junho de 2017

Biografia de Charles Vincent

n: 21 de Março de 1753 em Bourg-en-Bresse (França)
m: 1831

Oficial de Engenharia em 1773, estuda na Escola de Mezières, com o posto de 2º tenente. Exerce a sua actividade na Ilha de São Domingos de 1786 a 1801, sendo tenente-coronel em 1796. Em 1802 é nomeado director de fortificações no Exército de Itália.
Em 1807, já Coronel, e em comissão de serviço em Baiona, é nomeado Comandante da Engenharia do 1º Corpo de Observação da Gironda. Com o regresso a França, é enviado para a Toscânia como Director da sua arma. Em 1814 é nomeado Marechal de campo honorário e oficial da Legião de Honra, antes de ser reformado.

Fonte:
António Pedro Vicente,
Le Génie Français au Portugal sous l'Empire, 
Lisboa, Serviço Histórico Militar, 1984. 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Augustin-Gabriel, comte d'Aboville

Barão do Império francês
n: 20 de Março de 1773, La Fère (França)
m: 15 de Agosto de 1820, em Paris (França)

Filho mais velho do conde François-Marie d'Aboville, inspector-geral da artilharia e senador, entra na escola de artilharia de  Châlons em 1789. Serve na Bélgica e no Reno, sendo tenente coronel e sub-director da artilharia em Moguncia, na Alemanha, no começo do Consulado. Em finais de 1800 é  nomeado director geral dos parques do Exército de Itália, ocupando diversas funções de direcção na  artilharia, em Paris (1800), na Holanda (1804) e de novo em Itália. 
Em 1807 é nomeado director do parque de artilharia do Corpo da Gironda e mais tarde do Exército de Espanha. General de brigada em 1809 e barão do Império em 1812 foi nomeado director dos parques do Exército de Espanha e do de Portugal em Janeiro de 1813, perdendo a quase totalidade dos seus canhões no fim da batalha de Vitória, em Junho. Dirigiu a artilharia do Exército do Norte, durante os Cem Dias.

Apoia o regresso de Luís XVIII substituindo o pai que tinha votado a demissão de Napoleão em 1814, e tinha falecido em finais de 1817, na Câmara dos Pares.

Biografia retirada de Arqnet

terça-feira, 20 de junho de 2017

Biografia de Dom João Carlos de Bragança

2.º Duque de Lafões, 4.º Marquês de Arronches, 8.º Conde de Miranda
n:  6 de Março de 1719 (Portugal)
m: 10 de Novembro de 1806 (Portugal)

Filho de D. Miguel de Bragança, filho legitimado de D. Pedro II e de D. Ana Armanda de Vergé, aristocrata francesa vinda para Portugal com a rainha D. Maria Sofia de Neuburgo, era primo de D. José, sendo cinco anos mais novo do que o rei.

Estudou Humanidades e Filosofia, tendo ingressado na Universidade de Coimbra para cursar Direito Canónico, porque o rei D. João V, seu tio, o destinava à carreira eclesiástica. Devido às dúvidas levantadas pelo reitor sobre o protocolo a seguir para examinar um sobrinho do Rei, D. João mandou-o regressar a Lisboa sem se despedir de ninguém, ao mesmo tempo que escrevia ao reitor a repreendê-lo.

Saiu de Portugal em Maio de 1757, dirigindo-se para Londres e depois, em Janeiro de 1758, para Viena. Por isso, não saiu de Portugal devido à morte do irmão mais velho, o 1.º duque, o que aconteceria só em 1761, e ao facto de não ter sido renovado em si o título do irmão, como afirmou Mendes Leal no seu Elogio Histórico, e sempre repetida, mesmo no Dicionário de História de Portugal publicado nos anos 60 do século XX, afirmação baseada numa erro cronológico que António Ferrão já tinha revisto em 1935. De facto D. João saiu de Portugal com honras de duque, com uma missão desconhecida, mas possivelmente com a intenção de propor o casamento do imperador alemão José, futuro chefe da casa e Áustria, com uma infanta portuguesa. Fixou residência temporariamente em Inglaterra, tendo sido eleito membro da Royal Society. O que é um facto é que a partir de um dado momento o seu regresso deixou de interessar ao rei D. José e ao seu ministro, o futuro marquês de Pombal.

Ao chegar a Viena, já com a Guerra dos Sete Anos a decorrer, alistou-se no exército austríaco, onde o infante D. Manuel, seu tio assim como do rei D. José, tinha sido general. Foi oficial superior do Regimento de infantaria do Príncipe de Ligne, seu parente, tendo participado nas últimas campanhas da Guerra dos Sete Anos. Com o fim da guerra, em 1763, decidiu viajar tendo visitado a Suíça, Itália, França e o Oriente, percorrido a Grécia e o Egipto. Mais tarde, viajou para Norte visitando a Prússia e a Polónia. Em 1766, foi-lhe proposto integrar o exército austríaco, com o posto de major-general, mas a autorização da coroa portuguesa nunca lhe foi dada.

Em 1778, devido à morte de D. José I e à saída do governo do marquês de Pombal, regressou a Portugal, tendo sido agraciado com o título de duque de Lafões. Em 1780 foi nomeado para o Conselho de Guerra, em 1791 foi escolhido para o cargo de governador das Armas da Corte e Província da Estremadura, sendo promovido a marechal general na mesma data. Em 1796 entrava para o Conselho de Estado. Em 1779, com o abade Correia da Serra, fundara a Academia das Ciências de Lisboa, possivelmente em honra de seu irmão que a tinha proposto em 1721, aquando da criação da Academia Real da História Portuguesa.

Devido ao perigo de guerra com a Espanha, foi nomeado em Janeiro de 1801, mordomo-mor da Casa Real, ministro assistente ao despacho, e secretário de Estado da Guerra. Com a declaração formal da guerra em Março assumiu a chefia do Exército, não querendo entregar o comando ao marechal do Exército conde de Goltz,  contratado para dirigir o exército em campanha. Em Maio dirigiu-se para o Alentejo, palco das principais acções militares da curta "Guerra das Laranjas." Estava em Abrantes, com o Exército, quando recebeu a notificação que o destituía de todos os cargos militares e políticos que ocupava.

Até à sua morte, em 1806, nunca mais exerceu cargos públicos.

Casou  em 1788, com D. Henriqueta de Meneses, filha do Marquês de Marialva, ajudante general do exército durante o seu comando do exército. Teve um filho, que morreu criança, e duas filhas.


Bibliografia:
António Ferrão, O segundo Duque de Lafões e o Marquês de Pombal (Subsídios para a biografia do fundador da Academia das Ciências), Separata do Boletim de Segunda Classe da Academia das Ciências de Lisboa, vol. XIX, Lisboa, 1935;

Rómulo de Carvalho, D. João Carlos de Bragança, 2.º Duque de Lafões, Fundador da Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa, 1987.

Biografia retirada daqui

domingo, 18 de junho de 2017

Sir Wroth Palmer Acland

Entrou para o exército em 1787, sendo tenente em 1790 e capitão no ano seguinte do 17º regimento de infantaria britânico, quando foi  reformado com meio soldo. Com a declaração de guerra voltou ao serviço no 3º regimento.  Serviu na campanha da Flandres e em 1795 foi promovido a major, tendo logo a seguir adquirido o posto de tenente-coronel do regimento n.º 19. Em 1796 foi para o Ceilão com este regimento e mais tarde, em 1799, trocou o seu posto pelo de tenente-coronel, com exercício de capitão, no 2º regimento de guardas, com qual fez a campanha do Egipto em 1801. Em 1803 foi promovido a coronel, e após ter participado na batalha de Maida, em 1807, onde uma força britânica derrotou no sul de Itália uma divisão francesa, foi promovido a brigadeiro sendo-lhe dado o comando de uma brigada na expedição que foi enviada em 1808 em apoio da revolta em Espanha e Portugal contra o domínio francês.
A brigada sob o seu comando fez-se ao mar com a brigada de Anstruther e quando chegou a Peniche, a 18 de Agosto,  recebeu ordens de se dirigir mais para Sul e desembarcar na foz do Maceira, em Porto Novo. Participou, por isso, na batalha do Vimeiro, ocupando uma posição central à esquerda da povoação do Vimeiro. Atacou o flanco direito da coluna francesa que atacou o Vimeiro, ajudando decididamente na derrota do exército francês.

Pouco depois da batalha do Vimeiro regressou a Inglaterra devido a problemas de saúde, não participando na campanha da Corunha, com Moore. Em 1810 foi promovido a major-general e comandou uma divisão na expedição de Walcheren. Em 1814 foi promovido a tenente-general e feito cavaleiro da ordem do Banho.  Em 1815 foi nomeado cornel do 1º batalhão do 60º regimento, e em 1816 morreu devido ao reaparecimento das febres que tinham posto a sua vida em causa em 1808.

Biografia retirada de Arqnet

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Biografia de D.João Carlos de Bragança de Sousa Ligne Tavares Mascarenhas da Silva, 2.º duque de Lafões

n.5 de março de 1719.
f. 10 de novembro de 1806.

Marechal general, fundador da Academia Real das Ciências, etc. 

Nasceu em Lisboa a 6 de março de 1719, faleceu a 10 de novembro de 1806. 

Era filho segundo do infante D. Miguel, filho legitimado do rei D. Pedro II, o qual casara em 30 de janeiro de 1715 com D. Luísa Casimira de Nassau e Sousa, filha do príncipe Carlos José de Ligne, do sacro império romano, senescal do Arnaut, que foi feito em Portugal conde de Miranda pelo seu casamento com D. Mariana Luísa Francisca de Sousa Tavares da Silva, 5.ª condessa desse título, sendo depois o 2.º marquês de Arronches (V. este título), embaixador de Portugal na corte do imperador Leopoldo de Alemanha. Esta senhora foi sucessora da importante casa de Miranda, de todos os bens da coroa e ordens, morgados, padroados, etc. a ela pertencentes. O infante D. Miguel faleceu desgraçadamente em 13 de janeiro de 1724, afogado no rio Tejo, por se ter voltado o escaler que o conduzia da Outra Banda a Lisboa. Sua mulher sobreviveu-lhe perto de cinco anos, falecendo a 16 de maio de 1729. 

O herdeiro de toda esta importantíssima casa foi o filho primogénito de D. Miguel, o infante D. Pedro Henrique de Bragança, de quem adiante falamos, o qual foi o 1.º duque de Lafões, e por sua morte, ficou herdeiro seu irmão D. João Carlos de Bragança, nos senhorios, alcaidarias-mores, comendas, padroados e outros bens por ele possuídos, o qual teve o titulo de 2.º duque do mesmo titulo. A casa de Sousa, donde descendia pelo lado materno, era muito nobre e antiquíssima, pois a instituição daquele senhorio remonta ao ano 300. D. João Carlos de Bragança foi baptizado a 25 de abril de 1719 pelo patriarca D. Tomás de Almeida, sendo padrinho D. João V, seu tio. Estudou humanidades e filosofia juntamente com o duque seu irmão e com o maior aproveitamento, seguindo depois na Universidade de Coimbra o curso de Direito Canónico, entrando como porcionista no colégio de S. Pedro. D. João V destinava-o à carreira eclesiástica, e ainda na infância havia chegado a tomar o hábito; deu-lhe as honras de marquês por aviso de 31 de junho de 1738, tendo a precedência aos marqueses que depois dele fossem criados, e se lhe passou carta com excessiva vantagem, em razão do parentesco, às dos mais marqueses, para cujo efeito baixou o decreto pelo conselho da fazenda, 1 de setembro de 1740, do assentamento do dito titulo de 500$000 réis anuais, passando-lhe carta em 4 de novembro, e de que fossem, sem exemplo, assentados no almoxarifado da imposição dos vinhos desta cidade, onde em 25 de dezembro de 1753 se pôs apostilha de transferência para os receber pela alfândega, juntamente com uma tença de 300$000 réis, de que lhe fora dado um padrão em 25 de junho deste ultimo ano, principiando a vencer por essa casa desde 1 de janeiro de 1752, em diante. 

Em 31 de agosto de 1740 foi nomeado conselheiro do rei D. João, porém, não se conformava com a vida religiosa, para que não se sentia com vocação, o que muito desgostava o seu real tio e protector. Nascera na corte e para corte, atraíram-no os exercícios corporais, as artes nobres, as línguas e as belas letras. Às naturais fidalguias e à afável jovialidade que o tornava de todos tão procurado, juntava muito notável agudeza de espírito e grande propensão ao epigrama, pelo que poucas vezes perdoava a qualquer vício ou ridículo. Na universidade, tanto o reitor como os lentes não tinham tido nunca um discípulo de tão elevada categoria, e na época dos exames ficaram incertos sem saberem qual o formulário que deveriam empregar no modo de o examinarem. Expuseram as suas dúvidas para a corte, e receberam em resposta a seguinte repreensão: 

«Carta régia para Francisco Carneiro de Figueiroa, reitor da Universidade de Coimbra 

– Reitor e lentes da Universidade de Coimbra: eu el-rei vos envio muito saudar. Vi a consulta que me fizestes sobre o formulário dos actos de meu sobrinho D. João Carlos, e, como seja certo que as regras estabelecidas para se guardarem entre os meus vassalos não compreendam as pessoas reais nem as que lhe são imediatas: ora estranho muito as mesmas dúvidas assim por este respeito que não deveis perder de vista, como porque destes a conhecer a fraqueza dessa universidade na ignorância que tendes para poder tratar com pessoas de alta qualidade. Fazei também estudo político, que é preciso aos homens que desejam ser sábios, se quereis merecer a minha protecção, Lisboa, 4 de abril de 1742. 

Rei.»

«Aviso de Alexandre de Gusmão ao Sr. D. João; 

Ill.mo e Ex.mo Sr. El-rei viu a consulta da Universidade pela qual se certificava das dúvidas que tinham o reitor e lentes dela sobre o formulário dos actos de V. Ex.ª, e dando-se por mal servido, os repreende por carta deste correio. Viu também a carta de V Ex.ª, e ponderando os seus escrúpulos, o quer eximir deles, mandando que V. Ex.ª se recolha à corte, sem despedir-se de pessoa alguma empregada no ministério da Universidade. A pessoa de V Ex.ª guarde Deus muitos anos, Lisboa, 4 de abril de 1742, etc».

«No sobrescrito deste Aviso lia-se: «Ao Sr. D. João Carlos de Bragança, príncipe do sangue da real família de Portugal, Coimbra.» Em vista deste aviso, o príncipe D. João Carlos recolheu-se a Lisboa, e aqui se demorou até à morte do monarca. Começando o novo reinado, com a subida ao trono do rei D. José, mudou-se o aspecto da corte. Os foros da nobreza, sucessivas vezes exorbitantes e nem sempre pacíficos, eram forçados a abaixar-se ante o poder ilimitado do ministro Sebastião José de Carvalho e Melo. A nobreza não abandonou nunca de bom grado os seus privilégios, e à impressão de espanto sucedeu o instinto da resistência. Com a sua atitude mostrou a nobreza que as inovações do ministro não seriam aceites sem luta. D. João Carlos de Bragança, que pelas primazias do engenho e dotes do coração se fizera já bem quisto dos jovens fidalgos e do povo, pela hierarquia, pelo sangue e nome que o traziam perto do trono, e por isso o faziam menos acessível às repressões, parecia talhado, depois dos Marialvas, satisfeitos ou indiferentes, para chefe e centro temível das oposições áulicas. O conde de Oeiras, porém, não esmorecia na sua reconhecida energia, e não tardou, apesar de ser quem era, que D. João Carlos de Bragança recebesse as mais visíveis provas de desagrado do soberano. Morrera-lhe o seu irmão mais velho em 1761, sem deixar sucessor, e pertencia-lhe de direito a casa e o título de duque, e o rei negou-lhe a sucessão no ducado. 

O príncipe D. João percebeu o golpe, e não quis reagir, apesar de o poder fazer; considerando a sua falsa posição na corte, resignou-se e pediu licença para sair do reino, que logo lhe foi concedida. Foi então residir para Inglaterra, e ali se relacionou com os mais conhecidos eruditos, fortalecendo com o estudo e aquela convivência o amor à ciência, e tanto se salientou e tanta estima adquiriu, que mereceu a grande honra de ser nomeado membro da Sociedade Real de Londres, distinção que acima de todas apreciava, dizendo que só a devia a si próprio. Contudo, o culto pelas armas também o animava. Declarara-se a guerra entre a Áustria e a Prússia, e alistou-se como voluntário, defendendo a bandeira austríaca, militando na guerra dos Sete Anos, distinguindo-se na batalha de Maxen, em que a sorte das armas se decidiu contra Maria Teresa, de Áustria, terminando aquela guerra com a paz de Hubertsburgo, e a perda da Silésia, que passou às mãos do vencedor. D. João Carlos de Bragança ficara entre os vencidos, mas foi saudado pelos camaradas e pelos próprios inimigos pelo seu denodo e galhardia. Despreocupado, e impossibilitado ainda de voltar à pátria, empreendeu uma série de viagens, com as quais o seu esclarecido espírito muito se enriqueceu. Por duas vezes percorreu a Suíça, a Itália e a França. Visitou depois sucessivamente a Grécia europeia, o Egipto, a Trácia, a Frigia, a Lídia, a Tessália e a Mesopotâmia. Mais tarde esteve na Prússia, Polónia, Suécia, Dinamarca e Lapónia. Em todas as cortes estrangeiras era admirada a sua ilustração, sendo bem acolhido pelos soberanos e homens notáveis, mantendo com o imperador José II da Alemanha tão cordiais e afectuosas relações que, ainda depois de viver em Portugal, não deixou o imperador de se corresponder com o seu dilecto amigo. 

Falecendo o rei D. José em 1777 e terminando com a sua morte o governo do marquês de Pombal, voltou à pátria em 1779 D. João Carlos de Bragança, depois duma ausência de dezassete anos, já no reinado da rainha D. Maria I. Esperavam-no os mais altos favores do trono como para lhe compensar o longo, ainda que espontâneo, desterro. Recebeu o título de duque de Lafões, que lhe fora negado, sendo-lhe então restituídas as comendas de que fora, privado, com os seus atrasados rendimentos, por alvarás de mercê; nos anos de 1777 e 1778 e as custas no de 1781. Por carta de 11 de Abril de 1780 se lhe fez assentamento de mais 250$000 réis para, com os 500$000 réis que percebia como marquês, completar 750$000 réis do título de duque e vencendo este assentamento anualmente desde o dia em que o fora feito. Por decreto de 15 de setembro do mesmo ano teve a nomeação de conselheiro de guerra, e mais tarde, a de conselheiro de Estado, em 9 de julho de 1796. Sucedeu no governo das armas da corte ao tenente general conde de Azambuja, e comandou as tropas no seu funeral. Por decreto de 13 de maio de 1791 foi nomeado marechal general encarregado do governo das armas de todas as tropas de infantaria, cavalaria, artilharia e corpo de engenheiros, e director de todas elas. A carta régia do príncipe regente de 26 de janeiro de 1801 o nomeou mordomo-mor, mas já tinha esse cargo no dia 6 do referido mês, data do decreto porque o mesmo senhor o nomeara ministro assistente ao despacho do gabinete, para todos os negócios e incumbências de que o regente fosse servido encarregá-lo, em todos os ramos da administração publica, que se achavam divididos pelas secretarias do Estado, encarregando-o particularmente do expediente dos negócios da guerra, que o regente havia separado da secretaria de Estado a que pertencia. A sua ilustração e persistência durante largos anos nas cortes estrangeiras lhe adquiriram a maior influência na corte. O seu parecer era frequentemente consultado e as suas opiniões escutadas com o máximo interesse. 

No seu regresso a Portugal ouvira o duque de Lafões, em Nápoles, falar muito vantajosamente do erudito abade José Correia da Serra, que então vivia em Roma. O duque não se descuidou de relacionar-se com o seu ilustrado compatriota, e teve a fortuna de o trazer consigo para Lisboa, hospedando-o no seu próprio palácio. José Correia da Serra veio a ser o mentor e o guia do duque nas suas lucubrações literárias e científicas. O ilustre fidalgo e Correia da Serra lembraram-se então de fundar uma sociedade cientifica e literária, que estivesse à, altura das outras sociedades congéneres existentes na Europa, e substituísse a decadente e quase moribunda Academia Real de Historia Portuguesa, fundada por D. João V em 1720. Obtido o beneplácito régio instituiu-se a Academia Real das Ciências de Lisboa, cujos estatutos foram aprovados em 24 de dezembro de 1779. Esta academia ficou constituída com os homens mais eminentes em ciências e em letras que nessa época viviam em Portugal. A primeira sessão realizou-se em 16 de janeiro de 1780, em que o duque de Lafões foi eleito sócio efectivo na classe de literatura portuguesa, e na seguinte sessão nomeado presidente perpétuo, e o abade José Correia da Serra primeiro secretario (V. Academia Real das Ciências). Na sessão de 2 de outubro, foi o duque nomeado membro da comissão de Industria Nacional. Como estadista, o duque de Lafões, que perfeitamente conhecia o estado da Europa, não cessava de aconselhar que se mantivesse uma prudente , neutralidade nas guerras que rebentaram, quando começou em França a grande revolução, mas o seu voto não foi atendido, prevalecendo nos conselhos do príncipe regente D. João o fanatismo monárquico de alguns ministros, de que resultaram os graves acontecimentos já bem conhecidos. 

Entrámos com a Espanha e a Inglaterra na luta contra a França, fizeram-se terríveis sacrifícios, tendo-se em paga o abandono da Espanha que negociou sozinha com a França, deixando-nos nos maiores embaraços, e o abandono da Inglaterra que levara a nossa esquadra a sitiar Toulon, deixando a descoberto as nossas colónias e o nosso comércio. Finalmente, em 1801 a Espanha aliada com a França veio declarar guerra a Portugal, e a Inglaterra deixou-nos completamente sós. O exército espanhol do Príncipe da Paz transpôs as fronteiras do Alentejo. Todos se confiavam na experiência militar do antigo voluntário de Maria Teresa de Áustria, e o duque de Lafões, apesar de já ter oitenta e dois anos de idade, foi no seu posto de marechal general tomar conta do comando do exército português. Desenvolveu a maior actividade, procurando organizar energicamente a defesa, mostrando haver cursado boa escola. O rápido e deplorável desfecho da campanha com a capitulação das nossas praças de guerra, e o malogro de justíssimas esperanças, tudo devido a rivalidades, egoísmos, intrigas e vindictas, tornaram mal visto aquele período fatal do ano de 1801, ficando na sombra os verdadeiros autores e responsáveis das suas catástrofes. O general Francisco de Borja Garção Stockler justificou brilhantemente o duque marechal, conservando e publicando nas Cartas ao autor da Historia Geral das invasões francesas, as ideias que em tão breve prazo ele chegara a formular para o restabelecimento do sistema militar do país. Teoricamente, eram tais ideias e planos de um capitão consumado nas coisas da guerra. Praticamente, foi dirigida pelo duque em pessoa a única operação importante que teve lugar no Alentejo, operação por meio da qual salvou o exército, efectuando habilmente a junção das suas forças com a divisão inglesa do general Fraser e os regimentos de Lippe e Lisboa, que iam, com alguns esquadrões de cavalaria, em marcha pelo Crato sobre Portalegre. O duque de Lafões, nesse mesmo ano de 1801, retirou-se à vida privada, no seu palácio situado no sítio do Grilo, entregando-se nos últimos anos aos seus trabalhos literários e científicos. Ali reunia os homens mais eruditos, com quem sustentava conversações, e discussões científicas; inspeccionava as muitas obras que trazia nas suas quintas, e coligiu uma copiosa livraria rica de edições e manuscritos raros, e a galeria de pintura existente no referido palácio do Grilo. 

O duque de Lafões casou com D. Henriqueta Júlia Lorena e Meneses, filha dos marqueses de Marialva; deste consórcio houve um filho, que faleceu com seis anos de idade, e foi duque de Miranda do Corvo; e duas filhas: uma que herdou o titulo de duquesa de Lafões, e casou com D. Segismundo, irmão do duque de Cadaval; a seu pai fora feita mercê, por alvará de 19 de dezembro de 1805, dos bens da coroa e ordens, e dos títulos de juro e herdade, para esta sua filha sucessora da sua casa. A outra filha casou com o duque de Cadaval. O duque de Lafões era grã-cruz, alferes da ordem de Cristo, por decreto de 9 de novembro de 1789 tendo começado já a usar desta insígnia em 15 de setembro antecedente. Também possuía a grã-cruz da Legião de Honra, de França. A Academia Real das Ciências, em gratidão para com o seu fundador, resolveu em 1817 mandar fazer o busto do duque de Lafões para ser colocado na sala das sessões. O encarregado do trabalho da escultura foi o professor Joaquim Machado de Castro, que era sócio correspondente da mesma academia. A Academia tinha deliberado que as despesas da feitura do busto corressem por conta dos sócios, e não pela do cofre; sucedeu, porém, que a quota de contribuição se tornasse muito módica, porquanto Joaquim Machado de Castro se prestou generoso a executar de graça a parte mais essencial da obra, isto é tudo o que pertencia ao trabalho pessoal do artista. O vice-presidente disse que as diferentes transacções correriam pela sua mão, e se anunciara com prazer ao corpo académico o desinteresse do artista insigne, tivera também a satisfação de ver o bem merecido apreço que se fez daquela oferta, e o voto unânime de ela ser de alguma forma compensada por este testemunho publico de gratidão, e pelo dom de uma medalha de ouro, o maior prémio com que entre nós se costuma gratificar o saber e os talentos É honra para a Academia poder apresentar a nacionais e a estrangeiros este belo monumento de gratidão à memória do seu fundador. O busto fez se, e colocou-se efectivamente na referida Sala, sobre um pedestal feito de madeira. Em 1866, porém, sendo presidente o rei D. Fernando, resolveu a Academia substituir este pedestal, que se considerava impróprio, por um outro de mármore, que neste ano foi colocado na referida sala, onde ainda hoje existe. O pedestal de madeira está na sala que antecede a das sessões sobre o qual se vê o modelo da estátua equestre de D. Pedro IV, que está na praça de D. Pedro, no Porto. No pedestal gravou-se a seguinte inscrição:

JOANNIS CAROLI A BRAGANTIA
ALAFONENSIS DUCIS
AVIS EDITI REGIBUS
ANNO SALUTIS MDCCXIX NATI
MDCCCVI DEMORTUI
BELLICA VIRTUTE
MILITARIBUS DISCIPLINIS
OMNIBUS ARTIBUS INGENUIS
DOMI ET APUD EXTERAS GENTES
CLARISSIMI
INGENIORUM FAUTORIS MUNIFICI
HANC EFFIGIEM
OLIM A JOACHIMO MACHADO DE CASTRO SCULPTAM
REGNANTE LUDOVICO I
REGE FERDINANDO II PRESIDE
REGIA SCIENTIARUM OLYSSIPONENSIS ACADEMIA
TANTI VIRI FUNDATORIS SUI
NON IMMEMOR
HEIC PONENDAM CURAVIT
ANNO MDCCCLXVI

Acerca do duque de Latões, pôde ver-se o Arquivo Pitoresco, vol. IX, pág. 147; A Historia dos estabelecimentos científicos, literários e artísticos de Portugal, de José Silvestre Ribeiro; vol. II, pág. 37 a 61, e 267 a 369; Ilustração, vol. II, pág. 22; Universo Pitoresco, vol. III, pág. 328; Elogio histórico, por José da Silva Mendes Leal, recitado na Academia Real das Ciências em 1860.

Biografia retirada daqui

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